— Se... se souber de alguma coisa, eu agradeceria se pudesse ouvir primeiro, em particular, o mais depressa possível.
— Está certo, posso mantê-lo informado. Em particular.
Malcolm estendeu a mão para a garrafa de conhaque.
— Tem certeza que não quer?
— Não, não quero. Obrigado.
— Há alguma solução para o meu problema?
— Eu lhe diria se houvesse. — Sir William manteve a voz formal, para encobrir uma súbita irritação. Como se uns poucos meses pudessem fazer alguma diferença, já que a moça não está morta, ao contrário de Vertinskya, e continua a ser maravilhosa. — Seu aniversário é iminente, e Hong Kong fica a apenas oito ou nove dias de viagem. Claro que terei o maior prazer em recebê-lo às onze horas de amanhã, ou em qualquer outra ocasião, mas isso era tudo que eu tinha para falar. Boa noite, Malcolm, e mais uma vez, obrigado pela festa.
Já passava de meia-noite. Malcolm e Angelique beijavam-se ardentemente no corredor, fora de suas suítes adjacentes. O corredor estava escuro, havia apenas umas poucas luzes noturnas. Ela tentava contê-lo, mas também gostava, mais e mais a cada dia, o calor de Malcolm esquentando-a mais do que no dia anterior... e naquela noite a necessidade de ambos era quase irresistível.
— Je taime — murmurou Angelique, sincera.
— Je t’aime aussi, Angel.
Ela tornou a beijá-lo, depois cambaleou para trás, mais uma vez, quando já se encontrava na beira do abismo, e manteve-o a distância, enquanto recuperava o fôlego.
— Je t’aime... foi uma festa adorável.
— Você foi como champanhe.
Ela beijou-o na orelha, seus braços o enlaçaram. Antes da Tokaidô, teria ficado na ponta dos pés. Não notava isso, mas Malcolm sabia.
— Lamento ter de dormirmos separados.
— Eu também, mas não falta muito agora. — Abruptamente, a dor se manifestou, mas ele a suportou por mais um momento. Fitou-a nos olhos. — Só mais um pouco. Durma bem, minha querida.
Os lábios se encontraram, eles murmuraram boa-noite, várias vezes, e depois Angelique se foi. Trancou sua porta. Malcolm pegou as bengalas, claudicou até seus aposentos, feliz e triste, preocupado e sem qualquer preocupação. A noite fora um sucesso. Angelique ficara contente, os convidados haviam se divertido, ele reprimira o desapontamento pelo fracasso de seu plano e confrontara o problema da correspondência, não permitindo que Jamie tomasse a decisão em seu lugar.
E fora a decisão certa, pensou ele, embora Dirk pudesse ter feito melhor. Não importa, nunca poderei ser como ele, Dirk morreu, eu estou vivo, e Heavenly prometeu encontrar uma solução para as cartas dele, dar um novo rumo ao meu destino:
— Deve haver uma solução, tai-pan. Descobrirei alguma coisa antes de partir para Hong Kong, pois precisará daquela prova, independentemente do que venha a acontecer.
Os olhos de Malcolm desviaram-se para a porta de comunicação, ainda trancada à noite, em caráter permanente, por consenso mútuo. Não vou pensar em Angelique, na tranca, ou que ela está sozinha. Nem sobre o meu fracasso ou nosso casamento. Fiz essa promessa antes e a cumprirei. Amanhã cuidarei do amanhã.
A meia garrafa de vinho habitual esperava na mesinha-de-cabeceira, com algumas frutas — entre as quais mangas de Nagasáqui —, queijo inglês, chá frio, que ele sempre tomava em vez de água, um copo e o vidro pequeno. A cama estava preparada, seu camisolão estendido em cima. A porta foi aberta.
— Olá, tai-pan.
Era Chen, seu criado número um, com o sorriso largo, de muitos dentes, que sempre o agradava. Chen cuidava dele desde que podia se lembrar, assim como Ah Tok sempre fora sua ama, ambos de uma lealdade total, possessivos, sempre em desavença. Era um homem atarracado, muito forte, o rabicho exuberante, o rosto redondo, com um sorriso permanente, que nem sempre se transmitia aos olhos.
— Seu banquete foi digno do imperador Kung.
— Ah! — exclamou Malcolm, azedo no mesmo instante, sabendo o que o velho insinuava. — Que a grande vaca possa urinar em suas gerações imediatas. Faça logo o seu trabalho, guarde suas opiniões para si mesmo, e não se comporte como se tivesse nascido sob o signo do macaco.
Era o signo zodiacal para as pessoas espertas. O aparente gracejo de Chen, como a maioria em chinês, possuía muitos significados: o imperador Kung, que reinara na China quase quatro milênios antes, era famoso por três coisas, seus gostos epicuristas, os lautos banquetes que promovia, e seu “livro”.
Naquela época, não havia livros como se conhecia hoje, apenas pergaminhos. Ele preenchera um pergaminho com um tratado detalhado, o primeiro “livro de travesseiro”, a fonte de todos os outros que, por definição, versavam sobre as conjunções de homem e mulher, em todas as suas possibilidades e riscos, como melhorar o momento do orgasmo, os nomes para as diversas posições e suas minúcias, descrições de artefatos, poções, técnicas — arremetidas profundas e superficiais —, como escolher a parceira física certa, e dizendo, entre outras sabedorias:
...obviamente, um homem cujo Monge Caolho tenha o infortúnio de ser pequeno não deve se lançar a um embate com um Portão de Jade como o de uma égua.
Que seja conhecido por todos os tempos, os deuses determinaram que essas partes podem parecer iguais, mas apesar disso variam bastante. Deve-se usar de extremo cuidado para evitar a armadilha dos deuses, que enquanto concediam ao homem os meios, assim como uma necessidade tão forte e tão permanente quanto a agulha que procura a Estrela do Norte, para saborear o Céu na Terra — o momento das Nuvens e da Chuva é assim —, ao mesmo tempo, para sua diversão, criaram múltiplos obstáculos no caminho da busca do yang pela yin, alguns fáceis de evitar, a maioria impossível, todos complexos. Como o homem deve saborear tanto quanto puder do Céu enquanto estiver na Terra — quem sabe se os deuses são realmente deuses —, o Too, o Caminho para a Ravina Deslumbrante, deve ser visto, examinado, perseguido e estudado com uma intensidade maior do que a transmutação de chumbo em ouro...
Chen circulou pelo quarto, magoado, mas ao mesmo tempo satisfeito pelo conhecimento de seu amo. Apenas cumpria seu dever, chamando a atenção para a força da yin, em particular naquela noite, com tanta ostentação, a dança e os beijos, provocando o yang do amo, e sobre isso o imperador fora bastante específico: Um yang nervoso e não satisfeito em qualquer casa, se for o do amo, vai transtornar toda a casa, e por isso todos devem envidar esforços para aliviar o desamparado.
E nossa casa se encontra em turbilhão, pensou Chen, contrariado. Ah Tok se mostra mais difícil do que nunca. Ah Soh resmunga pelo trabalho extra e a preocupação, os cozinheiros se queixam da perda de apetite do amo, os criados lamentam que nada o agrada, e tudo porque essa prostituta bárbara, que mais parece uma vaca, não quer cumprir o seu dever. A opinião geral entre os criados era a de que ela devia possuir uma dessas ravinas vorazes contra as quais o imperador Kung alertara: