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— Não, não teve nada de horrível. Quais são as outras informações lastimáveis que tem para mim?

— Nenhuma, Sire. Sinto muito se relatei alguma coisa que o desagradou. Wakura tocou uma sineta. No mesmo instante, um criado todo maquilado entrou, com chá e um prato de tâmaras, os dentes também pintados de preto.

— Obrigado, Omi.

O rapaz sorriu para ele e se retirou.

— As tâmaras são as mais doces que já provei. De Satsuma.

Eram grandes, ressecadas ao sol, com mel. Os olhos de Yoshi se contraíram. Pegou uma; não era por coincidência que vinham de Satsuma.

— São excelentes.

— São mesmo. Uma pena que o daimio Sanjiro não seja tão doce quanto as frutas e outros alimentos que seus camponeses-soldados cultivam. É curioso o samurai em Satsuma pode ser as duas coisas sem perda de casta.

Yoshi escolheu outra tâmara.

— Curioso? É apenas o costume antigo deles. Um mau costume. É sempre melhor que os homens sejam samurais ou camponeses, uma coisa ou outra, de acordo com o legado.

— Ah, sim, o legado. Mas também o xógum Toranaga permitiu que a família conservasse seu feudo e suas cabeças, depois de Sekigahara, embora tivessem lutado contra ele. Talvez ele gostasse de suas tâmaras também. Interessante, neh?

— Talvez o xógum Toranaga se satisfizesse por eles terem encostado a cabeça na terra à sua frente, humildemente lhe concedendo o poder sobre Satsuma jurando fidelidade perpétua, e com humildade ainda maior agradeceram quando lhes foi concedido Satsuma como feudo.

— Ele foi um sábio soberano, muito sábio. Mas agora os Satsumas sob Sanjiro não são mais tão humildes.

— Isso também ocorre com outros — murmurou Yoshi.

— Como eu disse, vivemos em tempos estranhos. — Wakura demorou a escolher outra tâmara. — O rumor é de que ele prepara suas legiões para a guerra, apronta todo o feudo para a guerra.

— Satsuma sempre se mantém em pé de guerra. Outro costume antigo. Deve me dar o nome de seu fornecedor de tâmaras. Podemos aproveitar um fornece assim em Iedo.

— Será um prazer — respondeu Wakura, sabendo que nunca revelaria sua rede de espiões. — Alguns sábios conselheiros sugerem que desta vez Sanjiro realmente levará a guerra a todo o território.

— Guerra contra quem, lorde camarista?

— Presumo que contra todos aqueles que Sanjiro considera seus inimigos.

— E quem são eles? — indagou Yoshi, paciente, querendo que Wakura contasse tudo.

— Circulam rumores de que será contra o xogunato. Sinto muito.

— Ele se arrependeria se tentasse a guerra contra a lei da terra, lorde camarista. Esses sábios conselheiros que você mencionou talvez devessem aconselhá-lo a não ser tão estúpido. E os conselheiros também podem ser estúpidos, neh?

— Concordo — disse Wakura, sorrindo apenas com um retorcer da boca.

— E eu concordo que Sanjiro é combativo, mas não é estúpido. E o mesmo se pode dizer de Ogama de Choshu. E de Yodo de Tosa. Todos os lordes exteriores são militantes e manipuladores, sempre foram... como alguns altos funcionários da corte, mal orientados e ambiciosos demais.

— Mesmo que isso fosse verdade, Sire, o que uns poucos cortesãos poderão fazer contra o poderoso xogunato, quando toda a corte não possui exércitos, possui terras, nem koku, e todos dependem da generosidade do xogunato para seus estipêndios?

Yoshi sorriu também, um sorriso torcido.

— Eles promovem o descontentamento entre os daimios ambiciosos. E isso me lembra de uma coisa... — acrescentou ele, concluindo que Wakura fora longe demais e precisava de um açoite —... talvez, neste maravilhoso enclave, vocês ainda não saibam, mas haverá fome por todo o Nipão no próximo ano, inclusive no Kwanto. Corre o rumor de que o estipêndio da corte será cortado, este ano e no próximo, creio que pela metade.

Ele ficou contente ao ver que os olhos de Wakura quase se tornaram vesgos e arrematou:

— Sinto muito.

— Eu também sinto muito, pois seria lamentável. Os tempos já são bastante difíceis agora.

Wakura reprimiu o impulso de gritar e ameaçar, tentando avaliar o poder de Yoshi para promover e impor tal redução. Ele não é o único a querer isso, os daimios vivem se queixando, e é claro que o Conselho de Anciãos concordaria. Mas o tairo Anjo não permitiria, pois tem de fazer o que queremos. Ogama? Aquele cão arrogante aprovaria a redução, assim como Sanjiro e todos os outros. É melhor Anjo impor sua vontade! Wakura exibiu seu melhor sorriso.

— O príncipe conselheiro pergunta se lhe daria suas opiniões num memorial sobre Satsuma, Choshu e Tosa, em particular o perigo que Satsuma representa, e como, no futuro, a corte pode ajudar o xogunato... e evitar mal-entendidos.

— Eu teria o maior prazer — respondeu Yoshi, animando-se um pouco, pois seria uma oportunidade maravilhosa.

— Por último, tenho a honra de comunicar que o divino chamou-o, como seu convidado pessoal, o xógum Nobusada, alguns daimios, inclusive os de Tosa, Choshu e Satsuma, para o Festival do Solstício de Inverno. Os convites para Tosa e Satsuma já foram enviados, o seu e o de lorde Ogama serão apresentados com a devida cerimônia amanhã, mas eu queria ter o prazer de informá-lo.

Yoshi ficou aturdido, pois era uma honra excepcional para qualquer um fora do círculo íntimo. O solstício era naquele mês — o décimo segundo mês —, no vigésimo segundo dia. Dentro de dezesseis dias. As festividades se prolongariam no mínimo por uma semana, talvez mais. Ele poderia partir depois, haveria tempo suficiente para lidar com Anjo.

Espere! Esqueceu o que diz o legado: Tome cuidado ao acampar no covil do céu. Não é para nós. Somos homens, eles são deuses, e os deuses são como pessoas, ciumentos como as pessoas, e a intimidade gera o desprezo deles. A morte de nossa linhagem agradaria a esses falsos deuses. E isso só pode acontecer em seu covil.

Yoshi experimentou um súbito temor. O convite não podia ser recusado.

— Obrigado — murmurou ele, fazendo uma reverência.

Ao meio-dia, o vigia shishi postado diante do quartel-general de Toranaga observou quarenta samurais e porta-estandartes saírem e descerem pela rua, em direção ao portão leste do palácio. Era a troca de guarda rotineira do meio-dia. A maioria levava lanças, todos tinham duas espadas, mantos de chuva, e os chapéus de palha grandes e cônicos.

O shishi bocejou, ajeitou seu próprio manto nos ombros, quando uma chuva leve começou a cair, deslocou seu banco para baixo do toldo da barraca que vendia talharim, sopa e chá e pertencia a um simpatizante. Ele se encontrava de serviço desde o amanhecer. Tinha dezoito anos, uma barba cerrada. Um ronin de Satsuma.

Antes de deixar Quioto, o líder, Katsumata, ordenara uma vigilância rigorosa aos quartéis-generais de Toranaga e Ogama.