— Sire? — disse uma voz abafada.
— O que é? — perguntou Yoshi.
— Sinto muito incomodá-lo, Sire, mas acaba de chegar uma carta do Dente do Dragão.
Sem precisar que lhe fosse pedido, Koiko foi para o lado da porta, fora do caminho, e ali se manteve, de guarda. Yoshi aprontou-se.
— Abra a porta, sentinela — ordenou ele.
A porta foi aberta. O homem hesitou, vendo Yoshi numa posição de defesa-ataque, a espada solta na bainha.
— Entregue o pergaminho à dama Koiko.
O homem obedeceu e se retirou em seguida. Depois que ele chegou ao final do corredor e passou pela porta que havia ali, Koiko fechou a porta do aposento. Foi entregar o pergaminho a Yoshi e ajoelhou-se na sua frente. Ele rompeu o lacre. A carta da esposa indagava por sua saúde, comunicava que os filhos e o resto da família passavam bem e aguardavam ansiosos por seu retorno. Depois, as informações começavam:
Os garimpeiros estiveram viajando diligentes, acompanhados por seu vassalo Misamoto. Ainda não encontraram ouro, mas informam a existência de grandes — a palavra que usaram foi “imensos”— depósitos de carvão de alta qualidade, fácil de extrair, próximo à superfície. Soube que eles dizem que isso é o “ouro negro” e poderia ser lucrativamente negociado com os gai-jin por dinheiro. Eles continuam a procurar. Recebemos a notícia de que Anjo foi feito tairo, e se gaba de que você será em breve convidado a se retirar do Conselho de Anciãos. Próximo assunto, o confidente que você visitou a caminho de Quioto diz o seguinte: a palavra de código que ele lhe deu a respeito de um inimigo é correta, e que há um plano similar pronto, como a política de estado do inimigo.
Céu Escarlate. Portanto, um ataque-relâmpago é “Política de Estado”! Meu acordo com Ogama será mantido?
Ele pôs essa questão de lado, para analisá-la mais tarde, e continuou a ler:
O ronin, Ori, que se tornou um espião gai-jin, morreu no acampamento gai-jin. Acredita-se que o outro ronin, Hiraga, também se encontre ali. Seu espião diz também que interceptou a “criada” que você mandou de volta, como ordenado, e despachou-a para o norte, para um bordel muito pobre. O amante ronin dela foi morto.
Yoshi sorriu. Era a criada de Koiko que sussurrara sobre o encontro secreto de Utani para seu ronin shishi. No meio do caminho para Quioto, ele a dispensara, mandando-a de volta a Iedo, por causa de uma desconsideração imaginária... e é claro que Koiko não fizera qualquer objeção. Ótimo, pensou ele. Utani está vingado, mesmo que em pequena escala.
Próximo assunto, a Gyokoyama: Concluí as negociações de dinheiro. Posso usar a possibilidade de carvão como uma garantia adicional para quaisquer armamentos encomendados? Talvez devêssemos tentar negociar com os gai-jin diretamente, talvez usando Misamoto? Por favor, dê-me seu conselho. Sire, sinto muita falta de sua presença e sábios conselhos. Por último, sinto muito, mas a escassez de víveres começou.
Yoshi releu a carta. Conhecendo Hosaki muito bem, sabia que a maneira como ela usara “garantia adicional” significava que a negociação fora difícil e o preço alto. Não importa, no próximo ano não haverá escassez, e a Gyokoyama, se eles continuarem a viver por tanto tempo nas terras que controlo, será paga.
Ele olhou para Koiko. Ela tinha o olhar perdido no espaço, mergulhada em sonhos que Yoshi sabia que nunca poderia partilhar.
— Koiko?
— Ah... Pois não, Sire?
— Em que está pensando?
— O que as folhas sussurram para as folhas.
Intrigado, ele comentou:
— Depende da árvore.
Ela sorriu, um doce sorriso.
— Um bordo, um bordo vermelho.
— Em que época?
— No nono mês.
— Se estiverem observando, sussurram: “Em breve tombaremos para nunca mais voltar. Mas eles são abençoados. Crescem na árvore da vida. O sangue deles é o nosso sangue.”
Koiko bateu palmas, sorrindo.
— Perfeito! E se fosse um pinheiro, na primavera?
— Não agora, Koiko-chan. Mais tarde.
Percebendo a súbita seriedade, ela também ficou séria.
— Más notícias, Sire?
— Não e sim. Partirei ao amanhecer.
— Para o Dente do Dragão?
Ele hesitou e Koiko especulou se cometera um erro ao perguntar, mas Yoshi pensava no que fazer com ela. Antes, avaliando a necessidade de outra marcha forçada, decidira seguir à frente e ela iria atrás, o mais depressa que pudesse. Agora, contemplando-a, não queria que Koiko ficasse longe. Seu palanquim os atrasaria. Ela sabia cavalgar, embora não muito bem, e a viagem seria árdua. De qualquer forma, o plano que combinara com Akeda persistiria:
— A primeira coluna de quarenta homens, com um duble usando uma das minhas armaduras leves, parte pouco antes do amanhecer, e segue sem pressa, de uma maneira óbvia, para a estrada do Norte. No meio do caminho para Iedo, fará a volta, retornando para cá, meu duble desaparecendo. A segunda coluna, a minha, com os homens que trouxe de Iedo, partirá pouco depois da primeira, e seguirá depressa para a Tokaidô. Marcha forçada, sob o comando do mesmo capitão. Estarei disfarçado como um samurai de cavalaria comum, e assim permanecerei, até me encontrar são e salvo no castelo em Iedo.
— Muito perigoso, Sire — protestara o general Akeda.
— Também acho. Você ficará vigiando Ogama. Será vantajoso para ele se eu conseguir controlar Anjo.
— Tem razão. Mas é um alvo irresistível lá fora e bem fácil. Veja o que aconteceu hoje. Deixe-me acompanhá-lo.
— Impossível. Se Ogama decidir desfechar sua ofensiva, atacará primeiro aqui... é melhor esperar por isso. Deve repeli-lo a qualquer custo.
— Não falharei, Sire — garantira o velho general.
E eu não falharei no empenho de alcançar Iedo, pensou Yoshi, com igual confiança. Quanto ao ataque, só faz me lembrar que não foi o primeiro e não será o último.
Ele constatou que Koiko o observava. É mais fácil ser equilibrado quando ela está perto de mim. A luz do lampião faiscava em seus lábios e olhos, ele admirou a curva das faces, a coluna do pescoço, os cabelos pretos, as dobras impecáveis do quimono, deixando à mostra um pouco de sua pele alva. Curvas suaves, a postura perfeita, as mãos, como flores, pousadas no colo de seda azul.
Ela teria de viajar sem bagagem. E sem criadas. Teria de se contentar com que pudesse encontrar nas sucessivas estalagens. O que a desagradaria, pois ela gosta de perfeição. Talvez rejeite essa desconsideração e o que seria para ela uma pressa desnecessária. Yoshi recordou a primeira vez que sugerira isso.