Lá fora, o frio era mais intenso. Ele calçou as sandálias de palha, atravessou a varanda para ir à privada, acenou com a cabeça para o criado à espera, escolheu um balde vazio na fileira que havia ali e urinou. O fluxo era forte, e isso o agradou. Havia outros homens ao seu lado. Yoshi não lhes dispensou qualquer atenção nem eles o fitaram. Ele dirigiu o fluxo para o constante enxame de moscas, não esperando afogar alguma.
Ao terminar, ele foi para a outra parte, agachou-se sobre um buraco vazio no banco, com homens e algumas mulheres nos dois lados, inclusive Sumomo. Em sua mente, Yoshi se encontrava sozinho, ouvidos, olhos e narinas fechados contra a presença dos outros, que também faziam a mesma coisa. Essa capacidade imperativa era cultivada desde a infância.
— Você deve se empenhar nisso mais do que em qualquer outra coisa ou sua vida se tornará insuportável — haviam incutido nele, como em toda criança. — Ali onde convivemos lado a lado, crianças, pais, avós, criados e outras pessoas, onde todas as paredes são de papel, a privacidade tem de ser cultivada em sua cabeça e só pode existir ali, por você e também como uma polidez essencial aos outros. Só assim poderá permanecer tranqüilo, só assim será civilizado, só assim, conseguirá permanecer são.
Distraído, Yoshi afugentou as moscas. Uma ocasião, quando era pequeno, perdera a paciência com duas ou três moscas que o atormentavam e tentara esmagá-las. O que lhe valera um imediato tapa, a face ardendo em dor, e mais ainda pela vergonha que lhe causara o pesar da mãe, a necessidade de aplicar a punição.
— Sinto muito, meu filho — murmurara ela. — As moscas são como o nascer e o pôr-do-sol, inevitáveis, exceto que podem ser um tormento... se você lhes permitir. Deve aprender a ignorá-las. Todos os dias, pelo tempo que for necessário por quantos dias forem necessários, fique de pé ali, por favor, deixe que as moscas pousem em seu rosto e mãos, sem se mexer. Até que elas se tornem nada. Moscas nada devem ser... use sua vontade, pois é para isso que a possui. Nada devem representar para você, pois assim não arruinarão sua harmonia, nem também, o que é ainda pior, a harmonia dos outros...
Agora, sentado ali, Yoshi sentia as moscas em suas costas e rosto. Não o incomodavam.
Ele acabou num instante. O papel-de-arroz era de boa qualidade. Sentindo-se vivo e bem, Yoshi estendeu as mãos para que o criado despejasse água. Depois que as mãos ficaram limpas, ele molhou o rosto com água de outro recipiente, estremeceu, aceitou uma pequena toalha, enxugou-se, voltou à varanda e conscientemente abriu os sentidos.
Ao seu redor, a estalagem despertava, os poucos pôneis sendo selados e escovados, homens, mulheres, crianças e carregadores já comendo, conversando ruidosamente ou partindo para a próxima etapa da viagem, indo ou vindo de Quioto. Na área comum, perto da entrada, Abeh inspecionava homens e equipamentos. Ao avistar Yoshi, ele foi ao seu encontro.
Porque havia pessoas por perto, o capitão não fez uma reverência, descobrindo que era algo muito difícil. O uniforme era elegante e ele parecia revigorado.
— Bom dia. — Ele teve de fazer um grande esforço para não acrescentar “senhor”. — Já estamos prontos para partir, no momento que desejar.
— Depois da primeira refeição. Providencie um palanquim para a dama Koiko.
— Imediatamente. Para pôneis ou carregadores?
— Pôneis.
Yoshi voltou a seus aposentos e comunicou a Koiko que ela não precisaria cavalgar naquele dia. Viajaria de palanquim, e ao cair da noite ele verificaria o progresso, para decidir como seria o resto da viagem. Sumomo cavalgaria, como antes.
Ao cair da noite, haviam coberto apenas duas estações de posta.
HAMAMATSU
Yoshi escolheu a estalagem das Garças Azuis para a noite, nem a melhor, nem a pior da aldeia, Hamamatsu — um conjunto aprazível de casas e estalagens à beira da Tokaidô, renomada por seu saquê, no ponto em que a estrada dava uma volta e descia em direção ao mar.
Depois de comer sozinho, como sempre fazia, Yoshi foi se juntar a Koiko — se comessem juntos, invariavelmente, pelo costume, ela quase nada comeria, fazendo uma refeição antes, a fim de poder se concentrar nas necessidades dele. Naquela noite, Yoshi estava com vontade de jogar Go. Era um jogo complexo de estratégia, com pedras brancas e pretas, cada um dos dois jogadores tentando bloquear e capturar as pedras do outro.
Ambos eram bons jogadores, mas Koiko era uma virtuose, a tal ponto que podia, quase sempre, vencer ou perder a seu critério. Isso tornava o jogo duas vezes mais difícil para ela. Yoshi lhe ordenara que nunca perdesse deliberadamente, mas ele próprio era mau perdedor. Se ela ganhasse num dia errado, ele ficava irritado. Uma vitória num de seus dias ruins acabava com todo o mau humor. Naquela noite ele venceu, por pouco.
— Oh, Sire, me destruiu por completo! E eu pensava que ia vencer!
Estavam em seu quarto, com as pernas no reduzido espaço sob a mesa baixa, com um pequeno braseiro, envoltos por um grosso pano acolchoado, para impedir a entrada de aragens e manter o calor dentro.
— Está bem aquecido, Sire?
— Estou, sim, Koiko, obrigado. Ainda sente dores?
— Não tenho mais nenhuma. A massagista foi muito eficiente esta noite, — Ela gritou: — Sumomo, saquê e chá, por favor!
No outro cômodo, Sumomo pegou o frasco e o bule de chá em outro braseiro, abriu a porta de shoji e entrou. Serviu os dois e Koiko balançou a cabeça, em satisfação.
— Aprendeu a cerimônia do chá, Sumomo? — perguntou Yoshi.
— Aprendi, Sire, mas receio que me falte habilidade.
— Lorde Yoshi é um mestre — comentou Koiko, tomando um gole de saquê. Suas nádegas e costas doíam dos solavancos no palanquim durante o dia, as coxas de dois dias a cavalgar, e a cabeça do esforço para perder, enquanto dava a impressão de que cobiçava a vitória. Tudo isso ela escondia, e também seu desapontamento pelo pouco progresso naquele dia. Era evidente que isso decepcionara Yoshi. Mas ambos sabíamos que outra marcha forçada não será possível, pensou ela. Ele deve continuar sozinho, e eu o seguirei. E será bom me manter a distância por algum tempo. Esta vida é cansativa, por mais maravilhoso que ele seja. beberam em silêncio, rompido por Yoshi:
— Amanhã, bem cedo, partirei com trinta homens, deixando dez para escolta-la sob o comando de Abeh. Poderá me seguir mais devagar.
— Certo. Com sua permissão, posso segui-lo o mais depressa que puder?
Ele sorriu.
— Isso muito me agradaria, mas desde que chegue sem dores, no corpo ou no espírito.
— Mesmo que tal acontecesse, seu sorriso me curaria no mesmo instante. Outro jogo?
— Boa idéia, mas não Go.
Koiko riu.
— Neste caso, devo fazer alguns preparativos.
Ela se levantou, foi para o aposento externo, fechando a porta de shoji. Yoshi ouviu-a falando com Sumomo, mas não prestou atenção, sua mente absorvida pelo dia seguinte, Iedo e os gai-jin.