Malcolm sentiu-se tonto. Se conseguisse livrar a Struan da situação crítica em que se encontrava, sua mãe concederia tudo o que quisesse. Conhecia-a muito bem. Ela me dará tudo o que eu pedir, qualquer coisa, pensou ele; se eu quisesse que ela se tornasse católica, faria até isso!
Qualquer que fosse o custo, ele sabia que pagaria, e pagaria com a maior satisfação.
— O preço... além da vingança?
— Quando eu voltar.
Malcolm esperou o dia inteiro, mas o estranho não voltou. O que não o preocupou. Jantou sozinho naquela noite. Angelique dissera estar cansada, eram festas demais, muitas noites acordada; dormir cedo lhe faria bem.
— Assim, meu querido Malcolm, vou comer uma refeição leve no quarto, escovar os cabelos e mergulhar nos sonhos. Esta noite eu o amo e o deixo... ficará abandonado.
Ele não se importou. Seu cérebro transbordava com tanta esperança que tinha receio de lhe confidenciar tudo, se ela ficasse... e quando Jamie apareceu, no início da noite, teve de fazer um grande esforço para se controlar e não revelar a fantástica notícia.
— Heavenly encontrou uma solução? — perguntou Jamie.
— Ainda não. Por quê?
— Você parece tão... tão... como se todo o peso do mundo tivesse sido removido de seus ombros. Não o vejo com uma cara tão boa há semanas. Recebeu boas notícias, não é?
Malcolm sorriu.
— Talvez eu tenha superado uma etapa e agora começo a melhorar de fato.
— Espero que sim. Seu acidente por cima de todo o resto... Juro que não sei como você consegue. Com tudo o que aconteceu nas últimas semanas, eu me sinto muito cansado, e o tal de Gornt foi a última gota. Há alguma coisa nele que me assusta.
— Como assim?
— Não sei, apenas um pressentimento. Talvez ele não seja tão inofensivo quanto aparenta. — Jamie hesitou. — Tem um minuto para conversar?
— Claro. Sente-se. Quer um conhaque? Pode se servir.
— Obrigado.
Jamie serviu-se uma dose da garrafa no aparador, depois puxou a outra cadeira de encosto alto para o lado do fogo, sentou diante de Malcolm. As cortinas haviam sido fechadas para a noite, o aposento era aconchegante. A fumaça de lenha exalava um cheiro agradável, e o som dos sinos dos navios da esquadra na baía também soava confortador.
— Duas coisas: de um jeito ou de outro, quero voltar a Hong Kong por alguns dias, antes do Natal.
— Para ver a mãe?
Jamie acenou com a cabeça, tomou um gole do conhaque.
— Gostaria de viajar no Prancing Cloud. Vai atracar... Por que o sorriso?
— Você se pôs um passo à minha frente. Eu já planejava embarcar nele.
Jamie piscou, aturdido, depois sorriu, satisfeito.
— Mudou de idéia e vai fazer o que ela diz?
— Não exatamente.
Malcolm relatou seu plano sobre o Prancing Cloud e viu a euforia de Jamie se dissipar.
— Não se preocupe. Sou muito melhor atirador do que Norbert e, se ele concordar em atirar de vinte passos de distância, sem a caminhada, pode se considerar tão morto quanto o Dodô... se eu decidir matá-lo. Esqueça Norbert. Angelique: se nós não pudermos contrabandeá-la para bordo sem ninguém saber, e digo “nós” porque você sempre participou do plano, terá de levá-la no próximo navio. Portanto, de um jeito ou de outro, estará em Hong Kong antes do Natal.
Jamie hesitou.
— A Sra. Struan ficará na maior irritação ao descobrir que Angelique nos acompanha.
— Deixe que eu me preocupe com isso.
— Vou me preocupar de qualquer maneira. O que me leva à questão essenciaclass="underline" quando eu deixar a Struan, pensei em tentar iniciar minha própria firma, e gostaria de conversar sobre isso. Saber se você tem objeções.
— Ao contrário, eu faria tudo o que pudesse, a companhia também, para ajudá-lo, por todos os meios possíveis. Mas isso não vai acontecer por mais alguns anos.
— Creio que ela já decidiu que eu tenho de sair.
— Eu protestaria contra isso com todo o meu empenho! — exclamou Malcolm, surpreso. — Você merece uma promoção, um aumento, a companhia não vai querer perdê-lo. Ela sabe disso. É uma idéia absurda.
— Pode ser, mas se for necessário... seja paciente comigo, tai-pan, se for necessário, você teria objeções?
— A você se estabelecer por conta própria? Não. Mas detesto a idéia e a Struan sairia perdendo. Juro por Deus que não vai acontecer, e se você me pedisse para sair, eu encontraria um meio de fazê-lo ficar... de persuadi-lo a ficar. Pode ter certeza.
— Muito obrigado.
Jamie tomou um gole grande do conhaque, sentindo-se um pouco melhor. Não pelo calor do conhaque, mas pelo que Malcolm acabara de falar. As últimas semanas haviam sido terríveis. Ontem, por causa da carta da Sra. Struan, tivera de confrontar uma verdade imortaclass="underline" por mais leal que você seja a uma companhia por mais serviços que preste, a companhia pode e vai dispensá-lo quando quiser sem o menor escrúpulo. E o que é “a companhia”? Apenas um grupo de homens e mulheres. Pessoas. Como a Sra. Struan, por exemplo.
Pessoas constituem “a companhia”, e as que detêm o comando podem e sempre vão se esconder por trás dessa fachada, que “a companhia deve sobreviver” ou “para o bem da companhia” e assim por diante, arruinando ou promovendo por motivos pessoais, hostilidades ou ódios.
E não se esqueça que quase todas as companhias hoje em dia são familiares. Ao final, é a “família” que prevalece. O sangue fala mais alto do que a competência. Eles podem brigar entre si, mas ao final costumam se unir diante do inimigo, que pode ser qualquer um que não pertença à família. Por isso é que Alfred MacStruan foi escolhido para assumir o comando no Japão. E não há nada que eu possa fazer a respeito. Talvez os negócios de família sejam mais humanos, sejam melhores do que as instituições anônimas, burocráticas e impessoais, mas mesmo nelas, talvez ainda mais, você fica sujeito ao círculo da camaradagem. E, de qualquer forma, sai perdendo...
Na noite passada, numa atitude atípica, Jamie se embriagara em sua pequena casa na Yoshiwara, não encontrando conforto em Nemi. Cada vez que pensava na verdade sobre “a companhia” — somando-se ao crime que quase cometera, a injustiça de Tess Struan, a teimosia de Malcolm, e sua própria estupidez, sabendo que se não fosse detido teria violado a correspondência, arrancado as cartas e jogado no mar —, sua cabeça desatava a girar, e só mais um copo de rum interrompia a vertigem, até que nada mais podia controlá-la. Nemi não pudera ajudar.
— Jami, o que houve? Jami! Jami!
— Foi Maquiavel quem disse melhor — murmurara ele, a voz engrolada, as palavras incoerentes. — Não deposite sua confiança em príncipes sanguinários, pois eles sempre podem alegar a conveniência. Príncipes sanguinários, um tai-pan sanguinário, a mãe de um tai-pan, filhos de Dirk Struan e seus netos...