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— Posso usar a ante-sala, conde Zergeyev? — perguntou Sir William, em russo.

— Claro.

O conde Zergeyev abriu a porta. Esperaram por um momento, até que Johann entrasse, apressado, e depois ele fechou a porta.

— Boa noite, Sir William — disse Johann, satisfeito por ter sido chamado.

Seria o primeiro a saber qual era o problema e poderia continuar a ser útil para o ministro de seu país. Rompeu o lacre do pergaminho e também sentou-se.

— Em holandês e japonês. É curta.

Ele correu os olhos depressa pela carta, franziu o rosto, releu-a, outra vez, soltou uma risada nervosa.

— Está endereçada ao ministro britânico e diz: “Comunico por este despacho. Por ordem do xógum Nobusada, recebida de Quioto, todos os portos serão fechados imediatamente e todos os estrangeiros expulsos e obrigados a partir, pois não pre...

— Expulsos? Obrigados a partir?

O berro de Sir William passou pela porta. Os convidados para o jantar caíram num silêncio apreensivo. Johann estremeceu.

— Isso mesmo, senhor. Sinto muito. É o que diz aqui: “...e obrigados a partir, pois não precisamos nem queremos quaisquer negócios entre estrangeiros e nosso povo. Envio este comunicado antes de uma reunião imediata para acertar os detalhes da retirada urgente de Iocoama. Respeitosa comunicação.

— Respeitosa? Mas que maldita impertinência...

A explosão continuou. Assim que Sir William fez uma pausa para respirar, Johann disse:

— Está assinada por “Nori Anjo... Tairo”. Pelo que sei, Sir William, isso é quase como ditador.

37

QUIOTO

Quinta-feira, 4 de dezembro:

Yoshi Toranaga estava lívido.

— Quando a designação de tairo foi confirmada?

— Anteontem, Sire, pelo pombo-correio para lorde Anjo, em Iedo. — Wakura, o lorde camarista, chefe dos funcionários do palácio, falava em voz suave, indiferente à ira ostensiva de seu convidado, e disfarçando sua alegria, pois aguardara ansioso por aquele encontro, em seus aposentos, dentro do palácio. — O pergaminho formal, assinado pelo xógum, a pedido do filho do céu, foi enviado, se não me engano, para entrega urgente a lorde Nori Anjo no mesmo dia.

Isso deixou Yoshi ainda mais furioso. Seu ancestral, o xógum Toranaga, determinara que os pombos-correios seriam propriedade exclusiva do xogunato. Ao longo de dois séculos e meio esse método de comunicação entrara em declínio, por ser desnecessário, e agora era usado apenas para anunciar ocorrências vitais, como a morte de um xógum ou de um imperador. O Bakufu optava por ignorar que há anos alguns emprestadores de dinheiro da zaibatsu de Osaca vinham usando pombos-correios em segredo... o que os deixava expostos a medidas punitivas, tributos extras, ou favores, se o Bakufu decidisse impor a lei.

— E quando será entregue o insensato ultimato aos gai-jin? — perguntou Yoshi.

— Imediatamente, Sire. O pedido imperial foi incluído na mesma mensagem por pombo-correio, confirmado pelo xógum Nobusada, e com a ordem para apresentação imediata.

— A ordem é baka, a pressa ainda mais baka! — Yoshi ajeitou o manto alcochoado nos ombros. A chuva miúda que caía nos jardins lá fora acrescentava umidade ao frio. — Mande outro pombo-correio cancelando a ordem.

— Se dependesse de mim, Sire, faria isso sem hesitar, já que está sugerindo Assim que se retirar, Sire, solicitarei permissão, mas imagino que será tarde demais. O líder gai-jin já deve ter recebido a ordem, que pode até ter sido entregue ontem.

Wakura, feliz, manteve o rosto e a atitude de um penitente. Isso era a culminação de anos de intriga em apoio aos desejos do imperador, a opinião da maioria dos daimios, a maioria dos nobres da corte, de Ogama, que no momento detinha o poder em Quioto, embora os portões fossem mais uma vez ostensivamente guardados pelo odiado xogunato — mas apenas com a permissão de Ogama — também da princesa Yazu e, o mais importante de tudo, em apoio às suas próprias posições.

A escolha hábil e sagaz do momento oportuno, poucos dias antes, o deixara na maior satisfação. Abordara a princesa durante seu passeio matutino pelos jardins do palácio e, num único movimento, neutralizara o xogunato, o Bakufu e Yoshi, o mais perigoso de seus inimigos.

— Princesa imperial, soube que alguns cortesãos próximos do divino, com seus interesses em mente, sussurram que o lorde, seu marido, deveria designar lorde Nori Anjo como tairo, o mais depressa possível.

— Anjo? — dissera ela, incrédula.

— Pessoas de sabedoria, princesa, acreditam que deve ser feito depressa, e com absoluta discrição. As conspirações em Iedo abundam e isso evitaria a interferência de... de inimigos ambiciosos, inimigos que tentam a todo instante arruinar seu reverenciado marido e que têm ligações com os infames shishi. Lembre de Otsu!

— Como se eu pudesse esquecer! Mas Anjo... não que eu tenha qualquer influência para conseguir uma coisa assim... é um tolo. Como tairo, ele se tornará ainda mais arrogante.

— É verdade, mas elevá-lo acima dos outros anciãos pode ser um pequeno preço a pagar para fazer com que seu lorde xógum fique mais seguro durante sua minoridade e frustrar seu... seu único rival, lorde Yoshi.

— Um tairo poderia removê-lo de sua posição de guardião?

— Provavelmente, princesa. Outro ponto em favor de Anjo, sussurram os sábios, é o fato de ele ser o instrumento perfeito a se usar contra os gai-jin: simplório, mas obediente às solicitações imperiais. O divino notaria tal lealdade, e sem dúvida recompensaria os serviços prestados. Se for feito depressa, de maneira discreta, pelo que dizem os sábios, seria o melhor.

Fora muito fácil plantar a semente que desabrocharia como uma de minhas orquídeas de estufas superfertilizadas... como fui previdente ao manobrar para o casamento dela. As palavras da princesa nos ouvidos daquele jovem obtuso, a cooperação de alguns nobres dependentes, meus próprios conselhos, logo procurados e prontamente oferecidos, e tudo ficou resolvido.

E agora é a sua vez, Toranaga Yoshi, pensou ele, feliz, Yoshi, o belo, o astuto, forte, o usurpador bem-nascido, esperando e farejando nas asas do poder, pronto para iniciar a guerra civil que eu e todos tememos, à exceção de uns poucos nobres radicais, a guerra que vai esmagar a ressurgência do poder imperial, e mais uma vez deixar a corte imperial sob o tacão de qualquer belipotentado salteador que dominar os portões e poderá, com isso, reduzir nossos estipêndios e nos transformar de novo em mendigos.

Ele conteve um tremor. Há não muitas gerações, o imperador de então tinha de vender sua assinatura nas ruas de Quioto, a fim de levantar dinheiro para comer. Há não muitas gerações, os casamentos na corte eram arrumados para daimios ambiciosos e arrivistas, que mal pertenciam à classe dos samurais, tendo como uma única qualificação para uma posição superior o sucesso na guerra e o dinheiro. Há não muitos anos...