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Ele sorriu para si mesmo, satisfeito com o disfarce, puxou o relógio, admirando-o, verificou a hora: 11:16 h. Como se dezesseis minutos importassem, pensou Hiraga, desdenhoso, embora contente por ter aprendido tão depressa o sistema de determinar a hora dos gai-jin. Aprendi muita coisa. Ainda não o suficiente, mas já é um começo.

— Não quer comprar um bom pernil de carneiro australiano congelado, que veio do porão de gelo do navio de correspondência? Ou que tal um bom toucinho de Hong Kong?

O açougueiro era barrigudo, careca, com braços que pareciam canhões e avental todo manchado de sangue.

— Como? — Hiraga notou as carnes e vísceras penduradas no outro lado da janela, com seus enxames de moscas. — Não, obrigado. Eu apenas olhando. Bom dia, senhor.

Ele esforçou-se para ocultar sua repulsa. Com um floreio, repôs a cartola na cabeça, do jeito como Tyrer ensinara, e continuou a descer pela High Street, na direção da cidade dos bêbados e da aldeia. A todo instante, levantava a cartola polidamente para outros pedestres e cavaleiros, que respondiam da mesma forma. Isso o agradou ainda mais, porque significava aceitação, pelos padrões dos gai-jin, muito diferentes dos costumes japoneses... dos padrões civilizados.

Tolos. Só porque uso suas roupas, e começo a me comportar como eles, pensam que mudei. Ainda são o inimigo, até mesmo Taira. Uma estupidez de Taira mudar de idéia em relação a Fujiko. O que há com ele? Isso não se ajusta ao meu plano.

Hiraga avistou Struan, saindo de seu prédio, claudicando, junto com Jamie McFay, a mulher de Ori entre os dois, numa conversa animada. O que o lembrou de seu encontro com o número dois da Casa Nobre. Sua cabeça ainda girava dos fatos e números ocidentais e ainda se sentia tonto de todas as informações que McFay lhe arrancara, sobre os emprestadores de dinheiro e mercadores de arroz, como a Gyokoyama.

— Jami-san, talvez encontrar um desses homens, se segredo — dissera ele, em desespero para escapar. — Eu intérprete se guardar segredo.

O shoya o esperava. Percebendo a ansiedade do homem em saber de tudo o que descobrira, Hiraga brincou com ele, aceitou o oferecimento de uma massagem. Depois, relaxado numa yukata, e durante um almoço requintado de arroz, lula seca, fatias tão finas quanto folhas de papel de perca-do-mar com soja, daikon — rábano — e saquê, ele disse que conversara com importantes gai-jin, e que haviam respondido às suas perguntas. Tomou um gole de saquê, sem acrescentar mais nada. Informações importantes precisavam de encorajamento. Reciprocidade.

— Quais são as notícias de Quioto?

— É tudo muito estranho — comentou o shoya, contente por receber aquela abertura. — Meus superiores informaram que o xógum e a princesa Yazu chegaram sãos e salvos e já se encontram no interior do palácio. Mais três emboscadas de patrulhas de Ogama a grupos de shishi... não, sinto muito, ainda não tenho detalhes de quantos foram mortos. Lorde Ogama e lorde Yoshi quase não saem de trás de seus muros... Mas samurais do xogunato agora guardam os portões, como no passado.

Os olhos de Hiraga se arregalaram.

— É mesmo?

— É, sim, Otami-sama. — O shoya ficou deliciado por a isca ter sido mordida. — Por mais estranho que possa parecer, há patrulhas secretas de samurais de Ogama nas proximidades e, de vez em quando, os capitães conferenciam em segredo.

Hiraga soltou um grunhido.

— Curioso...

O shoya balançou a cabeça e deu um puxão na linha, como bom pescador que era.

— Ah, sim... talvez não seja de grande importância para você, mas meus superiores acreditam que os dois shishi que mencionei antes, Katsumata e o shishi de Choshu chamado Takeda, escaparam à captura em Quioto e agora viajam pela Tokaidô.

— Para Iedo?

— Meus superiores não disseram. É óbvio que a notícia não tem qualquer valor.

O shoya tomou outro gole de saquê, escondendo seu divertimento pela tentativa de Hiraga de encobrir seu interesse intenso.

— Qualquer coisa relacionada com os shishi pode ser de significado.

— Neste caso... embora seja insensato relatar rumores — disse o shoya simulando embaraço e julgando o momento oportuno para puxar o peixe para terra —, eles avisam que circula uma história pelas estalagens de Quioto de que uma terceira pessoa também escapou da primeira emboscada. Uma mulher, samurai, hábil na arte do shuriken... o que foi, Otami-sama?

— Nada, nada... — Hiraga fez um esforço para manter a compostura, mil perguntas ricocheteando em sua mente. Apenas uma mulher samurai na escola de Katsumata já adquirira essa habilidade. — O que estava dizendo, shoya? Uma mulher de linhagem samurai escapou?

— É apenas um rumor, Otami-sama. Uma tolice. Saquê?

— Obrigado. Essa mulher... dizem mais alguma coisa a seu respeito?

— Não. Mal vale a pena relatar rumor tão tolo.

— Talvez possa descobrir se essa bobagem tem algum fundo de verdade. Eu gostaria de saber. Por favor.

— Neste caso... — murmurou o shoya, registrando a grande concessão do “por favor”, com um vestígio de humildade na voz. — Qualquer serviço para você e sua família, clientes valiosos, é uma honra para a Gyokoyama.

— Obrigado.

Hiraga terminou seu saquê. Sumomo estivera em Quioto com Katsumata. Onde ela se encontra agora? Por que não foi para Shimonoseki, como ordenei? 0 que fazia em Quioto? E onde está agora?

Em retribuição, e com algum esforço ele pôs essas e outras indagações de lado, para análise posterior, e tratou de se concentrar. Tirou do bolso um maço de anotações e começou a explicar, repetindo em parte o que “Taira” e “Mukfey’ haviam lhe dito, ao longo de horas. O shoya escutou com uma total atenção, grato porque a esposa os ouvia escondida e anotava tudo.

Quando Hiraga discorreu sobre empréstimos, financiamentos e atividades bancárias — não dava para entender a maior parte do que ele disse —, o shoya-impressionado com sua memória e percepção de coisas que lhe eram completamente estranhas, não pôde deixar de comentar:

— Extraordinário, Otami-sama.

— Outra questão importante. — Hiraga respirou fundo. — Mukfey disse que os gai-jin têm uma espécie de mercado, shoya, um stoku markit, onde as únicas mercadorias negociadas, compradas e vendidas, são pequenos pedaços de papel impressos, chamados stoku ou sheru, que de alguma forma representam dinheiro, grandes quantidades de dinheiro, cada stoku sendo parte de uma kompeni.