A respiração de Yoshi era irregular, a de Koiko quase imperceptível. Ela podia ouvir os sons da noite lá fora. Um cachorro latindo em algum lugar, insetos noturnos, o vento na folhagem, um guarda murmurando para outro de vez em quando, o barulho de pratos e panelas na cozinha, onde o pessoal começava a trabalhar ainda cedo.
Seu primeiro sono fora ótimo. Os dois dias de exercícios vigorosos e liberdade haviam-na deixado vibrante. E também sentia-se satisfeita com os elogios de Koiko pela maneira como arrumara os cabelos naquela noite —ensinada por Teko — e acrescentara um pouco de cor aos lábios.
Tudo estava dando certo, melhor do que ela sonhara. Seu objetivo imediato fora alcançado. Fora aceita. E se encontrava a caminho de Iedo. Ao encontro de Hiraga. Integrava a comitiva de Yoshi e se mantinha contida. Katsumata lhe dissera:
— Não seja impetuosa. Não assuma nenhum risco, em qualquer circunstância, a menos que haja uma possibilidade de escapar. Perto dele, você é de grande valor. Não arruíne isso, nem envolva Koiko.
— Ela nada saberá a meu respeito?
— Apenas o que eu disse a ela, o mesmo que você sabe.
— O que significa que ela já está envolvida, não é? Falo isso porque o seu Yoshi pode me aceitar.
— Ele é que tomará a decisão, não ela. Seja como for, Sumomo, ela não é sua cúmplice. Se descobrisse suas verdadeiras ligações, em particular com Hiraga, e seus possíveis propósitos, trataria de detê-la... nem poderia agir de outra forma.
— Possíveis propósitos? Por favor, qual é o meu dever principal?
— Estar pronta. Melhor uma espada à espera do que um cadáver.
Não tenho espada, pensou Sumomo. Talvez pudesse tirar uma de um guarda, se conseguisse pegá-lo de surpresa. Tenho três shuriken, com veneno nas pontas, escondidos no fardo ao meu lado, sem falar na faca na obi, que sempre levo para toda parte. Mais do que suficiente, num ataque de surpresa. A vida é mesmo muito estranha. É estranho que eu prefira estar sozinha, com minha própria missão... tão diferente de nossa vida normal, sempre integrando uma unidade, todos pensando como uma só pessoa, concordando como uma só pessoa, em nossa cultura de consenso. Eu gostava de integrar uma unidade de shishi, mas... mas, para ser honesta...
— Seja sempre honesta com você mesma, Sumomo-chan — dissera-lhe o pai, muitas e muitas vezes. — É esse o seu caminho para o futuro, para se tornar uma líder.
Para ser honesta, descubro ser difícil reprimir meu impulso para conduzi-los até mesmo aos shishi, para fazer com que sigam o caminho correto, assumam o pensamento certo.
Será meu karma liderar? Ou morrer irrealizada, porque é uma autêntica estupidez uma mulher desejar ser líder no mundo do Nipão. É estranho querer o impossível. Por que sou assim, não como as outras mulheres? É porque o pai não teve filhos, e tratou a nós, as filhas, como filhos, dizendo-nos que devíamos ser fortes, manter a cabeça erguida, e nunca ter medo, até mesmo me permitindo contra o conselho da mãe, seguir Hiraga e sua estrela, também impossível...
Ela sentou nos futons por um momento, ajeitando os cabelos, para tentar desanuviar a cabeça, e evitar que a mente se turvasse com tantos pensamentos novos e incontroláveis. Tornou a deitar. Mas o sono não veio, apenas permutações de Hiraga, Koiko, Yoshi, Katsumata, ela própria. Muito estranho, sobre Yoshi.
— Devemos matá-lo e ao xógum — dissera Katsumata, ao longo dos anos, muitas e muitas vezes, suas palavras reiteradas por Hiraga. — Não por eles próprios, mas pelo que representam. O poder nunca voltará para o imperador enquanto eles permanecerem vivos. Por isso eles devem ser eliminados, principalmente Yoshi... ele é a cola que segura o xogunato. Sonno-joi é nosso farol, qualquer sacrifício deve ser feito para alcançá-lo!
Uma pena matar lorde Toranaga. Outra pena ele ser um bom homem, não vil, ao contrário de Anjo, embora eu nunca o tenha visto. Talvez Anjo seja também um homem gentil e tudo o que se diz a seu respeito não passe de mentiras de tolos invejosos.
Neste curto período, tenho visto Yoshi como ele é: dinâmico, gentil, forte, sábio e impetuoso. E Koiko? Ela é maravilhosa e me parece muito triste que esteja condenada. Lembre-se do que ela disse:
— A maldição de nosso mundo é que, por mais que nos condicionemos e sejamos treinadas para adquirir todas as defesas, adquirir a determinação de tratar um cliente apenas como um cliente, de vez em quando sempre aparece alguém que transforma sua cabeça em geléia, sua força de vontade em espuma e sua virilha numa bola de fogo. Quando isso acontece, é terrível, de uma forma assustadora e gloriosa. Você fica perdida, Sumomo. Se os deuses a favorecem, os dois morrem juntos. Ou você morre quando ele vai embora ou se permite continuar viva, embora esteja morta por dentro.
— Não permitirei que isso aconteça quando eu crescer — declarara Teko, ouvindo a conversa. — Não comigo. Já teve sua cabeça transformada em geléia, ama?
Koiko rira.
— Muitas vezes, criança, e esqueceu uma de suas lições mais importantes: fechar os ouvidos quando outras pessoas estiverem conversando. Vá se deitar agora.
Será que a cabeça de Koiko virou mesmo geléia? Claro.
Como uma mulher, sei que ela considera lorde Yoshi mais do que um cliente, apesar de ela tentar escondê-lo. Como vai terminar? É triste, muito triste. Ele nunca a fará sua consorte.
E eu? O mesmo acontecerá comigo? Acho que sim — o que eu disse a lorde Yoshi era a verdade: não terei outro marido que não seja Hiraga.
— É a verdade... — murmurou ela, o que a levou por uma espiral descendente — Pare com isso!
E tratou de seguir o método da infância, quando a mãe sempre arrulhava:
— Pense apenas coisas boas, pequena, pois este é o mundo das lágrimas muito em breve. Pense coisas ruins e, num piscar de olhos, estará mergulhada no mais escuro poço do desespero. Pense coisas boas...
Sumomo fez um esforço e mudou a mente: só Hiraga fazia com que sua vida valesse a pena.
Um calafrio percorreu seu corpo, quando um novo conceito aflorou, com a força chocante da realidade: Sonno-joi é uma tolice! Não passa de um lema. Como se pudesse mudar qualquer coisa. Uns poucos líderes mudarão e isso será tudo. Com os novos, as coisas serão melhores? Não, exceto se Hiraga for um deles, talvez se Katsumata for, mas, sinto muito, eles não viverão por tanto tempo assim.
Então por que segui-los?
Uma lágrima escorreu-lhe pela face. Porque Hiraga transforma minha cabeça em geléia, minha virilha...
Ao amanhecer, Yoshi saiu da cama, passou para o cômodo externo, ajeitou a yukata de dormir, a respiração visível no ar frio. Koiko remexeu-se, viu que ele estava bem e voltou a cochilar. No outro cômodo, os futons e cobertas de Sumomo já estavam guardados no armário, a mesa baixa posta para a primeira refeição do dia, as duas almofadas nos lugares corretos.