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Ao terminar, ela contemplou seu reflexo. Não podia detectar linhas de preocupação; quando ensaiou um sorriso, a pele do rosto se contraiu apenas no lugares corretos, os olhos eram brancos onde deveriam ser brancos, escuros onde deveriam ser escuros, sem deixar transparecer coisa alguma de sua profunda ansiedade. Isso a agradou. Teve um vislumbre de Sumomo. Sem saber que era observada, Sumomo exibiu por um momento um rosto aberto. Koiko sentiu o estômago revirar, percebendo conflitos demais ali.

Treinamento, treinamento, treinamento, o que seríamos sem isso, pensou ela, e virou-se para fitá-las. Teko, pouco mais que uma criança, pegou o espelho sem que fosse pedido, ajeitou uma mecha desgarrada no lugar, com extrema habilidade.

— É uma beleza, dama Koiko — murmurou Sumomo, fascinada.

Era a primeira vez que ela tinha permissão para entrar nos aposentos particulares de Koiko. Os segredos do processo de beleza haviam sido uma revelação, além de toda a sua experiência.

— É mesmo — concordou Koiko, pensando que ela se referia ao espelho, a perfeição de sua superfície tornando-o de valor quase inestimável. — E é também um espelho generoso. Poucos o são, Sumomo... é essencial nesta vida que uma mulher tenha um espelho generoso para se contemplar.

— Oh, não! Eu falava de toda a imagem que projeta, não disso — explicou Sumomo, embaraçada. — Do quimono ao penteado, a escolha das cores, como maquila os lábios e sobrancelhas, tudo enfim. Obrigada por me permitir testemunhar.

Koiko riu.

— Espero que com ou sem tudo isso o efeito não seja muito diferente!

— É a pessoa mais linda que já conheci! — exclamou Sumomo.

Em comparação com Koiko, ela sentia-se como uma camponesa, sem qualquer sofisticação, inepta, bovina, toda dedos, cotovelos e pés enormes, pela primeira vez em sua vida consciente da falta de feminilidade. O que meu amado Hiraga pode ver em mim? — perguntou a si mesma, consternada. Não sou nada, desgraciosa, nem mesmo uma Choshu, como ele. Não lhe trago terras, nem prestígio, nem dinheiro, e tenho certeza que, no fundo, seus pais me desaprovam — E provavelmente a mais linda que jamais verei!

E Sumomo pensou: Todas as damas do mundo flutuante são como você? Até mesmo a maiko será deslumbrante quando crescer, embora não como sua ama. Não é de admirar que os homens casem com mulheres como eu só para cuidar de suas casas, gerar seus filhos, porque lhes é fácil demais idolatrar em outras partes, desfrutar a beleza em outras partes.

Com a sinceridade, Koiko percebeu a infelicidade e inveja, que não podiam ser escondidas.

— Você também é bonita, Sumomo — murmurou ela, há muito consciente que causava esse efeito em muitas mulheres. —Teko-chan, pode ir agora, mas prepare tudo para mais tarde... e providencie para que não sejamos incomodadas, Sumomo e eu.

— Pois não, ama.

Teko tinha onze anos. Como acontecera com Koiko, seu contrato fora firmado a mama-san da casa da Glicínia por seus pais camponeses, quando tinha sete nos. Sua vida lucrativa começaria quando estivesse com quatorze ou quinze anos. Até lá, e enquanto a mama-san quisesse, o contrato tornava a mama-san responsável por seu sustento, roupas e treinamento para uma vida no mundo flutuante, e também, se ela demonstrasse aptidão, em suas várias artes: como música, dançarina, poeta ou conversadora, se não mesmo todas elas. Se a maiko provasse ser impossível de ser treinada, ou uma pessoa difícil, a mama-san poderia revender o contrato, a seu critério; mas se a escolha fora sábia, como no caso de Koiko, o considerável desembolso financeiro e risco assumido da mama-san teriam uma retribuição abundante, em dinheiro e reputação. Nem todas as mama-sans eram atenciosas, gentis ou pacientes.

— Saia, agora, e vá praticar suas escalas — disse Koiko.

— Pois não, ama.

Teko sabia que fora abençoada ao ser designada para aprendiz com Koiko, a quem adorava, empenhando-se ao máximo para agradá-la. Ela fez uma reverência perfeita e se retirou, com seu charme irrepreensível.

— Muito bem.

Koiko fitou Sumomo, sentindo apreensivo fascínio por ela, seu olhar direto, o comportamento e a força. Desde que concordara em permitir sua estada, cinco dias antes, quase não houvera oportunidade de conversarem a sós. Agora, chegara o momento. Ela abriu um compartimento mentaclass="underline" Katsumata.

Ah, meu amigo, o que fez comigo?

Ele a abordara durante sua visita à mama-san de Quioto, que por instigação de Meikin, sua própria mama-san em Iedo, providenciara criadas, cabeleireira, massagistas, durante sua permanência na cidade. Só Teko e uma criada vieram com ela de Iedo.

— Peço um favor por uma vida inteira — dissera Katsumata.

— Não deve! — protestara ela, chocada ao vê-lo, chocada por saber que ele a deixaria em perigo por aquele encontro clandestino, e chocada por Katsumata lhe pedir um favor que teria, sem dúvida, terríveis conseqüências. Uma vez concedido, nenhum outro favor jamais poderia ser pedido à mesma pessoa, pois a dívida inerente seria enorme. — Concordamos, quando lorde Toranaga Yoshi me acolheu, que todos os contatos pessoais entre nós deveriam cessar, exceto numa emergência.

— É por isso que lhe peço o favor de uma vida inteira.

Sete anos atrás, em Iedo, quando ela tinha quinze anos, Katsumata fora seu primeiro cliente. Logo se tomara muito mais: amigo, guru e mestre extraordinário. Abrira seus olhos para o mundo, para a importância do mundo real, assim com o mundo flutuante. Ao longo dos anos, Katsumata lhe ensinara a cerimônia do chá, a arte do debate, caligrafia, sobre poesia e os significados profusos da literatura política, relatara suas idéias e planos para o futuro, como aquele seu pequeno bando de acólitos samurais dominaria toda a terra, mostrara como havia um lugar vital para ela no quebra-cabeça chamado sonno-joi.

— Como cortesã de suprema classe, você se tornará a confidente de poderosos e como a esposa de um deles, pois assim casará, não se preocupe, terá filhos samurais, será indispensável para o novo futuro, com uma parcela do poder. Nunca se esqueça disso!

Meikin, sua mama-san, era partidária; assim, naturalmente, ela concordara, a imaginação devorada por sua bravura, coragem e seu grupo de shishi, o início de sua fortuna.

— Nossa sorte acabou — dissera ele e relatara a emboscada da noite anterior, sua fuga com mais duas pessoas. — Fomos traídos... não sei por quem, mas temos de nos dispersar... por enquanto.

— As cabeças de quarenta shishi espetadas em chuços? —sussurrara ela, transtornada.

— Isso mesmo, quarenta. E quase todos eram líderes. Só três escapamos, outro shishi, e uma moça... uma pupila minha. Preste atenção, Koiko-chan, pois não há muito tempo. O favor de uma vida inteira que quero lhe pedir é guardar essa moça, enquanto permanecer em Quioto, abrigá-la em sua casa, até mesmo levá-la de volta a Iedo, e...