Baixou os olhos para o copo de cristal lapidado e as borbulhas do champanhe indagando-lhes se estava correto ao pensar que o momento oportuno era agora ou se deveria esperar. Os olhos castanhos-amarelados tornaram a avaliar Struan. Decidiu correr o perigo.
— Tem a reputação de gostar de segredos e ser digno de confiança.
— Você também é assim?
— Em questões de honra, sou. Sua reputação... gosta de histórias, legendas?
Malcolm fez um esforço para se concentrar, desconcertado com a irrealidade da reunião e com o homem à sua frente.
— Algumas mais do que outras.
— Estou aqui sob um falso pretexto. — O sorriso repentino de Gornt iluminou a sala. — Por Deus, não posso acreditar que estou de fato aqui, com o futuro tai-pan da Casa Nobre! Esperei e planejei por tanto tempo para esta reunião e agora chegou o momento. Antes de vir para cá, eu não tinha a menor intenção de dizer qualquer coisa agora, exceto o que o Sr. Greyforth me pediu para falar. Mas agora?
Ele ergueu o copo.
— À vingança.
Malcolm pensou a respeito por um instante, sem medo, fascinado, depois bebeu, serviu-se de mais champanhe.
— É um bom brinde na Ásia.
— Em qualquer lugar. Primeiro: preciso de sua palavra de honra, a honra do tai-pan da Casa Nobre, diante de Deus, de que tudo o que eu disser permanecerá em segredo entre nós, até que eu o libere.
Malcolm hesitou.
— Desde que seja uma história. E ele fez o juramento.
— Obrigado. Vamos à história. Estamos seguros aqui? Alguém pode nos ouvir?
— Na Ásia, quase sempre. Sabemos que as portas têm ouvidos, assim como paredes, mas posso dar um jeito. Chen!
Aporta foi aberta no mesmo instante. Em cantonês, Malcolm ordenou:
— Fique longe da porta, mantenha todos afastados, até mesmo Ah Tok!
— Pois não, tai-pan. A porta foi fechada.
— Agora está seguro, Sr. Gornt. Conheço Chen durante toda a minha vida, e não fala inglês... eu acho. Fala xangainês?
— Um pouco, assim como o dialeto Ning poh.
— Estava dizendo?
— É a primeira vez que conto a história a alguém — afirmou Gornt e Malcolm acreditou. — Era uma vez uma família que foi para a Inglaterra, saindo de Montgomery, Alabama... seu lar por gerações... pai, mãe, dois filhos, um garoto e uma menina. Ela tinha quinze anos, seu nome era Alexandra, e o pai era o mais jovem de cinco irmãos, Wilf Tillman o mais velho.
— O co-fundador da Cooper-Tillman? — indagou Malcolm, surpreso.
— Isso mesmo. O pai de Alexandra era um pequeno corretor de chá e algodão, um investidor com o irmão Wilf na Cooper-Tillman. Foi para Londres trabalhar com a Rothwell, num contrato de três anos, como assessor no algodão... a Cooper-Tillman era a maior fornecedora. Permaneceram em Londres pouco menos de um ano. Infelizmente, os pais adoeceram, o que não é de admirar, com o fog, aquele clima horrível. Eu mesmo quase morri quando estive lá... passei dois anos em Londres em treinamento na Brock, e mais um na Rothwell. Mas voltemos à história. Os Tillmans decidiram voltar para casa. No meio do Atlântico, Alexandra descobriu que estava grávida.
— Que coisa terrível! — murmurou Malcolm.
— É verdade. O choque matou seu adorado pai, somando-se à doença. Ele tinha trinta e sete anos. Foi sepultado no mar. O atestado de óbito assinado pelo capitão dizia apenas “convulsão cerebral”, mas tanto ela quanto a mãe sabiam que a verdadeira causa fora a má notícia. Alexandra tinha só dezesseis anos, tão bonita quanto um retrato. Isso foi em 1835, há vinte e sete anos. Alexandra teve um filho, eu. Para uma moça solteira ter um filho ilegítimo, ser uma decaída... ora, Sr. Struan, não preciso lhe dizer que estigma e desastre isso é, ainda mais na região da Bíblia do Alabama, onde vivia a nossa família, e entre os aristocráticos Tillmans. Falamos antes sobre honra. É verdade o que eu disse, que levamos a honra muito a sério, assim como a desonra. Posso?
Gornt gesticulou para a garrafa de champanhe.
— Por favor.
Malcolm não sabia o que dizer. A voz era cadenciada, agradável, imparcial, apenas alguém relatando uma história. Por enquanto, pensou ele, sombrio.
Gornt serviu Struan, depois a si mesmo.
— Minha mãe e a mãe dela foram relegadas ao ostracismo pela sociedade, e também pela família Tillman, até mesmo seu irmão virou-se contra ela. Quando eu tinha três anos, minha mãe conheceu um virginiano, um inglês transplantado... Robert Gornt, um cavalheiro, exportador de tabaco e algodão, um entusiasmado jogador de cartas de Richmond... e os dois se apaixonaram. Deixaram Montgomery, foram casar em Richmond. A história que inventaram foi de que ela era viúva, casada aos dezesseis anos com um oficial de cavalaria ianque, que morrera nas guerras contra os índios sioux. Ela tinha dezenove anos na ocasião. Tudo correu mais ou menos bem por vários anos. Até 1842... um ano depois que Dirk Struan fundou Hong Kong praticamente sozinho, o ano antes de você nascer. 1842 foi um péssimo ano para Hong Kong, com a praga da febre do Happy Valley, a malária, a guerra do ópio com a China, o grande tufão que destruiu a cidade, e ainda pior para a Casa Nobre, porque o mesmo tufão matou o grande Dirk Struan.
Um gole de champanhe.
— Ele foi responsável pela morte de Wilf Tillman e pela ruína da família Tillman.
— Não sei de nada a respeito. Tem certeza?
Gornt exibiu seu sorriso, sem qualquer hostilidade por trás.
— Tenho, sim. Wilf Tillman caiu doente, com a febre do Happy Valley. Dirk Struan tinha quinino, que poderia curá-lo, mas não quis lhe dar, nem vender, pois queria-o morto; assim Como Jeff Cooper. — Um certo nervosismo insinuou-se na voz— o ianque de Boston queria-o morto.
— Por quê? E por que o tai-pan haveria de querer a morte de Tillman?
— Ele o odiava... tinha opiniões diferentes de Wilf. Entre outras razões, Wilf tinha escravos, que não eram ilegais na ocasião, e também não são agora, no Alabama. E para ajudar Cooper a assumir o controle da firma. Depois que Wilf morreu, Jeff Cooper comprou sua parte por uma ninharia e cortou minha família do dinheiro restante. Dirk foi o responsável.
— Temos um empreendimento comum com a Cooper-Tillman na exploração de quinino, Sr. Gornt, e somos amigos antigos. Quanto ao resto, nada sei a respeito, nem acredito. Verificarei essa história assim que voltar a Hong Kong.
Gornt deu de ombros.
— Anos mais tarde, Cooper admitiu que nunca aprovara Wilf Tillman. Suas palavras exatas foram: “Escute, meu jovem, Wilf mereceu tudo o que recebeu, era um escravocrata e um inútil, nunca se empenhou num único dia de trabalho em toda a sua vida, seu cavalheiro sulista era infame. Dirk teve razão ao dar o pouco quinino de que dispunha a outros, que julgava mais merecedores. Foi meu trabalho, só meu, que fez a companhia que pagou sua mãe, seu padrasto e você por todos aqueles anos...”