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— Por mais que eu quisesse, sinto muito, seria difícil demais já que o general Akeda é muito rigoroso com as pessoas. Trataria de interrogá-la pessoalmente... foi o que fez com todas as minhas ajudantes.

Koiko falara com o máximo de gentileza que podia, embora por dentro se sentisse horrorizada por ele ousar lhe fazer uma sugestão tão perigosa, a de acolher uma fugitiva shishi, mesmo que inocente.

— Claro que será difícil, mas tenho certeza de que você poderá arrumar tudo sem que ele a veja.

— Não creio que seja possível e temos de pensar também em lorde Yoshi.

Ela deixara esse problema adicional no ar, torcendo frenética para que ele retirasse o pedido de favor. Mas Katsumata insistira, suave, observando-a com seus olhos penetrantes e compulsivos, explicando que Sumomo ficaria segura com Koiko, que era samurai, noiva de um importante shishi, merecia toda confiança.

— Sinto muito, mas tenho de lhe pedir isso, por sonno-joi. Ela é de confiança. E se houver algum problema, mande-a embora. Ela fará qualquer tarefa que mandar... Agora tenho de ir, Koiko-chan. Um favor de uma vida inteira, para um velho amigo.

— Espere. Se... Terei de consultar o general Akeda, mas mesmo que possa evita-lo, devo consultar o resto do meu pessoal. E o que lhes direi? Não conheço essas pessoas de Quioto, não sei como elas são.

—A mama-san garante que merecem toda confiança — dissera Katsumata, com plena convicção. — Falei com ela, e obtive sua aprovação, Koiko, caso contrário não faria a sugestão. Diga a verdade, que Sumomo é uma moça voluntariosa, e que seu guardião... um velho cliente... quer reprimi-la, treiná-la nas úteis artes femininas. Não posso levá-la comigo e quero deixá-la protegida aqui. Tenho uma obrigação com seu noivo. Ela obedecerá a você em tudo.

Koiko estremeceu ao pensar no perigo a que se expunha, e também as pessoas pelas quais era responsável, Teko e suas atendentes, quatro criadas, uma cabeleireira e uma massagista. Felizmente, todas haviam concordado em aceitar aquela estranha e em ajudar a mudar seus hábitos... e o interrogatório de Akeda não descobrira qualquer falha.

Ah, Katsumata, pensou ela, você sabia que eu nada podia lhe recusar. É curioso com que rapidez você foi além de precisar de meu corpo, por uns poucos meses, querendo em vez disso possuir e expandir minha mente. Ainda estou presa por argolas de ferro, tenho uma dívida profunda. Sem você e o conhecimento que me proporcionou, eu não me encontraria no pináculo que alcancei agora... capaz de enganar o maior homem da terra.

— Sente-se, Sumomo. Dispomos de um pouco de tempo agora, antes de eu sair. Ninguém poderá nos ouvir aqui.

— Obrigada.

— Minhas atendentes estão preocupadas com você.

— Por favor, desculpe-me se não tenho sido correta.

Koiko sorriu.

— As criadas indagam se você tem uma língua na cabeça, todas concordam que sua cortesia precisa melhorar, e podem compreender um guardião querendo que mude.

— Preciso mesmo melhorar — murmurou Sumomo, sorrindo também.

Os olhos de Koiko se contraíram. A jovem à sua frente não era desgraciosa, tinha um corpo esguio e forte, o rosto sem maquilagem, o viço da juventude e saúde compensando essa deficiência. Seus cabelos são bons, mas precisam ser arrumados, refletiu ela, crítica. O estilo de Quioto lhe seria conveniente, com bons óleos nas mãos e braços, um pouco de sombra nas faces, um toque de cor nos lábios. A moça promete. Devemos nos banhar juntas, e assim saberei mais, embora duvide que ela possa se adaptar à nossa vida, mesmo que assim quisesse.

— Você é virgem, não é?

A moça corou, soltou uma risada contrafeita.

— Ah, sinto muito, claro que é. Por um momento, esqueci que não pertence ao nosso mundo. Por favor, desculpe, mas é raro para nós conhecermos forasteiras, ainda menos uma dama samurai, e ter uma em nossa casa, mesmo que por um curto período, é quase desconhecido.

— É assim que nos chamam, forasteiras?

— É, sim. Nosso mundo flutuante nos mantém apartadas. Veja a pequena Teko. Muito em breve sua outra vida terá desaparecido e ela só conhecerá a minha. É esse meu dever, treiná-la, mantê-la gentil e generosa, disposta a se sacrificar pelo prazer do homem... não por seu impulso. — Os olhos de Koiko adquiriram um súbito brilho. — É isso o que mantém os homens felizes e contentes, o prazer em todas as suas manifestações, neh?

— Sinto muito, mas não compreendo essas “manifestações”.

— Querem dizer “aparências ou qualidades” para demonstrar prazer em todos os seus graus.

— Ah, obrigado — disse Sumomo, impressionada. — Por favor, desculpe-me. Nunca imaginei que as damas do mundo flutuante eram tão... claro que presumia que eram bonitas, mas nunca tão belas quanto você. Também nunca pensei que pudessem ser tão instruídas e consumadas.

Nos poucos dias que já passara ali, ouvira Koiko cantar, tocar o samisen, e se sentira inspirada pela qualidade incomparável e seu repertório... ela também podia tocar o samisen, apenas um pouco, e sabia como era difícil. Ouvira-a ensinar a Teko a arte do haiku e outras poesias, como refinar uma frase, sobre sedas, como são produzidas, a urdidura, a trama e outros mistérios, os primórdios da história e maravilhas similares, um vasto âmbito de conhecimentos. Sumomo fez uma reverência, em tributo.

— Quero que saiba que me espanta, dama.

Koiko riu suavemente.

— Aprender é a parte mais importante de nosso trabalho. É fácil satisfazer o corpo de um homem... um prazer transitório... mas é difícil agradá-lo por um prazo mais prolongado, envolvê-lo, conservar seu favor. Isso deve vir através dos sentidos da mente. Para consegui-lo, é preciso treinar com extremo cuidado. Você deve começar a fazer isso também.

— “Quando há flores de cerejeira para admirar, quem olharia para pontas de cenoura?

— Quando um homem está faminto, procura cenouras, não flores de cerejeira, e ele se mostra faminto a maior parte do tempo.

Koiko esperou, divertida. Viu Sumomo baixar os olhos, desorientada.

— Cenoura é comida de camponês, dama — murmurou ela, num fio de voz. — Sinto muito.

— Cerejas são um gosto adquirido, assim como suas flores. As cenouras podem oferecer muitos sabores, se tratadas da forma apropriada.

Mais uma vez ela esperou, mas Sumomo continuou de olhos baixos.

— Não em enigmas, para não deixá-la confusa. Não é sexo que os homens realmente procuram em meu mundo, mas romance... nosso fruto mais proibido.

Sumomo ficou surpresa.

— É mesmo?

— É, sim, para nós. Um fruto venenoso. Os homens procuram romance em seu mundo também, a maioria, e não é proibido para você, não é?