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No instante em que Raiko me apresentou à moça...

No instante em que a vi, com seus cabelos negros, pele de alabastro, olhos fascinantes, compreendi que daria a Raiko até minha alma, e mergulharia no abismo eterno para possuí-la. Eu, André Eduard Poncin, servidor da França, mestre da espionagem, assassino, perito na vileza da natureza humana, eu, o grande cínico, me apaixonei à primeira vista. Uma loucura! Mas a verdade.

Assim que a moça se retirou, eu, desamparado, emocionado, balbuciei:

— Raiko, por favor, pago qualquer coisa que pedir.

— Sinto muito, Furansu-san, mas custará mais dinheiro do que me agrada mencionar, mesmo que ela concorde em ficar com você... o que ainda não ocorreu.

— Pago qualquer dinheiro. Por favor, pergunte se ela aceita.

— Está bem. Por favor, volte amanhã, ao anoitecer.

— Não. Por favor. Pergunte agora... eu espero.

E ele tivera de esperar quase duas horas. Enquanto esperava, angustiado, rezara e torcera, morrera, e tornara a morrer. Quando Raiko voltara, ele vira sua expressão determinada, começara a morrer mais uma vez, mas ressuscitara quando ela dissera:

— O nome dela é Hinodeh, que significa alvorecer. Tem vinte e dois anos, diz que sim, mas há condições. Além do dinheiro.

— Tudo o que Hinodeh quiser.

— É melhor escutar primeiro. — Raiko parecia mais sombria do que ele jamais a vira. — Hinodeh diz que será sua consorte, não cortesã, por um ano e um dia. Se nesse último dia ela decidir continuar com você, vai lhe dar seu inochi, seu espírito, e passará mais um ano em sua companhia, e outro, mais outro, ano a ano, até decidir deixá-lo ou você se cansar dela. Se ela decidir ir embora, você jura que vai liberá-la, sem problemas.

— Concordo. Quando começamos?

— Espere, Furansu-san, há muito mais. Não haverá espelhos em sua casa e você não levará nenhum. Quando ela se despir, o quarto estará sempre no escuro-exceto uma vez, a primeira. Apenas uma vez, Furansu-san, poderá vê-la. Depois, no momento em que qualquer... qualquer marca desfiguradora aparecer, ou quando ela quiser lhe pedir, você deverá sem hesitação fazer uma reverência, abençoá-la, ser sua testemunha, e entregar a taça de veneno, ou faca, assistir e esperar até que ela esteja morta, para honrar seu sacrifício.

A mente de André entrara em vertigem, fora de controle.

— Morta?

— Ela disse que prefere a faca, mas não sabia qual seria a escolha de um gai-jin.

Quando conseguira pôr o cérebro para funcionar, André murmurara:

— Eu... eu serei o juiz... se a marca desfiguradora aparecer?

Raiko dera de ombros.

— Em você ou nela, não importa. Se ela resolver pedir, você deve cumprir sua promessa. Tudo ficará por escrito no contrato. Concorda?

Depois de absorver isso, em todo o seu horror, de aceitar, ele indagara:

— Quer dizer que a doença nela ainda se encontra no início, não há marcas?

Os olhos de Raiko se mostraram implacáveis, a voz era gentil, mas inexoráveclass="underline"

— Hinodeh não tem doença, Furansu-san, absolutamente nenhuma. É imaculada.

A cabeça de André parecia prestes a explodir, com o “é imaculada” ressoando pelo cérebro, junto com o brado para si mesmo “mas você é impuro!”

— Por quê? Por que ela concorda? Por quê? Ela não sabe que estou doente?

Uma criada, esperando lá fora, na varanda, assustara-se com seu grito e abrira a porta de shoji. Raiko acenara com a mão e a criada, obediente, tornara a fechá-la. Com extrema delicadeza, Raiko tomara um gole de saquê.

— Claro que ela sabe, Furansu-san. Sinto muito.

Ele removera a saliva dos cantos da boca.

— Então por que... ela concorda?

Outra vez uma expressão estranha.

— Hinodeh não quis me dizer. Sinto muito. É parte do meu acordo com ela. Não devo pressioná-la para saber, o que deve constar do seu acordo com ela. Não podemos pressioná-la. Ela diz que contará tudo no momento que julgar mais conveniente. — Raiko soltara um suspiro profundo. — Sinto muito, mas você deve concordar com isso, como parte do contrato. É essa a condição final.

— Concordo. Por favor, prepare o contrato...

Depois de uma longa agonia — apenas uns poucos dias —, o contrato fora assinado e lacrado, e André se encontrara com Hinodeh, ele impuro, ela pura, em toda a sua glória, e amanhã haveria outro encontro...

André quase deu um pulo quando alguém pôs a mão em seu ombro e descobriu-se de volta à enorme sala do prédio Struan. Era Phillip, que disse:

— Você está bem, André?

— Como? Ah, claro... — O coração de André palpitava, um suor frio deixava toda a sua pele arrepiada, na lembrança do “imaculada” e “primeira vez”, de todo o horror da situação... temendo o dia seguinte. — Desculpe, eu... senti um súbito calafrio.

No mesmo instante, ele experimentou a sensação de que a sala o pressionava ameaçando sufocá-lo, precisava sair dali, respirar um pouco de ar fresco. Levantou-se, meio trôpego, balbuciando:

— Peça... peça a Henri para tocar... eu... não me sinto bem... tenho de ir embora...

Aturdido, Tyrer observou-o se afastar. Babcott veio da mesa de roleta.

— O que houve com ele? O pobre coitado dá a impressão de que acaba de ver um fantasma.

— Não sei, George. Num momento ele estava bem, no seguinte ficou branco que nem um lençol, o suor escorrendo.

— Foi alguma coisa na conversa?

— Acho que não. Ele apenas me aconselhava sobre o que fazer com Fujiko e Raiko, nada que o envolvesse pessoalmente.

Os dois olharam André se retirar, como se a sala estivesse vazia. Babcott franziu o rosto.

— Uma atitude insólita, pois ele é geralmente afável. — Pobre coitado, deve ser sua aflição... eu bem que gostaria de poder lhe proporcionar uma cura, bem que gostaria que Deus nos oferecesse uma cura.

— Por falar nisso — disse Tyrer —, eu não sabia que você era um dançarino tão hábil.

— Nem eu — respondeu o gigante, com uma risada trovejante. — Fui inspirado... ela inspira qualquer um. Normalmente, danço como um rinoceronte.