Exasperado, Malcolm não disse nada, considerando que já respondera, e não se sentia disposto a ouvir outro sermão. Incisivo, Ketterer acrescentou:
— Confidencialmente, aqui entre nós, não costumo aceitar cartas assim de visitantes, em circunstâncias normais. Nem é preciso dizer que as regras e regulamentos a marinha real só interessam à marinha real. — Um gole do porto, um arroto reprimido. — O jovem Marlowe convidou-o e... à sua noiva para viajarem no Pearl, durante sua viagem de testes. Na terça-feira. Pelo dia inteiro. — Os olhos penetraram fundo pelos de Malcolm. — Não é verdade?
— É, sim, senhor — murmurou Struan, a mente em espasmo, com a sensação de que fora traído pelos ouvidos.
— Claro que minha permissão é necessária. — O almirante deixou a frase flutuar no ar, antes de acrescentar: — Por falar nisso, Sr. Struan, esse tencionado duelo é desaconselhável, e muito.
Malcolm piscou aturdido pelo non sequitur, e tentou se concentrar, enquanto o almirante continuava:
— Por mais que o tal de Greyforth mereça ser mandado desta para a melhor o mais depressa possível, duelar é contra a lei e uma imprudência, sempre pode haver erros. E terríveis. Entendido?
— Sim, senhor. Obrigado pelo conselho, mas estava dizendo...
— Obrigado, Sr. Struan — disse o almirante, levantando-se. — Obrigado por ter vindo me falar. Tenha um bom dia.
Atordoado, Malcolm também se levantou, sem saber se entendera direito.
— Quis dizer que eu...
— Quis dizer apenas o que falei, senhor. — A voz era cáustica, incisiva. — Assim como disse, confidencialmente, que levará em consideração tudo o que falei, também devo ressaltar, confidencialmente, que levarei em consideração tudo o que falar e fizer... até a meia-noite de segunda-feira. Tenha um bom dia.
Lá fora, o ar era puro e agradável, não havia complicações. Malcolm respirou fundo, várias vezes, até que sua força espalhou-se pela cabeça e peito. Esgotado e exultante, arriou no primeiro banco, e ficou olhando fixamente para a esquadra, sem vê-la.
Será que entendi Ketterer direito, Malcolm perguntou a si mesmo, muitas vezes, transbordando de esperança, ele pode estar mesmo disposto a esquecer a carta da mãe, dar permissão a Marlowe de nos receber a bordo e não proibi-lo de nos casar?
— Ketterer repisou o “confidencialmente” — murmurou Malcolm — e acentuou o “aqui entre nós”.
Isso significa que ele vai se manter quieto, se eu fizer a minha parte? O que posso fazer e dizer, antes da noite de segunda-feira, para persuadir o patife, pois é isso que ele é, um chantagista sem moral?
Besteira! É um negócio — ele me ofereceu um acordo —, um negócio maravilhoso para mim, e sem nada de ruim para ele. Eu teria de ser cuidadoso, os outros mercadores não aceitarão de bom grado um embargo voluntário. E tudo terá de ser feito às claras, porque o homem é esperto e não vai se satisfazer com meras promessas.
Em quem posso confiar com essa nova reviravolta no emaranhado da minha vida? Heavenly, Jamie? Marlowe? Claro que ele não. Angel? Não. Não ela. Se tio Chen estivesse aqui, seria ele, mas acontece que não está. Quem, então? Ninguém. É melhor não contar a ninguém!
Tem de fazer tudo sozinho... não é isso o que a mãe comentou que Dirk sempre dizia ao pai sobre ser o tai-pan? “É ficar sozinho, assumir a responsabilidade sozinho essa é a alegria e o sofrimento.” O que posso fazer sobre os canhões e...
— Boa tarde, Sr. Struan.
— Como? Ah, olá, Sr. Gornt.
— Parecia tão triste que não pude deixar de interrompê-lo.
— Não, não estou triste — murmurou Malcolm, cansado. — Apenas pensava.
— Desculpe. Neste caso, é melhor eu deixá-lo sozinho de novo, senhor.
— Não, por favor. Sente-se. Falou num preço, não é mesmo?
Edward Gornt acenou com a cabeça.
— Peço desculpas por não procurá-lo antes, senhor, mas acontece que o Sr. Greyforth não queria... ver a luz. Agora ele concorda com pistolas, pistolas de duelo de cano duplo, e um tiro ou dois, à sua escolha, a vinte passos.
— Ótimo. Que mais?
— Tentei dissuadi-lo do duelo, mas ele insistiu: “Não, a menos que Malcolm Struan peça desculpas publicamente.” Ou outras palavras com esse sentido.
— Certo. Mas vamos falar do outro assunto. Não há paredes ou portas aqui. — Malcolm gesticulou para o passeio quase deserto. — O preço?
— Também achei que este lugar era perfeito, mas não podemos passar muito tempo aqui e precisamos tomar cuidado, pois o Sr. Greyforth pode estar nos observando com um binóculo.
— E está?
— Não sei com certeza, senhor, mas sou capaz de apostar que sim.
— Vamos deixar a conversa para outro lugar? Mais tarde?
— Não. Aqui está bom. Mas ele é muito astuto, e não quero que fique desconfiado. O preço: se minha informação ajudar a frustrar o plano de Morgan para destruí-los, e levar os Brocks à bancarrota.
— Conhece os detalhes?
Gornt riu baixinho.
— Conheço, e muito bem, embora nem Morgan nem o Velho Brock saibam que eu sei. Nem o Sr. Greyforth. — Ele baixou a voz ainda mais, os lábios mal se movendo. — Tudo isso deve ser mantido em segredo entre nós, mas o preço é você liquidar Morgan Brock, pressioná-lo até a bancarrota, levá-lo à prisão, se for Possível... e se for necessário acabar com Tyler também, não me importo, mas dos destroços vai garantir que terei cinqüenta por cento de participação na Rothwell, livres e desimpedidos. Também terá de me ajudar a levantar no Victoria Bank os recursos necessários para comprar a metade de Jeff Cooper. Durante dez anos, não vai me pressionar de outra forma que não como um concorrente normal, proporcionando-me a condição de nação favorecida em todos os negócios... tudo constando de um contrato, escrito e assinado por você. Depois de dez anos, pode tirar as luvas.
— Concordo — respondeu Malcolm no mesmo instante, pois esperava por condições mais difíceis. — Mas os miseráveis do Victoria não são nossos amigos. Foi Brock quem iniciou o banco, e sempre nos excluiu. Portanto, não seremos de grande ajuda nesse ponto.
— Tal situação vai mudar em breve, senhor. Daqui a pouco todos os diretores vão peidar, se lhes disser peidem. Tudo isso deve ser mantido em segredo, é claro. O que planeja fazer depois do duelo?
Malcolm não hesitou, embora estranhasse poder confiar naquele homem tão depressa, e falou sobre o embarque no Prancing Cloud.
— Parto do pressuposto que serei o vencedor e não ficarei gravemente ferido. — Uma pausa e ele acrescentou, confiante: — Depois que chegar a Hong Kong, poderei esfriar as coisas.