Suas vozes se perderam na distância, quando elas saíram. Ele terminou o saquê, apreciando-o, foi para o outro quarto, onde os futons e as colchas se achavam estendidos sobre o tatame impecável. Paisagens de inverno e cores fortes eram os ornamentos predominantes. Yoshi tirou a yukata acolchoada, estremeceu e enfiou-se sob as cobertas.
Quando Koiko voltou, ouviu-a andar por um momento no outro cômodo, e depois entrar no banheiro, onde havia recipientes para a noite, caso fossem necessários, assim como jarros com água para se beber e outros para se lavar.
— Mandei Sumomo dormir em outro quarto esta noite — avisou ela. — Também pedi a Abeh para postar um guarda lá fora, com ordens para não deixar ninguém nos incomodar.
— Por que fez isso?
Ela entrou no quarto.
— É a nossa última noite por algum tempo... mencionei para ele que não viajaria em sua companhia amanhã... e o quero todo para mim.
Sem pressa, Koiko tirou o quimono e aconchegou-se ao seu lado. Embora já a tivesse visto nua muitas vezes, sentido seu contato outras tantas, e dormido com ela em inúmeras ocasiões, aquela noite foi a melhor de todas.
QUIOTO
No palácio em Quioto, um dos espiões do lorde camarista bateu na porta de seu quarto, acordando-o, e entregou o recipiente de mensagem levada por pombo-correio.
— Isto acaba de ser interceptado, lorde.
O pequeno cilindro era endereçado ao conselheiro-chefe do Bakufu no palácio, Saito, e tinha o sinete pessoal do tairo Nori Anjo. Ele hesitou, depois rompeu o lacre com a unha bem cuidada.
Anjo enviara a mensagem ao amanhecer:
O líder gai-jin rejeitou insolentemente a ordem imperial para deixar Iocoama e eles estão se preparando para nos invadir. Prepare a ordem de mobilização nacional para assinatura do imperador; por este documento apresento a solicitação formal para que o imperador a assine de imediato. Depois, mande cópias urgentes para todos os daimios. Providencie para que o xógum Nobusada retorne a Iedo sem demora, a fim de comandar nossas forças. A princesa Yazu pode — e de preferência deve — permanecer em Quioto. Lorde Yoshi também deve receber a solicitação formal para voltar o mais depressa possível.
O lorde camarista pensou por um instante, concluindo presunçoso que a iniciativa de Saito seria indeferida, e o imperador aconselhado a nunca assinar uma ordem de mobilização. Com o maior cuidado, ele repôs a mensagem no cilindro e tornou a lacrá-lo, com sua cópia secreta do sinete.
— Pode levar e providencie a chegada ao destinatário — ordenou ele.
Ao ficar sozinho de novo, Wakura riu. Guerra! Ótimo. Anjo fora a escolha perfeita para tairo. Todos se afogarão em sua própria urina, os gai-jin, Yoshi, todos eles.
Exceto a princesa. Ela ficará para se tomar uma viúva... e quanto mais cedo, melhor.
39
ALDEIA HAMAMATSU
Segunda-feira, 8 de dezembro:
Sumomo acordou muito antes da primeira claridade. Tivera um pesadelo. Não estava mais na Tokaidô, com Koiko e lorde Yoshi, mas de volta a Quioto, perseguida por soldados do Bakufu, comandados por Abeh, acuada na casa em chamas dos shishi, gritos por toda parte, sangue por toda parte, armas de fogo disparando, espremendo-se em pânico pelo túnel estreito, por trás de Takeda e Katsumata, o buraco mal dando para passar, rastejando, os lados parecendo comprimi-la, deixando-a toda esfolada, cada vez mais estreito. O ar, impregnado de poeira, não era suficiente para sua respiração. Os pés de Takeda logo à frente, enquanto ele se arrastava, ofegando, alguém ou alguma coisa atrás dela, e depois Takeda se transformou em Yoshi, chutando-a, detendo-a, para em seguida desaparecer... e não havia mais nada à frente, apenas um caixão de terra.
Quando o coração se acalmou e os olhos puderam focalizar, na luz tênue da chama do lampião, ela viu um dos guardas observando-a, de seus futons. Ontem à noite ela acompanhara Koiko para uma conversa com Abeh, que lhe dissera para dormir no aposento comunal, havia espaço suficiente para ela num lado, e era um arranjo bastante satisfatório. Quatro guardas usavam o aposento, dois dormindo, dois de vigia. Fora ali que Sumomo arrumara sua cama e não conseguira dormir com facilidade, pois ouvira Yoshi dizer a Koiko que não mais viajariam juntos. Ouvira também Koiko dizer a Abeh:
— Lorde Yoshi decidiu que, a partir de amanhã, eu e meu grupo viajaremos mais devagar.
— O que ele deseja que se faça, dama?
— Ele disse que quer deixá-lo aqui, com dez homens, para me escoltar até Iedo. Sinto muito ser um problema.
— Não é problema para mim, dama, desde que ele esteja seguro.
Seguro e fora de alcance, pensara Sumomo, consternada pela mudança no plano. Muita coisa poderia sair errada dali até Iedo.
Ela acabara dormindo. Para sonhar. Não costumava sonhar. Ao final da noite e no início da manhã ela sempre dizia uma prece, Namu Amida Butsu, apenas o nome do Buda Amida, o que seria suficiente, se houvesse um deus para se orar. Mas esquecera na noite passada. Agora, em silêncio, ela enunciou as palavras e fechou os olhos.
Em momentos, retornou à cabana dos shishi.
Fora a pior experiência de sua vida, o ataque inesperado, os tiros passando pelas paredes, e no instante seguinte a cabeça do jovem ao seu lado explodira, sem tempo para que ele sequer gritasse. Mas outros gritaram, em parte por pânico, em parte por agonia, enquanto as balas continuavam a ser disparadas. Katsumata, paralisado por um instante, logo orientara a defesa, ordenando que alguns atacassem pela frente, outros pelo fundo. As duas cargas foram rechaçadas. Sumomo não sabia onde se esconder, tinha certeza de que estava tudo perdido, as chamas começavam a envolvê-los, mais gritos soavam, mais sangue era derramado, o fim se aproximava. A prece murmurada, Namu Amida Butsu, Namu Amida Butsu, e depois mãos a agarraram rudemente, empurraram-na para o buraco, atrás de Takeda — que, frenético, puxara outro de sua frente, e Katsumata fizera a mesma coisa —, enquanto seu salvador shishi, cujo rosto ela nunca vira, era morto na luta que se seguira, e que bloqueara o caminho de fuga, até que era tarde demais.
De alguma forma, saíra da escuridão impregnada de ódio para o ar puro. A fuga, a corrida em pânico parecendo interminável, o peito prestes a explodir, e Katsumata os levara, dando muitas voltas, até seu refugio de última instância. A porta dos fundos de Iwakura. E ali, sem demora, fora realizado um conselho de guerra shishi.
Sugiro que nos dispersemos por enquanto — propusera Katsumata. — Vamos nos reagrupar e nos reencontrar na primavera, no terceiro ou quarto mês. Lançaremos nova ofensiva na primavera.