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No quarto dia, sentado diante dela, no refúgio particular dos dois, André ficara atordoado com sua beleza, os lampiões a óleo brilhantes, mas não em excesso.

— Esta casa agradar você, Hinodeh? — indagara ele, tentando parecer interessado, mas apenas obcecado por tê-la sem adornos.

— É mais importante que lhe agrade, Furansu-san.

André sabia que ela apenas fazia aquilo para o que fora treinada, suas respostas ações seriam automáticas, empenhando-se ao máximo para deixá-lo à vontade, independentemente do que sentisse por dentro. Com a maioria dos homens japoneses, ele podia em geral perceber o que pensavam, mas isso quase nunca acontecia com as mulheres... mas também o mesmo ocorre com a maioria das mulheres francesas, pensara ele. As mulheres são muito mais reservadas do que os homens, e também muito mais práticas.

Hinodeh parecia muito serena, sentada ali, imóvel, refletira André. Ela está vulcânica, triste, apavorada... ou com tanto medo e aversão que se tornou entorpecida?

Mãe Santa, perdoe, mas não me importo, não no momento, talvez mais tarde me importe, mas não agora.

Por que ela concordara? Por quê?

Mas isso nunca deve ser perguntado. Jamais. É difícil obedecer a essa cláusula, mas é um tempero adicional, ou a questão que vai me destruir... destruir a nós. Ora, que se dane, tenho de me apressar!

— Gostaria de comer?

— No momento, eu... não sentir fome.

André não conseguia desviar os olhos da moça, nem ocultar seu desejo. O suor escorria pelo corpo.

O sorriso de Hinodeh não se alterara. Um suspiro. Depois, cada movimento lento, os dedos compridos soltaram a obi, ela se levantara, deixara o quimono exterior cair, durante todo o tempo observando-o, tranqüila como uma estátua. O quimono interno também caíra, em seguida a primeira combinação, a segunda, e finalmente a tanga. Ela se virara sem pressa, mostrando-se, parada de frente. Perfeita em tudo.

Mal respirando, André a contemplara a se ajoelhar, pegar seu copo, tomar um gole, mais outro, a pulsação em sua cabeça, pescoço e virilha o pressionando ao limite do controle.

Planejara ao longo dos dias ser galante com as palavras, gestos e movimentos, gaulês e japonês, vivido e prático, o melhor amante que ela já tivera, que jamais teria, sem arrependimentos, que a primeira união fosse uma experiência memorável e maravilhosa. Fora memorável, mas não maravilhosa. Sua vontade ruíra. Agarrara Hinodeh, levara-a às pressas para os futons, e ali se mostrara subumano.

Não a via desde aquela noite, nem a Raiko, evitando-as, abstendo-se de visitar a Yoshiwara. Enviara uma mensagem a Hinodeh no dia seguinte, dizendo que a informaria quando tencionava visitá-la de novo. No intervalo, efetuara outro pagamento em ouro a Raiko, seu salário comprometido por dois anos para cobrir o preço do contrato... e mais ainda.

Ontem, mandara avisar que a visitaria esta noite.

Ele hesitou, no limiar da varanda. Telas de shoji fechadas para a noite. Uma luz dourada no interior parecia chamá-lo. Sua pulsação era disparada; como antes, sentia um aperto na garganta. Vozes interiores se manifestavam, com uma linguagem vil contra ele, clamando que fosse embora, que se matasse... qualquer coisa para evitar os olhos de Hinodeh, a repulsiva imagem refletida de si mesmo que havia ali. Deixe-a em paz!

Todo o seu ser queria fugir, e todo o seu ser queria possuí-la outra vez, de qualquer maneira, por todas as maneiras, pior do que antes, qualquer que fosse o custo, odiando a si mesmo, melhor morrer, acabar com tudo, mas primeiro ela. Não posso evitar.

André forçou os pés a saírem dos sapatos, abriu a porta. Ela se encontrava ajoelhada, exatamente como antes, com a mesma roupa, o mesmo sorriso, a mesma beleza, a mesma mão delicada gesticulando para que ele sentasse, a mesma voz gentil.

— O saquê está como fui informada que gostaria. Frio. Sempre toma saquê frio?

Ele ficou boquiaberto. Os olhos que exprimiam tanto ódio, quando se afastara cambaleando na última vez, agora sorriam, com a doce timidez do primeiro momento.

— Como?

E ela repetiu, como se nunca tivesse falado antes, no mesmo tom:

— O saquê está como fui informada que gostaria. Frio. Sempre toma saquê frio?

— Eu... hum... sim.

André mal ouviu suas palavras, com um troar nos ouvidos. Ela sorriu.

— Esquisito tomar bebidas frias no inverno. Seu coração é frio no inverno e no verão?

Como um papagaio, ele balbuciou as respostas corretas, não encontrando qualquer dificuldade para recordar cada palavra e acontecimento, gravados de forma indelével; e embora sua voz fosse trêmula, Hinodeh parecia não ouvir, apenas se comportava como antes, os olhos serenos.

Nada mudara.

— Gostaria de comer?

— No momento, eu... não sentir fome.

O sorriso de Hinodeh não foi diferente. Nem o suspiro. Ela se levantou. Mas agora apagou os lampiões a óleo, foi para o quarto, apagou também os que haviam ali.

Quando seus olhos ajustaram-se à escuridão, André constatou que havia apenas uma claridade mínima do lampião na varanda, passando pelas telas de shoji, mal dava para divisar os contornos de Hinodeh. Ela estava se despindo. Momentos depois, o som das cobertas sendo puxadas.

André se levantou com algum esforço, foi para o quarto, sabendo que ela tentava salvar as aparências, enquanto ele queria apagar o que nunca poderia ser apagado.

— Da minha mente, nunca — sussurrou ele, dominado pela angústia, o rosto molhado pelas lágrimas. — Não sei sobre você, Hinodeh, mas eu jamais esqueci. Sinto muito, mas muito mesmo. Mon Dieu, como eu gostaria...

Nan desu ka, Furansu-sama?

André demorou um pouco para se ajustar ao uso do japonês, e depois balbuciou:

— Hinodeh, eu dizer... apenas agradecer, Hinodeh. Por favor, desculpe, sinto muito...

— Mas não há nada para desculpar. Esta noite começamos. É o nosso princípio.

36

Quarta-feira, 3 de dezembro:

Hiraga percebeu seu reflexo de passagem na janela do açougue e não se reconheceu. Os transeuntes na High Street mal o notavam. Ele voltou, contemplou a imagem meio difusa... seu novo disfarce. Cartola, colarinho alto e gravata, uma sobrecasaca de ombros largos e apertada na cintura, de casimira escura, colete de seda azul, atravessado por uma corrente de aço inoxidável, ligada ao relógio de algibeira, calça justa, botinas de couro. Tudo presente do governo de sua majestade, exceto o relógio, dado por Tyrer... pelos serviços prestados. Hiraga tirou a cartola, tornou a se contemplar, de um lado e de outro. Agora os cabelos cobriam toda a cabeça, crescendo depressa, ainda não tão compridos quanto os de Phillip Tyrer, mas sem dúvida bastante longos para serem considerados europeus. Rosto raspado. A qualidade e o baixo custo das lâminas britânicas haviam-no impressionado bastante, outro exemplo espetacular das proezas industriais.