Выбрать главу

Ele praguejou para si mesmo. Os homens sabem! Claro que sabem, e sabem desde que a coluna partiu! Isso explica por que se mostraram tão irrequietos e irritados durante toda a manhã. Todos sabiam que lorde Yoshi se encontrava lá fora disfarçado. Mas por quê? E onde ele esteve? Ogama! Mas por quê? Planejaram outra emboscada contra nós? Fomos traídos de novo?

Seus olhos se deslocavam de um lado para outro, jamais esquecendo Rushan, avaliando as distâncias e os tempos. Já havia muitas pessoas nas proximidades fazendo a reverência. A qualquer momento o comandante da coluna a faria parar, o oficial no Portão se adiantaria para recebê-lo, ambos fariam uma reverência, juntos inspecionariam os homens que voltavam, que depois seguiriam em frente. O oficial ergueu a mão. A coluna parou. “Agora!”, Izuru quase disse em voz alta, enquanto gesticulava. Rushan viu o sinal e correu para a retaguarda da coluna de vinte metros, a espada comprida empunhada pelas duas mãos.

Ele passou pelos dois primeiros homens, derrubando-os, antes que os samurais sequer compreendessem que estavam sendo atacados, e desferiu um golpe contra Yoshi, que o fitou aturdido por uma fração de segundo. Só o aguçado instinto de Yoshi o levou a arremeter na direção do golpe fatídico, desviando-o para um soldado estupefato ao seu lado, que soltou um grito e caiu.

Gritando “sonno-joi!”, na súbita confusão ao seu redor, Rushan puxou a lâmina, enquanto os outros soldados tentavam abrir espaço, empurrando-se uns aos outros, mais guardas correndo do portão, espectadores por toda parte boquiabertos e paralisados. Wataki, o informante shishi, estava tão surpreso quanto qualquer dos soldados, e apavorado com a perspectiva de ser envolvido ou traído por aquele shishi, que parecia ter surgido do nada.

Wataki viu Rushan golpear de novo, e prendeu a respiração. Mas Yoshi recuperara o equilíbrio, embora ainda não tivesse tido tempo de desembainhar a espada, e por isso usou a haste da lança contra o golpe. A espada de Rushan cortou-a com a maior facilidade, mas a lâmina se desviou, perdeu o impulso, proporcionando a Yoshi apenas o tempo suficiente para se adiantar e segurar o cabo da espada na mão esquerda.

No mesmo instante, Rushan estendeu a mão direita para a espada curta, tirou-a, e desferiu um golpe contra a barriga, uma manobra clássica no combate corpo a corpo. Outra vez Yoshi se achava preparado. Largara a lança, e esticou o antebraço direito contra o pulso de Rushan, desviando a lâmina para seu manto, onde ficou presa. Rushan largou a espada curta, e a mão, agora uma arma mortífera, com dedos que pareciam garras, duros como pedra, as unhas afiadas, avançou para os olhos de Yoshi. As unhas erraram os olhos, mas afundaram logo abaixo.

Yoshi soltou um grito. Um homem menos treinado afrouxaria a pressão no cabo da espada comprida do atacante e logo morreria. Às cegas, ele continuou a segurá-lo, agora com as duas mãos, enquanto o homem se debatia, impotente, agora fora de controle. Isso deu a um soldado por trás de Rushan a abertura para agarrá-lo em torno da garganta, e Wataki, sabendo que a luta estava perdida, apavorado com a possibilidade do shishi ser capturado vivo, enfiou sua espada curta na parte inferior das costas. A força do golpe fez com que a lâmina atravessasse o corpo. Rushan gritou. O sangue saiu pela boca, mas ele continuou a lutar, enquanto a morte o envolvia, até ficar inerte. Mal transcorrera um minuto desde o primeiro ataque.

Embora suas próprias glândulas gerassem o pânico, Yoshi sentiu a vida se esvair do homem. E o súbito peso do corpo contra o seu. Mas não o largou, até ter certeza de que o homem morrera mesmo. Ainda assim, esperou que outras mãos puxassem o cadáver, antes de soltá-lo.

O sangue o cobria. Percebeu num instante que não era seu. A sorte não dissipou sua fúria pela falta de alerta dos homens próximos, que não o cercaram numa rede protetora, deixando-o com o encargo de combater o atacante. Xingou-os, ordenou que toda a patrulha entrasse, ficasse de joelhos, as espadas quebradas, à exceção dos dois que o haviam ajudado. Depois, ofegante, olhou ao redor. A rua movimentada se esvaziara.

Quando os gritos e a escaramuça em torno do solitário atacante foram entendidos e Yoshi se desvencilhara, sendo reconhecido, um murmúrio de espanto passara pela multidão. No mesmo instante, dois ou três se afastaram, desviando os olhos. Outros seguiram o exemplo. O filete cauteloso se transformara numa torrente, ninguém querendo ser mantido como testemunha ou mesmo acusado de cumplicidade.

Izuru foi um dos primeiros a se retirar, ao constatar que não havia qualquer expectativa razoável de êxito num segundo ataque. Rushan se atrapalhara todo no ataque, pensou ele, enquanto seguia pela rua transversal predeterminada, sob a proteção da multidão fugindo do local. O tolo deveria ter cortado a cabeça de um dos dois primeiros, como uma manobra diversionária, e depois, na recuperação, usando a mesma força rápida e brutal para golpear o alvo principal, na altura da cintura. Não haveria a menor probabilidade de Yoshi escapar a um golpe assim. Absolutamente nenhuma. Uma oportunidade excepcional desperdiçada! E quanto a permitir que Yoshi segurasse o cabo da espada, aparando o golpe contra a barriga...

Rushan merecia ser capturado vivo e usado para prática de espada! Espere, talvez tenha sido melhor assim. Se Rushan se mostrara tão inepto em seu supremo duelo, seria bem provável que cedesse sob interrogatório, revelando as casas seguras, as que conhecia. Não se pode confiar no pessoal de Tosa, shishi ou não!

Mas por que Toranaga Yoshi assumira um risco tão grande?

Soaram gritos lá atrás. Soldados perseguiam os retardatários na multidão, a fim de deter algumas testemunhas. Não havia chance de que o pegassem, por isso não precisava se apressar.

A chuva recomeçou. O vento aumentou. Ele aconchegou o manto em torno dos ombros, contente por usá-lo, e também o chapéu. Desceu por uma viela cheia de poças d’água, entrou em outra, atravessou uma ponte, as tábuas escorregadias. Logo se descobriu seguro, num labirinto de ruas pequenas, levando a uma entrada no muro dos fundos de uma enorme residência. O guarda reconheceu-o, deixou-o passar, indicando a casa segura dos shishi, perdida nos vastos jardins. O uniforme do homem exibia a insígnia do lorde camarista Wakura.

Na rua em que ficava o quartel-general de Toranaga, o vendeiro era conduzido para a casa da guarda, protestando aos brados que nada sabia, não era ninguém, e suplicando para que o deixassem ir embora... não ousara desaparecer junto com os outros, pois era bastante conhecido ali. Uns poucos retardatários, apanhados antes de escaparem, eram empurrados atrás dele. O toldo da barraca sacudia ao vento e chuva.

Koiko dava os retoques finais na maquilagem, com a ajuda de um espelho de mão de aço polido. Os dedos tremiam um pouco. Mais uma vez, ela efetuou um esforço consciente para esvaziar a mente e confinar seus medos, por Yoshi e por causa dele, por si mesma e por sua própria causa. As duas outras mulheres, Teko, sua maiko — aprendiz — e Sumomo, observavam atentamente. O quarto era pequeno e funcional, como o resto da suíte, adjacente aos aposentos de Yoshi, o suficiente para ela, quando dormia sozinha, e uma criada. Os outros aposentos, para suas atendentes, ficavam mais adiante.