— Sua mente pula como um gato com espinhos nas patas. — Ogama limpou a garganta, ajeitou os joelhos de uma maneira mais confortável. — Talvez eu concorde, talvez não. Isso é muito importante para decidir de imediato. Preciso conversar com Basushiro.
— Não. Converse comigo. Posso lhe dar conselhos melhores, porque sei mais, e também, ainda mais importante, porque neste caso os seus interesses são meus... e não sou um vassalo que tem de procurar por pequenos favores.
— Só os grandes. Como os portões.
Yoshi riu.
— Este é pequeno, em comparação com alguns que vai me conceder, e eu concederei a você, quando se tornar o tairo.
— Então me conceda um favor agora, enquanto ainda não sou: a cabeça de Sanjiro.
Yoshi fitou-o nos olhos, escondendo sua surpresa. Não esquecera o que Inejin, seu espião-estalajadeiro na estrada para o Dente do Dragão, falara a respeito de Ogama e “céu escarlate”. Inejin contara como Ogama, com o apoio de Sanjiro, ou pelo menos sua neutralidade, prevaleceria sobre o xogunato, com a tática histórica da preferência dos daimios, um ataque de surpresa.
— Poderia se contentar com seus ovos? — indagou Yoshi, expondo o plano que vinha depurando há meses.
Ogama desatou a rir.
A guarnição substituída no portão leste voltou para o quartel, quatro homens lado a lado, Yoshi no meio, disfarçado como um infante. Embora tivessem sido avisados de antemão para tratá-lo como tal, os homens tinham dificuldade para não lançar olhares de esguelha ou pedir desculpas ao chegarem muito perto. Um dos soldados era um informante shishi, chamado Wataki. Não tivera a menor oportunidade para alertar sobre aquela excepcional oportunidade para uma emboscada.
Yoshi sentia-se cansado, mas contente. Ogama acabara concordando com tudo, por isso ele podia agora deixar Quioto, com os portões a salvo, nas mãos do xogunato, e o próprio xogunato a salvo.
Por algum tempo... tempo suficiente, pensou ele. Meu jogo é alto, e o plano cheio de buracos, que vão preocupar Ogama, se por acaso os perceber. Mas não importa, tenho certeza que, de qualquer maneira, ele planeja me trair. Era o melhor que eu podia fazer, e deve funcionar. Impossível para mim aceitar o convite imperial.
O dia melhorara agora, o sol disputava com as nuvens a posse do céu. Yoshi mal notou, assim como não prestava atenção ao ambiente, a mente ocupada com todos os detalhes de sua partida, a quem contar, o que fazer em relação a Koiko e ao general Akeda, quem levar em sua companhia, e sua preocupação geraclass="underline" chegaria a tempo de atenuar ao mínimo os danos a Iedo?
Primeiro, um banho e massagem, as decisões depois...
Seus olhos focalizaram, e ele se tornou consciente das ruas, enquanto marchavam, os pedestres, barracas, pôneis, kagas, palanquins, as casas e choupanas, crianças e vendedores de peixe, ambulantes diversos, adivinhos, escribas, toda à movimentação dos mercados. Era uma experiência completamente nova para ele ser um entre muitos, incógnito na coluna, e passou a desfrutar aquela perspectiva tão diferente. Não demorou muito para que se tornasse boquiaberto como alguém do interior com as vistas, sons e cheiros da cidade grande, que nunca vira antes querendo parar, misturar-se à multidão, conhecê-la melhor, saber o que as pessoas pensavam, faziam, comiam, onde dormiam.
— Soldado — sussurrou ele para o jovem ao seu lado —, aonde vai quando está de folga?
— Eu, lorde? — balbuciou o homem, e quase deixou cair a lança, apavorado pelo altíssimo lhe dirigir a palavra, querendo se ajoelhar no mesmo instante. — Eu... eu vou beber, Sire.
— Não me chame de “Sire” — sussurrou Yoshi, surpreso pela súbita confusão causada por sua pergunta em todos os que se encontravam perto, alguns dos quais perderam o passo, e quase saíram de formação. — Aja normalmente... não olhe para mim! Todos vocês!
O soldado desculpou-se, e os outros ao redor tentaram fazer o que ele ordenara, achando quase impossível, agora que lorde Yoshi rompera o encantamento da invisibilidade. O sargento olhou ao redor, retornou apressado.
— Está tudo bem, lorde? Há...
— Está, sim, sargento. Volte a seu posto!
Automaticamente, o sargento fez uma reverência e obedeceu, os soldados retomaram o passo e seguiam adiante... o quartel a menos de cem metros de distância. Para alívio de Yoshi, aquela pequena confusão passou despercebida pela multidão, que se inclinava à passagem da coluna.
Mas foi observada por dois homens mais adiante. Eram o vigia shishi, Izuru e seu substituto, Rushan, um jovem ronin de Tosa, que naquele momento chegara à barraca na rua, não muito longe do portão Toranaga.
— Estou bêbado, Rushan? Um sargento fazendo uma reverência para um infante? Um sargento?
— Eu também vi, Izuru — sussurrou o outro. — Olhe para o soldado. Pode vê-lo agora, o mais alto, quase no final da coluna, veja como ele segura a lança. Não está acostumado a isso.
— Certo, mas... O que há com ele?
— Repare como os outros o observam, furtivamente!
Com crescente excitamento, eles ficaram observando o soldado, enquanto a coluna se aproximava. Embora as armas, o uniforme e todo o resto fossem iguais, havia uma grande diferença inequívoca: no porte, no passo, nas qualidades físicas do homem, por mais que ele tentasse se encolher.
— Lorde Yoshi! — murmuraram os dois ao mesmo tempo.
Rushan acrescentou, no instante seguinte:
— Ele é meu.
— Não, meu — protestou Izuru.
— Eu o vi primeiro! — insistiu Rushan, decidido, tão impaciente que mal conseguia falar.
— Nós dois, juntos, teremos uma chance maior.
— Não. Fale baixo. Um homem de cada vez, foi essa a ordem de Katsumata, e concordamos. Ele é meu. Dê o sinal no momento oportuno.
O coração disparado, Rushan esgueirou-se entre os fregueses e pedestres, a fim de assumir uma melhor posição de ataque.
A nova posição de Rushan era à beira da rua. Um último olhar para situar sua presa. Depois, ele sentou no banco, de costas para a coluna, os olhos no amigo Izuru, absolutamente em paz. Seu poema de morte para os pais estava nas mãos do shoya da aldeia, entregue anos antes, quando ele e dez outros estudantes samurais haviam se rebelado. Eram todos goshi e lhes fora negado o ingresso na escola para instrução superior, porque os pais não tinham recursos para pagar os subornos necessários às autoridades locais. Mataram as autoridades, declararam-se ronin, a favor de sonno-joi, e fugiram.
Dos dez, apenas ele continuava vivo. Muito em breve morreria, pensou, exultante, sabendo que se encontrava preparado, treinado, no auge de sua força, e que Izuru seria sua testemunha.
Izuru tinha o mesmo fervor. Já determinara seu próprio plano de ataque, se Rushan falhasse. Confiante, ele se deslocou para uma posição melhor. Seu olhar desviou-se da patrulha, foi se fixar no portão. Os guardas ali se preparavam para o ritual de inspecionar os outros de volta, na passagem pela barricada. Percebeu no mesmo instante que a atividade era maior, com mais ordens gritadas do que o habitual, os homens mais alertas, mais nervosos.