Ele tomou um pouco de chá. Constatando a falta de compreensão do shoya, respirou fundo outra vez.
— Digamos que o daimio Ogama deu toda Choshu, toda a terra e produto da terra a uma kompeni, a Choshu Kompeni, e determinou que a kompeni fosse dividida em dez mil partes iguais, dez mil sheru, entende?
— Eu... acho que sim. Por favor, continue.
— Assim, a stoku da Choshu Kompeni é dez mil sheru. Em seguida, o daimio, por conta da kompeni, oferece todas ou parte das sheru para alguém com dinheiro. Em troca de seu dinheiro, o homem ou mulher recebe esse pedaço de papel dizendo quantas sheru da Choshu Kompeni ele comprou. A pessoa possui assim essa parte da kompeni e, com isso, a mesma proporção de sua riqueza. O dinheiro que ele e outros pagam para a kompeni se torna então o kaipital, acho que foi isso que Mukfey disse, o dinheiro que eles precisavam para dirigir e melhorar a riqueza da kompeni, para pagar estipêndios, reivindicar terras, comprar armas, sementes, melhorar barcos de pesca, para pagar qualquer coisa que seja necessária para aumentar e fazer Choshu prosperar, para tornar mais alto o valor da kompeni.
Hiraga fez uma pausa.
— Mufkey explicou que... Ele disse que em qualquer mercado, shoya, os preços mudam, em tempos de fome até todos os dias, não é mesmo? É o que também acontece todos os dias nesse stoku markit, com centenas de diferentes kompeni, compradores e vendedores. Se a colheita de Choshu é enorme, o valor de cada parte da Choshu Kompeni será alto, se for pequena, fica baixo. O valor de cada sheru também varia. Está entendendo?
— Acho que sim — murmurou o shoya, compreendendo tudo muito bem, discretamente entusiasmado, cheio de idéias e perguntas.
— Ótimo.
Hiraga sentia-se cansado, mas fascinado por aquelas novas idéias, embora às vezes se perdesse em seu labirinto. Nunca barganhara num mercado, ou numa estalagem, apenas pagava o que lhe pediam, quando pediam, nunca em toda a sua vida protestara contra o custo de qualquer coisa ou pelo valor de uma conta... exceto desde que se tornara ronin. As contas eram sempre enviadas para quem recebia seu estipêndio, se você era um samurai. Se solteiro, normalmente para sua mãe. Comprar e cuidar do dinheiro era trabalho de mulher, nunca de homem.
Você comia o que ela — mãe, tia, avó, irmã ou esposa — comprava com seu estipêndio, vestia ou se armava da mesma maneira. Sem estipêndio, passava fome, você e sua família, ou se tornava ronin, ou tinha de renunciar voluntariamente à condição de samurai e se tornar camponês, um trabalhador, senão pior ainda, um mercador.
— Shoya — disse ele, franzindo o rosto —, os preços variam num mercado de comida ou peixe. Mas quem decide o preço?
A guilda de pescadores ou camponeses, o shoya poderia responder, ou mais provavelmente os mercadores, que possuíam de fato a produção, tendo emprestado o dinheiro para comprar as redes ou sementes. Mas ele era cauteloso demais, e a maior parte de sua energia se concentrava em tentar se manter impassível, diante de tantas informações de valor inestimável, mesmo que incompletas.
— Se há muitos peixes, são mais baratos do que na ocasião em que há poucos. Depende da pescaria ou da colheita.
Hiraga balançou a cabeça. Era evidente que o shoya estava sendo desonesto escondendo a verdade ou distorcendo-a. Mas isso é apenas o normal para mercadores e emprestadores de dinheiro, pensou ele, decidindo de repente manter em reserva qualquer encontro entre Mukfey e aquele homem, e também deixar para mais tarde a última informação sobre kompeni, que por algum motivo não podia compreender, e o intrigava mais do que o resto: que se fosse você quem formava a kompeni, decidia quantas stoku reservava para si mesmo, sem pagamento, e se o número equivalesse a cinqüenta e um ou mais de cada cem, então você tinha o poder sobre a kompeni. Mas por que...
Sua cabeça quase explodiu com a súbita compreensão: Sem nenhum desembolso, você se toma o xógum da kompeni, e quanto maior a kompeni, maior o xógum... sem desembolso!
Quando sonno-joi for um fato, pensou ele, nós — o conselho de samurais — vamos recomendar ao imperador que apenas o nosso conselho poderá formar kompeni, e assim, depois de tanto tempo, vamos controlar todos os parasitas, os mercadores e emprestadores de dinheiro!
— Otami-sama — disse o shoya, sem ter percebido qualquer mudança em Hiraga, sua própria mente em turbilhão pelas maravilhosas informações que obtivera —, meus superiores ficarão muito agradecidos, tanto quanto eu. Depois que conseguirmos avaliar todos os seus brilhantes pensamentos e idéias, eu poderia ter uma oportunidade de fazer umas poucas perguntas insignificantes?
— Claro — respondeu Hiraga, exultante com o futuro róseo. Quanto mais perguntas, melhor... pois me obrigarão a compreender primeiro. — Talvez quando tiver mais notícias sobre Ogama e Yoshi, ou os shishi, ou aquela mulher. Shuriken, você disse?
— Farei o melhor que puder — respondeu o shoya, sabendo que um acordo fora fechado. Depois, sua mente levou-o de volta a uma peça essencial do quebra-cabeça que estava faltando. — Por favor, posso perguntar o que é essa kompeni! E como parece?
— Não sei — respondeu Hiraga, também perplexo.
— Ainda bem que foi pontual, Sr. Struan — disse o almirante Ketterer, ríspido.
— Não é o normal para... hum... mercadores. — Ele ia dizer “vendeiros”, mas decidiu que havia tempo mais tarde para uma salva. — Sente-se, por favor. Aceita um xerez?
— Um seco. Obrigado, almirante.
O ordenança serviu um copo, reabasteceu o porto do almirante e se retirou. Eles levantaram o copo, sem qualquer cordialidade. Não havia outros papéis na mesa além de um documento oficial, um envelope aberto, e uma carta. Malcolm reconheceu a letra da mãe.
— Em que posso servi-lo? — perguntou ele.
— Sabe que alguns dos meus marujos foram mortos por piratas chineses, disparando canhões britânicos baseados na praia, durante o combate na baía de Mirs. Canhões britânicos.
— Já li os relatórios a respeito, mas não sei com certeza se eram mesmo de fabricação britânica.
— Pois eu tenho. Certifiquei-me pessoalmente. — Irritado, o almirante pegou o documento. — A investigação inicial do governador sugere que os prováveis culpados foram a Struan ou a Brock.
Malcolm sustentou sem medo o olhar do homem mais velho, de rosto corado.