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— O que está acontecendo aqui? Você está preso!

— Abram logo essa barreira!

— Você está preso!

Abeh contornou a barreira e ninguém podia se equivocar quanto ao perigo.

— Abram a barreira, depressa!

Guardas correram para obedecer, mas o oficial ainda insistiu:

— Quero ver os documentos de identidade, e...

— Escute aqui, seu macaco! — O capitão Abeh foi até o oficial, que ficou paralisado. — Visitantes importantes exigem boas maneiras, sem nenhum atraso numa noite fria, e ainda nem é o pôr-do-sol.

Com isso, ele desferiu um golpe no lado da cabeça do oficial, que cambaleou, para logo ser derrubado com um segundo golpe violento. Para os estupefatos guardas, Abeh acrescentou:

— Digam a esse tolo para se apresentar a mim ao amanhecer, ou vou usá-lo para prática de espada, assim como ao resto de vocês!

Ele acenou para que o cortejo passasse pela barreira, depois tornou a montar, e foi atrás. Poucos minutos mais tarde, já providenciara os melhores aposentos, na melhor estalagem. As pessoas para as quais estavam reservados fizeram reverências enquanto fugiam, gratas pelo privilégio de desocupá-los... ricos mercadores, outros samurais, nenhum dos quais disposto a uma briga até a morte, que seria inevitável se resistissem.

Yoshi tirou o chapéu e o lenço depois que as portas de shoji foram fechadas. O rotundo proprietário da estalagem dos Sonhos Agradáveis se encontrava de joelhos ao lado da porta, cabeça inclinada, esperando por ordens. Sua mente ressoava com imprecações por não ter sido avisado antes para a chegada daqueles retardatários, que iam perturbar sua tranqüilidade... quem quer que fossem. Não reconhecera ninguém e achava estranho que não exibissem estandartes, vestissem uniformes e símbolos simples do Bakufu, e não usassem nomes. Já percebera que até mesmo aquele samurai, agora tratado com tanto respeito em particular pelo infame capitão, recebendo seus aposentos mais caros, não era tratado pelo nome, nem pelo posto. E quem seriam as duas mulheres? A esposa e criada de um daimio? Ou apenas duas prostitutas de alta classe? A notícia da chegada do grupo espalhara-se depressa pela estalagem. O estalajadeiro já oferecera uma recompensa à criada que descobrisse a identidade deles.

— Seu nome, estalajadeiro? — perguntou Yoshi.

— Ichi-jo, Sire.

Ele achou que “Sire” era o título mais seguro.

— Primeiro um banho, depois massagem, a comida em seguida.

— Pois não, Sire. Posso ter a honra de lhe mostrar o caminho pessoalmente?

— Mande uma criada para cuidar disso. Comerei aqui. Obrigado. Pode ir agora.

O homem fez uma reverência untuosa, levantou-se e afastou-se bamboleando.

O capitão Abeh confirmou as disposições de segurança: sentinelas cercariam o bangalô de oito cômodos. Os aposentos de Koiko davam para a varanda, que seria vigiada durante todo o tempo. Entre seus aposentos e os de Yoshi, haveria um cômodo com mais dois guardas.

— Está certo, capitão. E agora vá dormir um pouco.

— Obrigado, mas não me sinto cansado, senhor.

Yoshi ordenara que o tratassem como um goshi comum, exceto em particular, quando o tratariam apenas como “senhor”.

— Mas terá de dormir. Preciso de você alerta. Ainda teremos muitos dias de viagem.

Yoshi percebeu um súbito brilho no fundo dos olhos injetados de fadiga do jovem e indagou:

— Oque é?

Apreensivo, Abeh murmurou:

— Desculpe, por favor, mas se é urgente a viagem para Iedo, seria mais seguro se fosse escoltado à frente da dama.

— Vá dormir — reiterou Yoshi. — Homens cansados cometem erros. Foi também um erro agredir o oficial. O guarda já era suficiente.

Ele dispensou o homem. Abeh fez uma reverência e se retirou, criticando a si mesmo pela estupidez de dizer uma coisa tão óbvia. Por três vezes ele fizera paradas desnecessárias naquele dia e duas no anterior. Foi verificar todas as sentinelas, seguiu para seu quarto e deitou-se. Em poucos momentos, mergulhou em profundo sono.

Depois do banho e da massagem, depois da comida, ingerida devagar, embora estivesse faminto, Yoshi saiu para o corredor. A decisão de trazer Koiko fora fácil. Ocorrera-lhe que ela seria um chamariz perfeito e dissera a Akeda para cuidar que todos soubessem que apenas a enviava sob escolta para Iedo, enquanto ele seguia separado.

— Perfeito! — concordara Akeda.

Ele entrou no cômodo exterior. Estava vazio, a porta de shoji fechada.

— Koiko? — chamou Yoshi, acomodando-se em uma das duas almofadas. A porta de shoji foi aberta. Sumomo se encontrava ajoelhada ali, segurando-a para Koiko, os olhos no tatame, os cabelos levantados, ao estilo de Quioto, as sobrancelhas depiladas, um pouco de maquilagem nos lábios. Uma melhoria agradável, pensou ele.

No momento em que o viu, Koiko também se ajoelhou, e as duas fizeram uma reverência ao mesmo tempo. Yoshi notou que a de Sumomo era perfeita, com a mesma graciosidade de Koiko, e isso também o agradou. Não havia qualquer sinal de que a viagem árdua afetara Sumomo. Ele retribuiu a saudação. As camas de futon já haviam sido arrumadas.

Koiko passou para o outro cômodo, sorrindo, e Sumomo fechou a porta de shoji.

— Como se sente, Tora-chan?

A voz de Koiko era doce, como sempre, o penteado perfeito, mas o quimono era o mesmo da noite anterior, o que jamais acontecera antes. Apreensivo, Yoshi notou um certo desconforto, quando ela se instalou na outra almofada.

— A viagem está sendo difícil demais para você?

— Os primeiros dias não podiam deixar de ser um pouco árduos, mas logo estarei tão resistente quanto... — Havia um brilho divertido nos olhos de Koiko. —... quanto Domu-Gozen.

Ele sorriu, mas sabia que cometera um erro de julgamento. Três estações de posta haviam sido cobertas no dia anterior, e o mesmo hoje, mas em nenhum dos dias fora percorrida a distância que ele desejava. A viagem a extenuava. Cometi um erro que não deveria ter ocorrido. Ela nunca vai se queixar, irá além de seu limite, pode até se prejudicar.

Preciso de tanta pressa? Claro que sim. Ela estará segura num palanquim, com uma escolta de dez homens? Com toda certeza. Seria sensato reduzir minha guarda em tantos homens? Não. Poderia chamar mais homens de Iedo esta noite, mas isso me custaria cinco ou seis dias. O instinto me diz que devo me apressar, os gai-jin são imprevisíveis. Anjo também, e até Ogama... que ameaçou: “Se você não cuidar deles, eu cuidarei.”

— Koiko-chan, vamos para a cama. Amanhã é amanhã.

De madrugada, Sumomo ficou deitada nos futons quentes, debaixo de cobertas, no quarto externo, um braço sob a cabeça, sonolenta, mas não cansada, e tranqüila.