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— Oh, Deus... — balbuciou ele.

— É para o seu prazer apenas, meu querido — disse ela, inebriada por sua ousadia, rindo do rubor de Malcolm, para depois, contente, levantar as saias por cima da cabeça por um instante, deixando-as cair em seguida, se abanando, esbaforida. — É a última moda, não se usam mais aqueles calções horríveis. O colunista de Le Figaro diz que hoje em dia algumas das mais famosas damas de Paris nem mesmo usam calcinhas na Ópera... em ocasiões especiais... para o prazer secreto de seus amantes!

— Não ouse fazer isso! — exclamou Malcolm, rindo também, arrebatado pela exuberância dela. Ele pegou-a pela mão, puxou-a para seu colo. — O simples pensamento me levaria à loucura.

Angelique comprimiu a cabeça contra seu ombro, satisfeita por seu estratagema ter dado certo.

— Acho que vou sussurrar em seu ouvido durante o jantar, algumas vezes, ou quando estiver dançando, que esqueci de vesti-las... só para provocar meu príncipe encantado, mas apenas depois que casarmos, e só para diverti-lo. Não se importa, não é, chéri... a nova moda, sem aqueles calções horríveis?

— Claro que não — respondeu Malcolm, como um homem experiente, embora secretamente não o fosse. — Se é a moda, então é a moda.

— Disse que a festa desta noite seria uma celebração? A maior parte da jovialidade de Malcolm se desvaneceu.

— Deveria ser, mas... Seja paciente comigo, Angel. Dentro de poucos dias poderei lhe contar o verdadeiro motivo... apenas tive de adiar um pouco. Enquanto isso, saiba que amo você, amo você, amo você...

O tempo mudou à noite, mas isso não arrefeceu o clima da festa de Malcolm. A sala de jantar principal do prédio Struan fora construída para grandes ocasiões e ofuscava todas as outras instalações particulares da colônia, exceto o clube. Prataria faiscante, copos de cristal, a melhor porcelana de Pequim, os trinta e tantos convidados em trajes a rigor ou uniformes de gala. Hoag declinara o convite, pois estava com febre.

O jantar foi lauto, como sempre, e prolongado. Agora, sob aclamações, a mesa comprida foi encostada na parede — uma ocorrência rara, mas quase obrigatória sempre que Angelique se encontrava presente, todos os convidados querendo dançar com ela. Menos Jamie... mas apenas por aquela noite. Como combinara antes com Malcolm, Jamie retirou-se discretamente, durante a confusão do deslocamento da mesa.

— Desculpe, mas não sinto vontade de dançar e vou embora, tai-pan.

— Ambos juramos esquecer o episódio da lancha hoje.

— Não é isso. Quero apenas ordenar meus pensamentos.

Naquela noite, Angelique era a única mulher presente, já que as outras duas como Hoag, estavam lamentavelmente doentes, e ela foi escoltada ao ritmo vertiginoso de valsas e polcas tocadas por André Poncin, num piano de cauda importado sob aplausos gerais na primavera. Uma dança por convidado era a regra, ela tinha permissão para descansar depois de quatro danças, e podia parar sempre que quisesse. Seu rosto resplandecia; usava um vestido novo de seda, vermelho e verde, mas sem a armação de uma saia-balão, o que realçava a cintura fina e o busto cheio, os mamilos quase à mostra, na moda decretada por Paris, deplorada pelo clero ausente, e devorada por todos os homens na sala.

— Já chega, mes amis — anunciou ela, depois de uma hora, sob os lamentos e súplicas daqueles que ainda não haviam dançado, e voltou para Malcolm, abanando-se, exultante.

Ele sentava numa enorme cadeira de carvalho, toda lavrada, à cabeceira da mesa, embalado pelo vinho e conhaque. Gostava de apreciá-la tanto quanto qualquer outro, embora se sentisse, como sempre, profundamente frustrado por não ter reivindicado a primeira dança, nem a última, como seria seu direito. Antes, era um grande dançarino.

Angelique acomodou-se no braço da cadeira. Malcolm passou o braço por sua cintura, enquanto ela estendia o seu pelos ombros dele.

— Você dança maravilhosamente, Angel.

— Nenhum deles é tão bom quanto você — sussurrou ela. — Foi o que primeiro me atraiu em você, príncipe encantado...

Gritos de expectativa interromperam-na. Para seu constrangimento e consternação, os dedos de André iniciaram os primeiros acordes do cancã, lentos e sedutores. Angelique sacudiu a cabeça, não se mexeu.

Para sua surpresa, sob gargalhadas, Pallidar e Marlowe foram para o centro da sala, toalhas presas em torno do uniforme, como saias, o ritmo alegre da música se acelerou, e eles iniciaram uma paródia hilariante da dança que escandalizava o mundo civilizado, fora de Paris, cada vez mais depressa, erguendo as falsas saias mais e mais alto, os pés subindo mais e mais, sob gritos, zombarias e risadas, todos batendo os pés em acompanhamento, até que os dois homens, de rosto vermelho e suando, nos uniformes apertados, tentaram um split e desabaram no chão, aos brados de “bis! bis!” e aplausos ensurdecedores.

Rindo com os outros, Malcolm largou-a, e ela se adiantou para ajudá-los a levantar, dando os parabéns e elogiando seus esforços. Pallidar ofegava e simulou um gemido.

— Acho que entortei as costas para sempre.

— Champanhe para o exército e rum para a marinha! — gritou Angelique.

Ela deu os braços aos dois e levou-os até Malcolm, para mais elogios. Sorrindo para ele, comentou:

— Nada de cancã para mim, não é mesmo, querido?

— Seria demais.

— Concordo — disse Marlowe.

— Também acho — arrematou Malcolm, partilhando o sorriso secreto com a noiva, num agradável excitamento.

Ao recomeçar a tocar, André escolheu uma valsa. Era apenas o suficiente para ela mostrar os tornozelos enquanto rodopiava, mas não o bastante para revelar a ousada ausência das pantalonas. Fora ele quem lhe mostrara o artigo em Le Figaro, encorajara-a, e partilhava o segredo. Durante toda a noite, observara-a e aos homens que a adulavam — Babcott pairando acima de todos os outros, depois os esplendorosos Pallidar e Marlowe, tentando afastá-lo do círculo íntimo —, saboreando seus segredos, e também, no momento, a vida dentro de uma vida que ele levava. Angelique dançava agora com Sir William. Rindo para si mesmo, André deixou a mente vaguear, enquanto os dedos continuavam a tocar. O que fariam todos se soubessem o que sei? Sobre os brincos, o aborto, e como me livrei da prova? Todos se voltariam para ela como se fosse uma leprosa, inclusive o apaixonado Struan, ele mais ainda.

Se as coisas fossem diferentes, e eu estivesse em Paris com ela, apoiado pelo poder e dinheiro da Casa Nobre, com um marido que a adora, mas inválido, quantos segredos poderia obter! Angelique precisaria de um treinamento mais extenso nas artes femininas, não tão gentis quanto se podia imaginar, suas garras teriam de ser afiadas, mas depois se tornaria uma clássica, qualquer salão e qualquer cama a acolheriam com o maior prazer, e depois que experimentasse o Grande Jogo, aquela menina tão astuta haveria de se empenhar com a maior satisfação.