— Não.
— Seu futuro marido não é diferente, também procura romance, onde quer que esteja disponível. É melhor oferecer-lhe isso em casa, o máximo que puder, por tanto tempo quanto puder. — Koiko sorriu. — Assim, poderá ter cerejeiras e também boas cenouras. Os temperos podem ser adquiridos com a maior facilidade.
— Pois então me ensine, por favor.
— Fale- sobre esse homem, seu futuro marido.
— O nome dele é Oda, Rokan Oda — respondeu Sumomo, usando o nome de cobertura que Katsumata lhe fornecera. — O pai é um goshi... e ele vem de Kanagawa, em Satsuma.
— E seu próprio pai?
— É como eu disse, dama. Ele é da linhagem Fujahito. — Sumomo usava o seu novo nome de cobertura. — É de uma aldeia próxima e também goshi.
— Seu guardião diz que Rokan Oda é importante.
— Ele é muito generoso, dama, embora Oda-sama seja um shishi e tenha participado do ataque a lorde Anjo, nos portões de Iedo, e também matado o velho Utani.
Katsumata lhe dissera que seria melhor contar a verdade sempre que possível, pois assim haveria menos mentiras a recordar.
— Onde ele está agora?
— Em Iedo, dama.
— Quanto tempo quer ficar comigo?
— Por mim, dama, tanto tempo quanto puder. Meu guardião disse que Quioto era um lugar perigoso para mim. Não posso voltar para casa, porque meu pai desaprova o que faço, assim como os pais de Oda-sama o desaprovam, por minha causa.
Koiko franziu o rosto.
— Isso tornará a vida impossível.
— É verdade. Karma é karma, e o que tiver de ser será. Apesar de eu não ser de valor para ninguém, e creio que desconhecida para o Bakufu, sensei Katsumata aprova meu Oda-sama e aceitou a responsabilidade. Ele disse que devo lhe obedecer em todas as coisas.
— Melhor seria obedecer a seus pais, Sumomo.
— Sei disso, mas meu Oda-sama proibiu.
Uma boa resposta, pensou Koiko, vendo o orgulho e a convicção. Triste, ela olhou pela janela entreaberta. Aquele romance proibido acabaria com certeza como tantos outros. Em suicídio. Juntos, se Sumomo fosse abençoada. Ou ela sozinha, quando aquele Oda obedecesse a seus pais, como deveria, e tomasse uma esposa aceitável.
Ela suspirou. No jardim, o crepúsculo transformava-se em noite. Uma suave brisa.
— As folhas sussurram umas para as outras. O que estão dizendo?
Sumomo disfarçou sua surpresa, prestou atenção e disse, depois de um momento:
— Sinto muito, mas não sei.
— Fique escutando durante a minha ausência. É importante saber o que as folhas sussurram. Passará esta noite aqui, Sumomo. Talvez eu volte, talvez não Se eu voltar, conversaremos mais um pouco e você me dirá. Se eu não voltar continuaremos a conversa amanhã, e poderá então me dizer. Quando Teko voltar para arrumar os futons, diga a ela que quero que vocês duas façam um haiku. — Koiko pensou por um instante, depois sorriu. — Um haiku sobre uma lesma.
— Olá, Koiko — murmurou Yoshi, apático.
Ele estava de costas para a parede, a mão perto da espada, numa yukata púrpura de seda. Por fora, parecia calmo, mas Koiko percebeu que ele se sentia solitário, assustado, precisando de outras habilidades.
Seu sorriso daria para iluminar o dia mais tenebroso. No mesmo instante, ela viu os olhos de Yoshi abrandarem. Muito bem, o primeiro obstáculo.
— Tenho um poema para você — anunciou ela, com um ar solene, simulado.
Não é fácil
Ter certeza
Que ponta é o que
De uma lesma em repouso!
A risada de Yoshi ressoou pelo aposento. Muito bem, o segundo obstáculo.
— Estou satisfeita por ter me permitido vir para Quioto em sua companhia.
Os olhos de Yoshi assumiram um certo brilho, e ela se animou. Instintivamente, mudou o que ia dizer, que ele era muito bonito nas luzes bruxuleantes da noite. Em vez disso, murmurou o que havia em seu íntimo:
Foram tristes tempos
Quando, sem você,
Contemplei os dias subirem
Para descerem de novo.
Koiko ajoelhara-se à sua frente e ele se inclinou, pegou sua mão. Não havia necessidade de palavras. Para nenhum dos dois. Agora Yoshi sentia-se em paz, a tensão desaparecida, a solidão esquecida, junto com o medo. E Koiko também se sentia em paz. Tanta energia dispensada para tirá-lo de si mesmo. Tanta coisa revelada. Era uma insensatez revelar demais.
Você é muito importante para mim, ele estava dizendo, sem falar, usando a linguagem dos amantes.
E você me concede uma grande honra, respondeu Koiko, um ligeiro franzido na testa. Seus dedos acariciam o dorso da mão de Yoshi, delicados, dizendo eu amo você.
Olhos se encontraram. Ela ergueu a mão de Yoshi, roçou os lábios. O silêncio os envolvia, começou a se tornar opressivo. Num súbito movimento, Koiko foi para o lado dele, abraçou-o com força. Sua risada foi melodiosa.
— Estamos sérios demais para mim, Tora-chan! — Ela abraçou-o de novo, aninhou-se em seu peito. — Você me faz muito feliz.
— Não mais do que eu — murmurou Yoshi, contente porque a tensão se dissipara.— Você é adorada, assim como seus poemas.
— Aquele sobre a lesma era de Kyorai.
Ele riu.
— É de Koiko, o Lírio! É, não era.
Ela se aconchegou ainda mais, apreciando seu calor e força.
— Quase morri quando soube do que aconteceu esta manhã.
— Vida — disse ele. — Eu deveria estar mais alerta, mas me sentia fascinado pela rua.
Yoshi contou como tudo lhe parecera diferente.
— Foi uma experiência excepcional... a sensação de invisibilidade... boa demais para não experimentá-la de novo, por maior que seja o perigo. O perigo acrescenta um tempero? Experimentarei de novo em Iedo. Será mais fácil à noite; treinarei guardas especiais para me acompanharem.
— Por favor, desculpe, mas sugiro que tenha um certo comedimento no consumo dessa droga.
— É o que pretendo. — Os braços de Yoshi a apertaram, ambos se sentindo confortáveis. — Mas pode muito bem se desenvolver num vício.
Yoshi dormia no cômodo ao lado. Como todo o complexo de alojamentos, os aposentos eram masculinos, com um mínimo de móveis, o tatame de primeira qualidade, mas precisando ser trocado. Não terei nenhum desagrado ao sair daqui, pensou ele. Seus ouvidos captaram o som de passos se aproximando, e a mão deslocou-se para o cabo da espada. Os dois ficaram tensos.