Todos trataram de se manter fora do alcance. Os bêbados se tornaram subitamente sóbrios. Cada um se encontrava de guarda, pois era muito bem conhecida a rapidez de uma repentina corrida de samurai brandindo as espadas. Norbert já escolhera uma linha de retirada, caso se tornasse necessário. Depois ele viu o pelotão de fuzileiros sair por uma rua transversal, em passo acelerado, os fuzis de prontidão, um sargento à frente, para assumir uma posição de vigia embora não provocadora. Norbert relaxou e comentou:
— Não há mais nada com que se preocupar agora. Sempre anda com isso Edward?
— Sempre, senhor. Pensei que tinha lhe dito.
— Não, não disse — respondeu Norbert, em tom ríspido. — Posso vê-la?
— Claro. Está carregada.
A pistola era pequena, mas mortífera. Cano duplo. Dois cartuchos de bronze. Coronha revestida de prata. Norbert devolveu-a.
— Muito boa. É americana?
— Francesa. Meu pai me deu quando fui para a Inglaterra. Disse que a ganhara de um jogador num barco no Mississippi, a única coisa que me deu em toda a sua vida. — Gornt riu baixinho, os dois observando os samurais se aproximarem. — Até durmo com ela, senhor, mas só a disparei uma vez. Foi contra uma dama que se esgueirava com minha carteira na calada da noite.
— Acertou-a?
— Não, senhor. Nem estava tentando. Queria apenas assustá-la. Uma dama não deve roubar, não é mesmo, senhor?
Norbert soltou um grunhido e voltou a se fixar nos samurais, considerando Gornt sob uma nova luz, mais perigosa.
A patrulha foi andando pelo meio da rua, as sentinelas na frente das legações britânica, francesa e russa — as únicas com guardas permanentes — aprontando seus fuzis, já alertadas.
— Soltar as travas de segurança! Não atirem, até eu mandar! — resmungou o sargento. — Grimes, vá avisar ao comandante. Ele está com os russos, a terceira casa descendo a rua.
O soldado se afastou. Os lampiões ao longo do passeio piscavam. Todos esperavam, ansiosos. O oficial dos samurais continuou a avançar, impassível.
— Um desgraçado de maus bofes, não acha, sargento? — sussurrou um soldado, as mãos empunhando o fuzil.
— Todos são desgraçados de maus bofes. Trate de se controlar.
O oficial alcançou o prédio da legação britânica e gritou uma ordem. Seus homens pararam, entraram em formação diante do portão. Ele se adiantou, falou ao sargento num japonês gutural. Um silêncio opressivo. Mais palavras, impacientes, imperiosas, obviamente ordens.
— O que você quer? — perguntou o sargento, meio metro mais alto. Outra vez as frases ásperas, mais furiosas.
— Alguém entende o que ele está dizendo? — gritou o sargento.
Não houve resposta, até que Johann, o intérprete, saiu da beira da multidão. fez uma reverência ao oficial dos samurais, que retribuiu de forma superficial, e lhe falou em holandês. O oficial respondeu em holandês, procurando as palavras Johann explicou:
— Ele traz uma mensagem, uma carta para Sir William, e tem de entregá-la pessoalmente.
O oficial começou a se encaminhar para o portão da legação, e todos os fuzis foram erguidos. Ele parou. Uma furiosa tirada contra o sargento e os soldados. Todos os samurais tiraram um quarto das espadas das bainhas, assumiram uma posição defensiva. Ali perto, a patrulha dos fuzileiros assumiu ordem de combate. Todos esperavam pelo primeiro erro.
Nesse momento, Pallidar e dois outros oficiais dos dragões saíram apressados da legação russa, um pouco adiante, em uniformes de gala, com suas espadas.
— Eu assumo o comando, sargento — declarou Pallidar. — Qual é o problema?
Johann informou-o. Pallidar, a esta altura bem versado nos costumes japoneses, fez uma reverência para o oficial samurai, esperou uma retribuição igual.
— Diga a ele que receberei a carta. Sou o ajudante-de-ordens de Sir William.
— Ele diz: Sinto muito, as ordens são para entregar pessoalmente.
— Diga-lhe que estou autorizado...
A voz de Sir William interrompeu-o:
— Capitão Pallidar... espere um momento! Johann, de quem é a carta?
Ele estava parado na entrada da legação russa, com Zergeyev e outros ao seu lado. O oficial apontou para o estandarte, gritou mais algumas palavras, e Johann traduziu:
— Ele diz que é do tairo, mas creio que se refere ao roju, o Conselho dos Anciãos. Recebeu ordem de entregá-la pessoalmente.
— Está certo. Vou recebê-la. Mande ele vir até aqui.
Johann obedeceu. Altivo, o oficial samurai fez sinal para que Sir William se adiantasse. Mas Sir William gritou, ainda mais ríspido, com menos cortesia ainda:
— Diga a ele que estou jantando. Se não quiser vir até aqui imediatamente, pode entregar a carta amanhã.
Johann era muito experiente para traduzir exatamente, e apenas deu ênfase suficiente para transmitir o significado. O oficial samurai respirou fundo, em fúria, depois avançou através do portão russo, passou pelos dois enormes guardas barbudos e parou diante de Sir William, esperando por uma reverência.
— Keirei! — berrou Sir William. Saudação! Era uma das poucas palavras em japonês que ele se permitira aprender. — Keirei!
O oficial corou, mas fez uma reverência, numa reação automática. Inclinou-se Como se fosse um igual, e sentiu-se ainda mais irritado quando Sir William apenas acenou com a cabeça, como se fosse um inferior. Mas também, pensou o oficial, esse homenzinho fétido é o líder gai-jin, com uma reputação de ira tão vil quanto seu cheiro. Quando atacarmos, eu mesmo o matarei.
Ele pegou o pergaminho, deu um passo à frente, entregou-o, recuou, fez uma reverência perfeita, esperou até que houvesse uma retribuição, embora grosseira, satisfeito por ter levado a melhor sobre o inimigo. Para descarregar sua raiva, gritou com seus homens, e afastou-se como se eles não existissem. Todos seguiram-no, também furiosos pela grosseria do gai-jin.
— Onde está Tyrer? — indagou Sir William.
— Mandarei alguém chamá-lo — disse Pallidar.
— Não precisa. Peça a Johann para vir até aqui.
— Se está em holandês, posso ler a mensagem, Sir William — interveio Erlicher, o ministro suíço.
— Obrigado, mas é melhor Johann, já que ele conhece japonês também.
Sir William não queria partilhar, de antemão, nada com ninguém, ainda mais com um estrangeiro que representava uma nação pequena, mas em crescimento com uma bem desenvolvida indústria bélica ansiosa por exportações, com uma reputação baseada na qualidade extraordinária e única de seus relojoeiros, uma das poucas áreas em que os fabricantes britânicos não podiam competir.
A sala de jantar, o maior cômodo do prédio, tinha uma mesa para vinte pessoas, com prataria e louça da melhor qualidade. Todos os ministros ali se encontravam, à exceção de von Heinrich, que continuava doente, além de Struan, Angelique, à cabeceira da mesa, alguns oficiais franceses e britânicos, com dois criados de libré por trás de cada lugar, e mais para servir.