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— Ele pode sugerir o que quiser, almirante, mas é melhor que qualquer acusação formal esteja sustentada por provas, ou ficaríamos muito aborrecidos, e os Brocks apopléticos. Não estou a par de nenhum negócio assim e, de qualquer forma, a venda de armamentos não é proibida pelo Parlamento. Norbert Greyforth sabe de alguma coisa?

Jamie o avisara que Greyforth também fora convocado pelo almirante, às dez e meia, mas só aparecera às onze horas, e que a reunião durara apenas três minutos. O pescoço de Ketterer ficou vermelho, ao recordar a reação inflamada de Greyforth.

— Não. Aquele... aquele sujeitinho impertinente recusou-se a discutir o assunto. E você?

— Não sei o que quer discutir, almirante.

— A questão da importação e venda de armamentos para os nativos aqui. E navios de guerra. E ópio.

Malcolm disse, com o maior cuidado:

— Somos mercadores na China e negociamos de acordo com as leis britânicas. Nenhuma dessas mercadorias é proibida por lei.

— O ópio em breve será.

— Quando isso acontecer, deixará de ser negociado.

— É contra a lei chinesa, agora, e contra a lei nativa aqui!

— A Struan não negocia ópio aqui, deixe-me repetir, não negocia ópio aqui, embora não seja contra a lei britânica.

— Mas reconhece que o comércio é pernicioso e imoral.

— Reconheço, mas no momento é aprovado pelo governo de sua majestade e, infelizmente, é a única mercadoria que podemos negociar pelo chá da China, do qual o Parlamento obtém enormes tributos.

— Conheço muito bem o problema da China. Gostaria que você e sua companhia se antecipassem à lei agora, concordando voluntariamente em nunca importarem ópio para o Japão.

— Não estamos negociando ópio aqui.

— Ainda bem. Se eu descobrir navios transportando ópio, tenciono confiscar a carga e o navio.

— Eu diria que seria um risco legal, almirante. Sir William concordou ou aprovou sua intenção?

— Ainda não. Eu gostaria que você e os outros... mercadores fizessem isso de bom grado. E que o mesmo acontecesse com os fuzis de carregar pela culatra, cartuchos, canhões e navios de guerra.

— Greyforth concordou com uma proposta tão espantosa?

O pescoço tornou a ficar vermelho.

— Não.

Malcolm pensou por um momento. Ele e Jamie haviam concluído antes que seria esse o tema da reunião com o almirante. E mais a carta de sua mãe.

— Teremos uma reunião com Sir William dentro de poucos dias — disse ele. — Eu me sentiria honrado se comparecesse, como meu convidado especial. Todos os mercadores ouviriam o que tem a dizer.

— Minhas posições já são bem conhecidas. Vocês, entre todas as pessoas, deveriam saber de que lado do pão está a manteiga, que sem a esquadra para protegê-los e às suas rotas comerciais, ficariam desamparados. Se abastecem os nativos com canhões, ameaçam a marinha real, ajudam a afundar seus próprios navios, assassinam seus compatriotas e se expõem à ruína!

— Se tomar o exemplo da China ou de qualquer outro...

— É justamente o meu ponto, Sr. Struan! — exclamou o almirante. — Se os nativos não tivessem nossos armamentos, o motim nunca teria ocorrido, as revoltas por toda parte seriam contidas mais depressa, os selvagens no mundo inteiro poderiam ser educados com mais facilidade, o comércio útil seria conduzido em paz e a ordem no mundo floresceria, sob a benevolência da Pax Britannica. E piratas miseráveis não teriam os meios de disparar contra a minha nave capitânia! E sem a marinha real dominando os mares, não há Pax Britannica, não há império britânico, nem comércio, e voltaremos à idade das trevas!

— Confidencialmente, tem toda razão, almirante — disse Malcolm, com um fervor simulado.

Ele seguia o conselho de tio Chen:

— Quando um mandarim está furioso com você, por qualquer motivo, trate logo de concordar “confidencialmente” que ele tem toda razão. Sempre poderá assassiná-lo mais tarde, quando ele estiver dormindo.

Ao longo dos anos, eleja se envolvera na mesma discussão com o exército, marinha e representantes do governo. E testemunhara o pai e a mãe discutindo, o pai pelo livre comércio, a mãe pela moralidade, o pai esbravejando sobre o insolúvel triângulo do ópio, a mãe veemente contra o ópio mesmo assim — e também contra a venda de armas —, a verdade dos dois lados, ambos inflexíveis, a discussão sempre terminando com o pai bebendo até o estupor, a mãe sorrindo, com aquele seu sorriso fixo e irritante, que nada podia dissipar, e sempre a farpa final do pai:

— Meu velho... e seu príncipe encantado... o grande demônio de olhos verdes Dirk foi quem iniciou o comércio, com isso prosperamos e que Deus nos ajude!

Muitas vezes ele especulara — mas nunca ousara perguntar — se a mãe realmente era apaixonada pelo pai, em vez do filho, e só aceitara o filho porque não podia ter o pai. Sabia que nunca perguntaria, e se o fizesse, ela apenas exibiria aquele seu sorriso fixo e responderia: “Ora, Malcolm, não seja absurdo.”

— Confidencialmente, tem toda razão, almirante — repetiu ele.

Ketterer tomou o resto do porto em seu copo, serviu-se de mais.

— Já é alguma coisa, por Deus! — O almirante levantou os olhos. — Sendo assim, vai providenciar para que a Struan não se empenhe na venda de armas aqui?

— Claro que vou levar em consideração tudo o que disse e consultar os outros mercadores.

Ketterer tirou um lenço do bolso, assoou o nariz, aspirou uma pitada de rapé, espirrou, tornou a assoar o nariz. Depois que a cabeça desanuviou, os olhos irados fitaram o jovem, irritado por não perceber qualquer enfraquecimento.

— Pois então deixe-me expor o problema de outra maneira. Confidencialmente, você concorda que ajudar os japas a adquirir canhões, canhões britânicos, qualquer maldito canhão, ou navios de guerra britânicos, é uma estupidez?

— Se eles tivessem uma marinha comparável à nossa seria um er...

— Um desastre! Um desastre total e uma estupidez!

— Concordo.

— Ótimo. Gostaria que persuadisse todos os outros mercadores a partilhar de sua opinião: nada de armas de fogo aqui, canhões em particular, nem ópio. Confidencialmente, é claro.

— Terei o maior prazer em expor essas opiniões, almirante.

Ketterer soltou uma risada. Malcolm começou a se levantar, não querendo ser acuado.

— Um momento, Sr. Struan. Mais outro assunto, antes de se retirar. Um assunto particular. — O almirante gesticulou para o envelope e a carta na mesa. — Aquilo. Da Sra. Struan. Já sabe do que se trata?

— Sei, sim.

Ketterer empurrou a carta para o centro da mesa.

— Sua Casa Nobre é supostamente a primeira da Ásia, embora eu tenha sido informado que a Brock começa a ultrapassá-la agora. Mas não importa qual tenha a Primazia, podem ser um conduto para o bem. Eu gostaria que você e sua companhia estivessem comigo nesta causa justa. Muito justa, Sr. Struan.