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— Se Sua Eminência concordar, tenho certeza que o senhor Seratard, in lócus parentis, também concordará.

O aperto na garganta de Angelique não desapareceu.

— Quanto tempo vai demorar para Sua Eminência responder... conceder sua aprovação?

— Até o Natal, ou pouco depois, antes disso, se estiver em Macau, e não viajando, em visita aos fiéis na China, e se for a vontade de Deus.— Como sempre, ele sentava do outro lado sem olhar para a tela, um ouvido próximo, para garantir a privacidade sussurrada, mas agora virou o rosto e pôde divisá-la, vagamente. — A questão sobre a qual desejo conversar, em particular, é a conversão do senhor Struan.

Ela ficou outra vez aturdida.

— Ele disse que se converteria?

— Não. Ainda não enxergou a luz, e é sobre isso que quero falar.

Padre Leo inclinou-se para mais perto da tela, saboreando a proximidade de Angelique, dominado por um desejo que sabia ser ímpio, enviado por Satã, o mesmo contra o qual lutava todos os dias e noites, de joelhos... o mesmo que enfrentava, com igual tormento, desde que ingressara na Igreja.

Que Deus me dê força, e que me perdoe, pensou ele, quase em lágrimas, querendo estender as mãos, acariciar os seios e o resto da moça, tudo oculto pela tela e o xale, pelo resto das roupas e a ira de Deus.

— Você deve ajudá-lo a adotar a verdadeira fé.

Angelique mantinha-se tão longe da tela quanto podia. Entreabriu as cortinas, Para reduzir a claustrofobia que a estrutura em forma de caixa lhe proporcionava. Os confessionários nunca foram assim, pensou ela, estremecendo. Só depois... depois do que nunca aconteceu.

— Eu ajudarei, padre, faço tudo o que posso — murmurou ela, o nervosismo aumentando, e de novo fez menção de se retirar.

— Espere!

A violência na voz a chocou.

— Padre?

— Por favor... espere, por favor, minha criança.

A voz era afável agora, mas a afabilidade era forçada, e isso a assustou, pois não era a voz de um padre, sacrossanta, num lugar santificado, mas a de um estranho.

— Devemos conversar sobre esse casamento, minha criança, sobre a conversão de seu noivo. É preciso tomar muito cuidado com as influências malignas. A conversão é indispensável, como um preparativo para... para a eternidade.

— “Indispensável”, padre? — murmurou Angelique. — Ia dizer “indispensável como um preparativo para o casamento”!

— Para... para a eternidade.

Ela fitou a sombra no outro lado da tela, convencida de que ele mentia, consternada por sequer considerar essa possibilidade, muito menos acreditar nela.

— Ajudarei em tudo o que puder, padre.

Ela se levantou, abriu as cortinas, em busca de ar. Mas padre Leo postou-se em seu caminho. Angelique notou o suor em sua testa e que ele pairava acima dela, em altura e volume.

— É para o bem dele, para sua própria salvação. A dele, minha criança. Seria melhor... seria melhor antes.

— Está dizendo, padre, que a conversão de Malcolm é indispensável para que possa nos casar? — indagou ela, apavorada.

— Não cabe a mim determinar as condições. O que Sua Eminência decidir vai nos orientar, pois somos servidores fiéis.

— Na igreja de meu noivo, ninguém disse que devo me tornar protestante. É claro que também não posso forçá-lo.

— É preciso que ele enxergue a verdade! Esse casamento é uma dádiva de Deus. Protestante? Essa heresia? Apostasia? Inadmissível! Estaria perdida para sempre, condenada, excomungada, sua alma eterna consignada ao tormento permanente no fogo, ardendo pelos tempos afora!

Angelique manteve os olhos baixos, era quase incoerente.

— Para mim, sim, para ele... milhões de pessoas acreditam de uma forma diferente.

— Todos estão loucos, perdidos, condenados e arderão para sempre! — A voz era ainda mais dura. — É isso mesmo! Devemos converter os pagãos! Malcolm Struan deve se con...

— Tentarei, padre. Adeus. Obrigada... tentarei.

Ela contornou-o, afastou-se apressada. Virou-se ao chegar à porta, por um momento, fez uma genuflexão e saiu para a luz. O padre continuou parado na nave de costas para o altar, sua voz ressoando pela igreja:

— Seja um instrumento de Deus, converta os pagãos, se ama a Deus, salve esse homem, salve-o do purgatório, se ama a Deus, salve-o, ajude-me a salvá-lo das chamas do inferno, salve-o para a glória de Deus, tem de fazer isso... antes de casar, salve-o, deixe-nos salvá-lo...

Naquela noite, uma patrulha de samurais saiu da casa da guarda no portão norte. Eram dez guerreiros, armados com espadas e uma armadura leve de combate, um oficial no comando. Atravessaram a ponte, passaram pela barreira, entraram na colônia. Um homem carregava um estandarte alto e estreito, com caracteres escritos. O samurai na vanguarda erguia uma tocha, que projetava estranhas sombras.

A High Street e o passeio a beira-mar ainda se encontravam bastante movimentados, no princípio de noite agradável. Mercadores, soldados, marujos, lojistas dando uma volta, ou parados em grupos, conversando e rindo, aqui e ali, com umas poucas canções e bêbados, um ou outro cautelosos prostitutos. Na praia, alguns marujos haviam acendido uma fogueira e dançavam uma hornpipe ao redor, embriagados, com um travesti no meio. Podia-se ouvir a distância o clamor habitual na cidade dos bêbados.

A presença ominosa foi logo notada. Todos pararam no mesmo instante. As conversas foram interrompidas no meio de uma frase. E depois cessaram por completo. Todos os olhos se viraram para o norte. Os mais próximos da patrulha trataram de sair da frente. Mais que uns poucos tatearam à procura do revólver e praguejaram por não encontrá-lo no bolso ou no coldre. Outros recuaram e um soldado de folga saiu correndo por uma viela para chamar o plantão noturno dos fuzileiros.

— Qual é o problema, senhor? — perguntou Gornt.

— Ainda nenhum — respondeu Norbert, com uma expressão sombria.

Os dois integravam um grupo no passeio, mas ainda longe dos samurais, que não prestaram qualquer atenção aos homens silenciosos que os observavam, caminhando encurvados, os passos irregulares, como era seu costume. Lunkchurch aproximou-se.

— Está armado, Norbert?

— Não. E você?

— Também não.

— Eu estou, senhor. — Gornt sacou sua pequena pistola. — Mas não fará muita diferença, se eles forem hostis.

— Quando em dúvida, meu jovem — disse Lunkchurch, a voz rouca —, saia correndo, é o que sempre falei.

Ele estendeu a mão para Gornt, antes de se afastar, apressado:

— Barnaby Lunkchurch, Sr. Gornt. Prazer em conhecê-lo. Seja bem-vindo a Yokopoko. Até mais tarde, no clube. Ouvi dizer que joga bridge. Será ótimo sentarmos para uma partida.