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O general declarara, presunçoso, ainda agastado pela descompostura que Sir William lhe passara por ocasião do motim:

— O que pode fazer, meu caro Sir William, a não ser suportar como um homem? E no seu caso, almirante, meu velho companheiro, estava realmente pedindo por isso, ao fazer declarações políticas em público. Sempre pensei que a primeira regra para quem se torna almirante ou assume as estrelas de general era a de manter a calma, ser circunspecto nas orações públicas e sofrer em silêncio.

O pescoço do almirante Ketterer se tornou púrpura. Sir William conseguiu interromper a salva seguinte, ao dizer:

— Phillip, tenho certeza que há uma abundância de trabalho à sua espera. Toda a correspondência precisa ser copiada e o protesto ao Bakufu deve ser despachado ainda hoje.

Ele escapara do almoço, agradecido. Nakama o cumprimentara com a maior afabilidade.

— Ah, Taira-sama, espero que esteja se sentindo melhor. Mama-san Raiko me pede para perguntar como está sua saúde, pois não foi ao encontro com Fujiko, que está em lágrimas... que estava em lágrimas e...

— Minha saúde está ótima. Passei momentos muito agradáveis ontem à noite, na estalagem dos Lírios — dissera ele, atônito ao constatar que as predições de André eram acuradas. — Fujiko? Começo a ter dúvidas sobre o contrato.

Ele ficara bastante satisfeito ao perceber o espanto de Nakama, e mais ainda porque podia usar seu susto pelo mau humor de Sir William durante a manhã e no almoço para implementar o plano de André.

— Mas, Taira-sama, eu...

— E não vamos mais falar em inglês, também não quero ouvir perguntas sobre negócios. Pode conversar com McFay-sama da Casa Nobre e ponto final...

Tyrer gemeu alto, quando a massagista apertou-o ainda mais fundo. Os dedos pararam no mesmo instante.

Iyé, dozo... — murmurou ele, em japonês. — Não, por favor, não pare. A mulher riu e respondeu:

— Não se preocupe, lorde. Quando eu acabar de trabalhar este seu corpo pálido e sem força, estará preparado para três dos melhores lírios da casa.

Tyrer agradeceu, sem compreender, mas também não se importando com isso.

Depois de três horas com Nakama, conversando só em japonês, e de ouvir mais comentários dele sobre Raiko e sua estalagem — como André previra — sua cabeça girava.

Depois de algum tempo, a massagista iniciou os contatos calmantes, com mãos experientes, usando óleo aromático. Ao terminar, enrolou-o com uma toalha quente e se retirou. Tyrer cochilou, mas despertou no instante em que a porta de shoji foi aberta, uma moça entrou, ajoelhou-se ao seu lado. Ela sorriu, Tyrer retribuiu, disse que se sentia cansado, que ela apenas ficasse sentada ali, até que ele acordasse, seguindo as instruções de André. A moça acenou com a cabeça tornou a sorrir, muito contente. Receberia seus honorários de qualquer maneira.

André é um gênio, pensou ele, também contente, mergulhando num sono feliz.

Aquela noite foi a segunda vez que André visitou Hinodeh. Fazia exatamente dez dias, vinte e duas horas e sete minutos que ele a contemplara em toda a sua glória, a noite gravada em sua mente para sempre.

— Boa noite, Furansu-san — dissera ela, tímida, seu japonês melodioso. A ante-sala ficava junto à pequena varanda, o bangalô no meio dos jardins das Três Carpas, tão fragrante quanto a própria Hinodeh. Os dourados e marrons de seu quimono de inverno fizeram movimentos graciosos, quando ela se inclinara e gesticulara para a almofada à sua frente. Por trás dela, a shoji para o quarto se encontrava entreaberta, apenas o suficiente para que ele pudesse ver os futons e cobertas, que seriam o primeiro leito partilhado.

— O saquê está como fui informada que gostaria. Frio. Sempre toma saquê frio?

— Sempre. Gosto melhor assim.

Ele se descobrira a gaguejar, seu japonês saindo um tanto ríspido, as mãos pareciam atrapalhar, as palmas suadas. Ela sorrira.

— Esquisito tomar bebidas frias no inverno. Seu coração é frio no inverno e verão?

— Ah, Hinodeh — murmurara André, a pulsação ressoando nos ouvidos e garganta —, acho meu coração como pedra, por muito tempo agora, pensar em você, não saber se quente, frio, ou o quê. Você é linda.

— Só para o seu prazer.

— Raiko-san contar tudo a você sobre eu?

Os olhos de Hinodeh eram serenos, no rosto alvo, as sobrancelhas arrancadas, com meias-luas pintadas no lugar, a testa alta, bico-de-viúva, cabelos pretos, empilhados, presos com travessas de casco de tartaruga, que André logo ansiara em soltar.

— Esqueci o que Raiko-san me contou. O que você me disse antes da assinatura foi aceito e esquecido. Começamos esta noite. É o nosso primeiro encontro. Deve me falar sobre você, tudo o que quiser que eu saiba. — Os olhos dela absorveram um pouco de luz e se contraíram, divertidos. — Haverá bastante tempo, não é?

— Haverá, sim, por favor. Para sempre, eu espero.

Depois que todas as cláusulas do contrato haviam sido acertadas, ao longo dos dias e postas no papel, lidas e relidas, nos termos mais simples, para que ele pudesse entender, André estava pronto para assinar, na presença de Hinodeh e Raiko. Tivera de recorrer a toda a sua coragem:

— Hinodeh, por favor, desculpe, mas a verdade tem de ser dita. A pior.

— Por favor, não há necessidade. Raiko-san me contou.

— Sim, mas, por favor, desculpe...

As palavras saíram hesitantes, embora as tivesse ensaiado uma dúzia de vezes, novas ondas de náusea invadindo-o.

— Devo dizer uma coisa: peguei doença ruim de minha amante, Hana. Sem cura possível, sinto muito. Nenhuma. Você pegar também, se virar minha consorte, sinto muito.

O céu invisível parecera se abrir para ele, enquanto esperava.

— Compreendo e aceito isso, escrevi no contrato que o absolvo de qualquer culpa em relação a nós, entende?

— Ah, culpa, entendo culpa. Obrigado...

Ele tivera de pedir licença, saíra correndo, com uma náusea violenta, mais nauseado que em qualquer outra ocasião anterior de sua vida, mais do que ao descobrir que estava doente ou depois que encontrara Hana morta. Não se desculpara ao voltar, nem uma desculpa era esperada. As mulheres compreendiam.

— Antes de eu assinar, Furansu-san — dissera ela —, é importante para mim perguntar se promete me dar a faca ou veneno, como está acertado no contrato?

— Sim..

— Obrigada. Ambas as coisas importantes não precisam ser mencionadas de novo. Concorda, por favor?

— Sim — murmurara ele, abençoando-a.

— Então está tudo resolvido. Pronto, já assinei. Assine também, Furansu-san. Raiko-san é nossa testemunha. Ela diz que nossa casa ficará pronta em três dias. No quarto dia, a contar de hoje, me sentirei honrada em recebê-lo.