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— Olhos, ouvidos e narinas abertos, como um morcego, e vigiar onde larga seu excremento! — Ah Tok soltou uma risada. — Dez mil verões para Chen da Casa Nobre, pois sem ele não saberíamos que o portão de jade da mulher esteve na porta de meu filho!

— Como sabemos que foi ele? — especulou Ah Soh, com um vigoroso arroto. — Como sabemos que foi mesmo o amo, e não algum outro?

Ela baixou a voz, olhou ao redor, como se esperasse que ouvidos estranhos pudessem estar ouvindo. Os pauzinhos de Ah Tok hesitaram em pleno ar.

— Alguém como Nariz Pontudo, o mesmo tipo de demônio estrangeiro que é hem? Os dois são muito íntimos, como piolhos na virilha de um mendigo, e não foi ele quem jogou ao mar o vidro e as outras provas?

A velha Ah Tok não estava mais rindo.

Fang pi! — exclamou ela, usando a imprecação rara. — É sobre isso que mestre Chen deve ter nos advertido! Morcegos dão voltas enquanto voam, não pousam no primeiro galho, e mesmo depois ficam pendurados de cabeça para baixo Ele está nos dizendo para descobrir que yang possuiu aquela yin! É isso mesmo! Concordo que é possível que Nariz Pontudo tenha feito meu filho usar um chapéu verde!

— O amo enganado! — Ah Soh revirou os olhos para o céu. — É verdade que Nariz Pontudo passou bastante tempo no quarto dela para... Ela parou de falar de repente, boquiaberta, e depois acrescentou:

— Mas é isso mesmo! Lembra o que aconteceu há algumas semanas, quando ela me mandou embora, e mais tarde gritou, porque pensava que alguém tentava entrar em seu quarto por fora, quando era apenas o vento sacudindo as janelas? Recordo tudo agora, cheguei a seu lado mais depressa que um morcego, mas Nariz Pontudo já se encontrava ali, e os dois... agora que penso a respeito, os dois estavam mais brancos que um cadáver de cinco dias! Teria sido a ocasião em que seu yang...

— Quando foi isso, irmã mais nova? O dia? Quando?

— Foi no dia... o dia seguinte ao amo trazer aquela prostituta nativa do bordel no outro lado do canal.

As duas puseram-se a fazer contas, as mentes tão velozes quando o ábaco. Hoje era o décimo segundo mês, quinto dia.

— Seria o décimo mês, décimo oitavo ou décimo nono dia, irmã mais velha.

— Não havia tempo suficiente, a menos que Escuro da Lua tenha sido tomado antes do prazo. — Distraída, Ah Tok sugou mais um pedaço de peixe, depois cuspiu as espinhas, com um ar de convicção. — Eles devem ter deitado juntos antes. A prostituta teve muitas oportunidades, não é mesmo? Ela estava sempre naquela casa bárbara, antes de vocês duas se instalarem aqui.

— Tem razão, como sempre, irmã mais velha. Devemos informar ilustre Chen imediatamente.

— Mas por que ela entregara seu portão de jade a um demônio estrangeiro tão feio, quando meu filho se mostra ansioso em possuí-lo?

Ah Soh deu de ombros.

— Bárbaros! Quem sabe o que eles pensam? Deve contar ao amo.

Tonta de excitamento, Ah Tok olhou para seu bar. Madeira, uísque, conhaque.

— Precisamos de força! — Ela escolheu o uísque, serviu duas doses enormes. — Ao trabalho! Devemos planejar, conspirar e pensar como fazer para que a prostituta e seu amante revelem a verdade!

— Muito bem! Juntas, conseguiremos!

— Mas nenhuma insinuação a meu filho, pois seria insensato para nós sermos portadoras de más notícias. Até termos certeza. — Elas bateram os copos. — Por todos os deuses, grandes e pequenos, ninguém vai enganar meu filho, fazê-lo usar o chapéu verde, e depois levar uma vida longa e feliz!

— Boa noite, padre Leo — disse Angelique, polida.

Ela se ajoelhou e beijou sua mão, descobrindo ser difícil conter a repulsa pelo intenso odor que ele exalava. Estavam sozinhos na pequena igreja, a nave mal iluminada, apenas umas poucas velas ardendo, o sol poente entrando pelo vitral pequeno e malfeito. Havia poucos católicos na colônia, a receita era ínfima, mas mesmo assim o altar e o crucifixo eram suntuosos. Lá fora, ao pôr-do-sol, Vargas esperava, para escoltá-la de volta.

— Queria me falar? — perguntou ela, inocente, sabendo que faltara de novo à missa no domingo. A touca rosa fora escolhida com todo cuidado, assim como o xale comprido de cashmere, caindo sobre o vestido de tarde, de uma seda escura. — Está com uma ótima aparência, padre.

— Fico contente em vê-la, minha criança — disse ele, com seu forte sotaque português. — Não compareceu à missa mais uma vez.

— São os vapores, padre. Ainda me recupero do distúrbio... e o Dr. Babcott aconselhou repouso — respondeu Angelique, pensando no que usaria naquela noite, para o banquete de aniversário do ministro russo, e o que poderia fazer para distrair Malcolm até lá. — Tenho certeza que me sentirei melhor na próxima semana.

Folgo em saber, minha jovem mentirosa, pensou Leo, desgostoso com a perfídia da humanidade. É uma impiedade dançar à noite e mostrar as partes desvestidas.

— Não importa. Ouvirei sua confissão agora.

Angelique quase que poderia bocejar, de tão previsível que ele era. Obediente, seguiu-o ao confessionário, ajoelhou-se, cumpriu o ritual, contente pela tela que os separava, confortada pelo pacto que fizera com a Virgem Maria, repetindo o código, fervorosa, como sempre:

—... e mais uma coisa, padre, esqueci de pedir perdão à Santa Mãe em minhas orações.

A absolvição foi rápida, uma modesta penitência de umas poucas ave-marias, e ela se sentiu melhor por isso. Começou a se levantar...

— Agora, minha criança, um problema particular. Há dois dias, o Sr. Struan mandou me chamar, para uma conversa confidencial, e pediu-me para casar vocês dois.

Angelique ficou boquiaberta, depois exibiu um sorriso glorioso.

— Oh, padre, que maravilha!

— Tem toda razão, minha criança. “Por favor, case-nos o mais depressa possível”, pediu o jovem Sr. Struan. Mas é difícil. — Noite e dia, ele remoera o problema. Enviara no mesmo dia uma carta urgente para o bispo de Macau, líder espiritual católico na Ásia, suplicando conselho, também urgente. — Muito difícil para nós.

— Por que, padre?

— Porque ele não é católico, e...

— Mas ele concordou que nossos filhos serão criados na verdadeira igreja. Foi o que me prometeu.

— É verdade, minha criança, ele me disse a mesma coisa. Mas o jovem Sr. Struan ainda não alcançou a idade para casar sem permissão, nem você. Mas eu queria lhe dizer, em segredo, que mesmo assim solicitei a Sua Eminência permissão para celebrar a cerimônia, pela maior glória de Deus, até mesmo... com ou sem aprovação de seu pai. Soube que seu pai desapareceu, em algum lugar da Indochina francesa ou Sião.

Os detalhes sobre as fraudes e a fuga do pai haviam circulado pela colônia, mas ninguém contara nada a Angelique, por deferência, nem a Struan.