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O rosto de Gornt se contraiu, mas ele logo recuperou a calma. Exteriormente.

— Ele disse mais algumas coisas... que não são importantes agora. Mas cortar os recursos, nosso dinheiro legítimo, foi muito importante. Foi nessa ocasião que começaram as brigas entre o padrasto e a mãe, e nossa vida se deteriorou. Só muitos anos mais tarde é que descobri que ele casou com a mãe por dinheiro, que seus negócios de algodão e tabaco eram imposturas, não passava de um jogador, não dos mais bem-sucedidos, e que ela sempre o encobriu. A mãe me contou tudo isso quando estava morrendo. Mas ele não era mau comigo, apenas me ignorava, fui ignorado durante toda a minha vida. Agora, chegou o momento da vingança.

— Não vejo por que deve me culpar.

— E não o culpo.

Malcolm não entendeu.

— Pensei que “espadas ou punhais” eram apenas o começo.

— Não foi idéia minha, já falei. E disse ao Sr. Greyforth que não daria certo. Todos rirão dele, se tentar insistir.

Depois de uma pausa, Malcolm comentou:

— Fala como se não gostasse dele.

— Não gosto nem desgosto. Estou aqui para aprender, por um mês, e depois assumir o comando, quando ele se aposentar, no próximo ano. Esse é o plano... Se eu decidir ingressar na Brock.

— Pode assumir o comando mais cedo do que imagina. — A voz de Malcolm endurecera. — Na próxima quinta-feira... eu espero.

— Está mesmo decidido em realizar o duelo?

— Estou.

— Posso perguntar o verdadeiro motivo?

— Ele fez de tudo para me provocar, por orientação dos Brocks, com toda certeza. Será melhor para a Struan se ele for removido.

— Tentará me remover quando eu for contra a Struan?

— Vou me opor a você, competir com você, detê-lo se puder... mas não quereria duelar com você. — Malcolm sorriu, um bom sorriso. — É uma conversa maluca, Sr. Gornt. É um absurdo sermos tão francos e sinceros, mas é o que ocorre. Falou em “vingança”. Está mesmo determinado a se vingar de nós, pelo que meu avô teria feito com Wilf Tillman?

— Estou — respondeu Gornt, sorrindo. — No momento oportuno.

— E Jeff Cooper?

O sorriso desapareceu.

— Também cuidarei dele. No momento oportuno. — E depois, por um momento, a voz de Gornt se tornou impregnada de veneno. — Mas isso não é toda a vingança que procuro. Quero destruir Morgan Brock e, para isso, preciso de sua ajuda...

Ele desatou a rir.

— Desculpe, Sr. Struan, mas se pudesse ver a sua cara...

— Morgan? — balbuciou Malcolm.

— Isso mesmo. Não posso fazê-lo sozinho. Preciso de sua ajuda, o que é irônico, não acha?

Malcolm levantou-se, sacudiu-se todo, como um cachorro, esticou-se, tornou a sentar, o coração disparado. Serviu-se de mais champanhe, derramando um pouco na mesa, tomou um gole enorme. Durante todo o tempo, Gornt o observava e esperava, satisfeito com o efeito de suas palavras. Malcolm levou algum tempo para conseguir falar de novo.

— Morgan? Mas por quê?

— Porque ele seduziu minha mãe quando ela tinha quinze anos, arruinou sua vida e a abandonou. A Bíblia diz que matar seu pai, patricídio, é um ato infame. Minha mãe me fez jurar que eu não faria isso, quando me contou toda a verdade, pouco antes de morrer. Por esse motivo, não vou matá-lo, apenas arruiná-lo. — As palavras soavam incisivas, sem emoção. — E para fazer o que tenho de fazer, preciso da Struan.

Malcolm respirou fundo, tornou a sacudir a cabeça. Nada fazia sentido para ele, embora acreditasse em tudo... até mesmo no comportamento de Dirk Struan. Tenho muito que aprender, pensou ele, enquanto Gornt continuava a falar, explicando que Morgan tinha vinte anos na ocasião, era aprendiz na Rothwell, residia na casa da companhia, por isso era fácil para ele se esgueirar até o quarto de Alexandra.

— O que uma garota de quinze anos podia saber, ainda mais uma clássica Idade sulista, resguardada como uma planta rara? Rothwell despediu-o ao descobrir, mas o velho Tyler Brock riu, comprou em segredo o controle da companhia, e...

Malcolm ficou chocado.

— Brock controla a Rothwell?

— Controlou, por algum tempo, apenas o suficiente para demitir Rothwell e todos os seus diretores e nomear novos. Quando Jeff Cooper descobriu, tinha bastante influência para forçar o velho Brock a fazer um acordo particular, meio a meio. Em troca, Jeff dirigiria a companhia e manteria o acordo em segredo, em particular da Struan. O acordo continua em vigor.

— Dmitri sabe?

— Não. Nem o Sr. Greyforth. Descobri os detalhes por acaso, quando estava em Londres.

A mente de Malcolm funcionava a todo vapor. A Struan mantivera seu relacionamento com a Rothwell ao longo dos anos, mas ninguém jamais dissera que haviam sido tratados de uma maneira indevida ou ludibriados. Depois, uma coisa que Gornt dissera aflorou em sua mente.

— Morgan sabe que você descobriu tudo?

— Escrevi para ele em Londres, quando mamãe morreu. Ele respondeu que era tudo novidade, e negou, mas me convidou a visitá-lo, se algum dia fosse a Londres. E eu fui. Mais uma vez, ele negou. Nada tinha a ver com isso, garantiu, fora culpado pelos atos de outro aprendiz, não fizera coisa alguma. Eu passava necessidade na ocasião, por isso ele me arrumou um emprego e depois me ajudou a ingressar na Rothwell.

Gornt suspirou.

— Mamãe me contou que Morgan, ao ser confrontado por Rothwell, disse que “casaria com a vagabunda se seu dote fosse de dez mil libras por ano”. — Um tremor percorreu seu corpo, embora o rosto não se alterasse, nem a voz suave. — Eu poderia perdoar tudo a Morgan, mas nunca isso, nunca “a vagabunda”. Foi Rothwell quem escreveu isso. Ele já morreu, mas sua carta continua intacta. Obrigado por escutar.

Gornt levantou-se, esticou-se todo, encaminhou-se para a porta.

— Espere! — disse Malcolm, surpreso. — Não pode parar nesse ponto!

— Nem tenciono, Sr. Struan, mas esse tipo de conversa, confissão talvez seja uma palavra melhor, é extenuante. E também não devo passar tempo demais aqui ou o Sr. Greyforth pode ficar desconfiado. Acertarei as pistolas, o disparo a vinte passos e voltarei em seguida.

— Espere um pouco, pelo amor de Deus! De que ajuda precisa? E por que eu deveria ajudá-lo? O que quer de mim?

— Não muito, na verdade... você pode matar Norbert Greyforth, mas isso não é essencial. — Gornt riu, mas logo voltou a se mostrar sério. — Mais importante é o que eu posso fazer por você. Antes do final de janeiro, os Brocks destruirão a Struan, mas isso você já sabe ou deveria saber. Posso detê-los, por um preço. Como Deus é testemunha, posso fornecer a informação capaz de virar o ímpeto dos Brocks contra eles próprios e destruir sua companhia para sempre.