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E, depois, ele desatara a chorar. Foi a primeira vez em anos, pensou agora, consternado. A última aconteceu logo depois que cheguei a Hong Kong, há vinte anos, e soube que a mãe morrera, enquanto me encontrava no mar. Ela já devia saber que estava morrendo quando parti.

— Faça uma boa viagem, meu filho querido, ganhe nossa fortuna e escreva todas as semanas...

Se não fosse por ela, todos nós teríamos morrido; foi sua força que nos manteve vivos, até que Struan surgiu e mudou nosso destino.

Chorei até a última lágrima. Como ontem à noite, embora as lágrimas fossem diferentes. Estava chorando por minha inocência perdida. Não posso acreditar que tenha sido tão ingênuo a ponto de acreditar na “companhia”. Dirk teria me deixado na mão? Nunca. O tai-pan não me abandonaria, não poderia fazê-lo, mas ele é apenas uma lenda. Tenho de encontrar a coragem para me estabelecer por conta própria. Estou com trinta e nove anos, velho na Ásia, embora não me sinta velho, como um navio sem leme. E o mesmo ocorre com Malcolm... Ou será que não? Ele fitou-o, ainda notando a mudança. Malcolm está diferente, mais como era antes pensou Jamie. Mais adulto... isso é possível? Não sei, mas de qualquer maneira seu destino já foi determinado, como o meu.

— Fico contente por não termos violado a correspondência... Não tenho palavras para expressar o quanto lamento ela tê-lo bloqueado.

— Eu também.

Malcolm relatara a Jamie o que Sir William dissera sobre o aviso da chegada da carta, e também sobre o ópio e as plantações de Bengala, notícias que haviam se espalhado naquela manhã, deixando a colônia em frenesi. A reunião ao meio-dia no clube fora mais tumultuada que o habitual, com uma moção unânime para que Sir William fosse enforcado ou, no mínimo, afastado do posto, se tentasse impor a estupidez do Parlamento. Malcolm percebeu que Jamie sentia-se muito infeliz e mais uma vez ficou tentado a revelar o novo e maravilhoso fato chamado Gornt. Mas lembrou o juramento.

— Estou muito confiante agora, Jamie. Não se preocupe. Vai à Yoshiwara esta noite?

— Não imediatamente, embora precise ver Nemi. — Jamie sorriu, desconsolado. — Tomei uma bebedeira na noite passada e quero levar um presente para ela. Não que seja necessário, mas Nemi é uma ótima pessoa e me proporciona boas risadas. Primeiro, tenho de conversar com Nakama. Phillip pediu-me para ter uma reunião de meia hora com ele. Parece que Nakama interrogou-o sobre negócios e bancos, capital, essas coisas... Phillip quer que eu lhe explique os rudimentos.

— O que é bastante curioso.

— Também acho. O patife tem uma mente inquisitiva. É uma pena que não seja tão franco conosco.

— Negocie os seus conhecimentos por alguma coisa que queremos saber. Creio que terei uma conversinha com Phillip amanhã. Peça a ele para me procurar, está bem? — A voz de Malcolm endureceu. — Devemos partilhar todas as informações... não foi esse o acordo?

— Foi, sim. — Jamie terminou o conhaque. — Obrigado... e obrigado também pela conversa.

Ele se levantou e acrescentou, com absoluta sinceridade:

— Torço com todo o meu coração para que tudo dê certo para você, Malcolm.

— Sei disso, Jamie. Também vai dar certo para você. Boa noite.

No silêncio do aposento, Malcolm esticou as pernas na direção do fogo, contente, ansioso pelo dia seguinte, na expectativa do novo encontro com Gornt.

Qual poderia ser o preço? especulou ele, contemplando o fogo. Podia ouvir vozes dentro do prédio e também lá fora, na praia. Risos ocasionais, uma ou outra canção. John Marlowe o procurara naquela tarde, trazendo uma mensagem do comandante, se ele poderia ir à nave capitânia no dia seguinte, se não fosse inconveniente, ou então ao escritório de Sir William.

— Posso ir ao gabinete de Sir William. A que horas?

— Meio-dia?

— Combinado. Qual é o problema?

— Não sei — respondera Marlowe. — Mas aposto que não é para conversa sobre o tempo.

Desde que voltara da campanha na baía de Mirs e de Hong Kong, o almirante Ketterer se mostrava furioso com os comentários adversos e críticos nos jornais e ainda mais irritado porque canhões de fabricação britânica haviam disparado contra seus navios.

— Creio que ele não gostou nem um pouco de alguns dos comentários mais rudes na reunião de hoje.

— Ele é mesmo metido a brigão — disse Malcolm, rindo, ainda inebriado pelas informações de Gornt.

Marlowe rira também.

— Pelo amor de Deus, não diga isso em seu convés ou todo o navio explodiria! Antes que eu me esqueça, minha viagem de testes foi aprovada, para segunda ou terça-feira, o tempo permitindo. Qual é o melhor dia para vocês dois?

— Quanto tempo ficaremos no mar?

— Zarparemos ao amanhecer e voltaremos no máximo até o pôr-do-sol.

— Terça-feira.

Um carvão caiu da grade, mas sem qualquer conseqüência. Malcolm empurrou-o com o atiçador, remexeu as brasas. As chamas alaranjadas se elevaram um pouco, mas logo tornaram a morrer, projetando imagens. Imagens positivas. Suas e dela. Malcolm olhou para a porta de comunicação. Não vinha qualquer som do outro lado.

Gornt é a chave para Tess.

É irônico que ele precise de mim, tanto quanto preciso dele, e somos inimigos. Tenho o pressentimento de que sempre será assim. Qual será o seu preço? Deve ser alguma coisa que eu possa oferecer. Gornt é bastante sensato para pedir algo assim. Por que tenho tanta certeza? A vingança é um motivo forte demais, sei disso.

Na estalagem dos Lírios, Phillip Tyrer estava sendo massageado por uma corpulenta japonesa, com braços maciços, os dedos de aço encontrando os pontos de pressão, nos quais ela tocava, como se formassem um teclado, sob os seus gemidos de prazer. A casa não era tão refinada ou cara quanto a das Três Carpas, mas a massagem era a melhor que ele já recebera e servia para afastar seus pensamentos de Fujiko, Nakama, André Poncin e Sir William, que estivera furioso durante toda a manhã, culminando ao meio-dia, quando o veneno violento do clube quase explodira os telhados de Iocoama.

— Como se fosse culpa minha o Parlamento ter enlouquecido! — gritara Sir William à mesa do almoço, com a presença do almirante, igualmente furioso. — Acha que é, Phillip?

— Claro que não, Sir William — respondera ele, participante do almoço contra a sua vontade, o general como o terceiro convidado.

— O Parlamento sempre foi arbitrário e estúpido! Por que não deixa o Ministério do Exterior cuidar das colônias, e acabar logo com toda essa aflição? Quanto a essa gentalha, esses homens que se intitulam mercadores, só posso dizer que me deixam com vontade de vomitar!

O almirante resmungara:

— Cinqüenta vergastadas fariam com que todos entrassem na linha, por Deus! Todos, sem exceção, especialmente os jornalistas! São uns canalhas, todos eles!