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Não, pensou ele, nada disso vai acontecer. Depois que sonno-joi for um fato, nossos leais amigos shishi vão se dispersar e voltar para seus feudos, todos os daimios se submeterão a ele, nós da corte vamos reinar, e nossa época áurea voltará.

Wakura tossiu, ajeitou as mangas enormes do requintado traje da corte mais a seu gosto, observando Yoshi, os olhos contraídos no rosto maquilado, de acordo com o costume da corte.

— Sem dúvida, Sire, a ordem para expulsar os gai-jin é boa. A sábia e antiga aversão do imperador aos gai-jin e aos tratados será concretizada e nossa terra dos deuses se livrará deles para sempre. Isso deve agradá-lo também, lorde Yoshi.

— Se a ordem fosse significativa, sim. Se fosse obedecida, sim. Se tivéssemos os meios para impô-la, sim. Mas nada disso vai acontecer. Por que não fui consultado?

— Você, Sire?

As sobrancelhas pintadas de Wakura se altearam.

— Sou o guardião do herdeiro por designação imperial. O menino é menor de idade, não é responsável por sua assinatura.

— Oh, Sire, sinto muito... se dependesse de mim, é claro que sua aprovação seria procurada em primeiro lugar. Por favor, não me culpe, Sire. Não posso decidir nada, apenas fazer sugestões. Sou apenas um servidor da corte, do imperador.

— Eu deveria ter sido consultado!

— Concordo, Sire, mas estes são tempos estranhos.

O rosto de Yoshi era tenso. Os danos já haviam se consumado. Ele teria de arrancar o xogunato de seu próprio esterco. Idiotas! Como?

Primeiro Anjo... de um jeito ou de outro. Minha esposa tinha razão.

Ah, Hosaki, como sinto falta dos seus conselhos! Pensando na família, seus olhos vaguearam para fora e no mesmo instante a fúria pareceu se dissolver. Além da janela de shoji, avistou seus guardas, esperando ao abrigo do telhado requintado, os jardins por trás, a chuva indulgente, faiscando nos vermelhos, dourados e marrons combinados com o maior cuidado, uma imagem agradável para a vista e a alma... tão diferente de Iedo, pensou ele, distraído. Hosaki gostaria daqui grande mudança em nossa vida austera. Ela aprecia a beleza e gostaria daqui.

Seria muito fácil se deixar embalar, pelo tempo e os jardins, os céus gentis e a chuva delicada, a melhor música, poesia, alimentos exóticos, beldades de pele de alabastro da corte e também do mundo flutuante de Quioto, Shimibara, o mais procurado em todo o Nipão, sem qualquer preocupação no mundo, exceto a de procurar o próximo prazer.

Desde que chegara a Quioto, além da paz temporária com Ogama, pouco realizara, além dos tempos de prazer... tão raros para ele. O prazer com Koiko, o treinamento diário com espada e artes marciais, massagens maravilhosas —Quioto era famosa por isso — banquetes em cada refeição, jogar Go e xadrez escrever poesia.

Como foi sábio meu ancestral ao confinar o imperador e esses sicofantas vestidos com tanto exagero a Quioto, e construir sua própria capital em Iedo, longe de suas seduções e tortuosas manipulações... e como foi sábio ao proibir um xógum de vir para esta armadilha de mel.

Eu deveria ir embora. Mas como posso partir sem Nobusada?

A corte praticamente o afastara dele. E o próprio Nobusada não queria vê-lo. Por duas vezes, o jovem cancelara uma reunião no último momento, alegando um resfriado. O médico confirmara oficialmente o resfriado, mas seus olhos revelavam que era apenas um pretexto.

— Mas a saúde do lorde xógum me preocupa, lorde Yoshi. Sua constituição não é forte e sua virilidade deixa muito a desejar.

— A culpa é da princesa?

— Não, Sire. Ela é vigorosa, sua yin ampla é bastante sedutora para satisfazer o mais exigente yang.

Yoshi interrogara o médico com o maior cuidado. Nobusada nunca fora um espadachim ou caçador, alguém que gostasse da vida ao ar livre, como o pai e os irmãos, preferindo os esportes mais fáceis da falcoaria e arco e flecha, ou, ainda mais, as competições de poesia e caligrafia. Entretanto, não havia nada de errado com isso.

— Seu pai ainda é bastante vigoroso e a família é conhecida pela longevidade. Não há motivo para alarme. Dê-lhe uma de suas poções, convença-o a comer mais peixe, menos arroz polido, menos dos alimentos exóticos que a princesa tanto aprecia.

Ela participara do único encontro que ele tivera com seu pupilo, poucos dias antes. E tudo saíra errado. Nobusada recusara-se a considerar o retorno a Iedo, recusara-se até mesmo a discutir uma possível data, recusara seus conselhos em todas as outras questões, escarnecendo dele com Ogama:

— O Choshu controla as ruas, os homens de Ogama estão eliminando os infames shishi, primo. Não estou seguro cercado por nossos próprios guerreiros. Só me sinto seguro aqui, sob a proteção do imperador!

— Isso é um mito. Só ficará seguro no castelo de Iedo.

— Sinto muito, lorde Yoshi — interviera a princesa, a voz doce e insinuante — mas a umidade em Iedo é muito grande, o clima não se compara com o de Quioto. e a tosse do meu marido precisa de proteção.

— É isso mesmo, Yazu-chan, e eu gosto daqui, primo, pois pela primeira vez na vida estou livre, não confinado àquele castelo horrível! Aqui sou livre para vaguear, cantar, tocar, e me sinto seguro, estamos seguros, a tal ponto que posso ficar para sempre! Por que não? Iedo é uma cidade suja e fedorenta; governar daqui seria maravilhoso!

Yoshi ainda tentara argumentar, mas fora tudo em vão. E de repente Nobusada declarara, impulsivo:

— O que mais preciso, acima de tudo, até alcançar a maioridade, e não falta muito agora, primo, o que preciso é de um líder forte, um tairo. Nori Anjo seria perfeito.

— Ele seria péssimo para você e o xogunato — insistira Yoshi, paciente, e explicara mais uma vez, só que não fizera a menor diferença. — Seria uma insensatez...

— Não concordo, primo. Anjo me escuta, a mim, o que você nunca faz. Eu disse que queria apresentar meus respeitos ao divino, meu cunhado, ele concordou, e aqui estou, enquanto você se opôs! Ele me escuta! A mim! A mim, o xógum! E não se esqueça de que qualquer um é melhor do que você! Nunca será o tairo, nunca mesmo!

E ele deixara os dois, jamais acreditando — apesar da risada desdenhosa e irritante de Nobusada em sua esteira — que o tairo Anjo poderia se tornar uma realidade.

Mas agora é um fato, pensou ele, sombrio, consciente de que o lorde camarista Wakura o observava.

— Deixarei Quioto nos próximos dias — anunciou Yoshi, tomando uma súbita decisão.

— Mas não passou muito tempo aqui, Sire — comentou Wakura, dando os parabéns a si mesmo. — Nossa acolhida foi tão horrível assim?