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— Por que esperar? — indagara alguém.

— Porque fomos traídos, porque há um espião em nosso meio ou entre nossos protetores. Fomos traídos. Agora, devemos nos resguardar e nos dispersar.

E fora o que acontecera.

— Sumomo, você irá para Koiko...

Mas antes disso, sua desorientação fora terrível, com lágrimas inexplicáveis, o coração disparado, o pânico muito fácil.

— Vai passar, Sumomo — garantira Katsumata.

Mais uma vez, ele acertara. Dera-lhe uma poção, que a fizera dormir e a acalmara. Ao se encontrar com Koiko, já voltara a ser como antes... isto é, quase, não de todo.

— Quando sentir o medo retomando, tome o medicamento, mas só um pequeno gole — recomendara ele. — Dentro de uma ou duas semanas, estar perfeita de novo. Lembre-se sempre de que sonno-joi precisa de você perfeita...

Sumomo saiu de seu devaneio, suando outra vez, ameaçada pelo medo. Ainda era noite. Estendeu a mão para o fardo ao lado de sua cabeça, onde guardava o vidrinho. Mas não encontrou o fardo. Não o trouxera, ao trocar de aposentos. Não importa, pensou ela, não preciso disso, posso muito bem dispensá-lo.

Repetiu essa determinação várias vezes, contorcendo-se na cama, as cobertas úmidas e pegajosas ao seu redor. E depois notou que o guarda continuava a observá-la.

— Um pesadelo, neh?— sussurrou ele, gentil.

Ela acenou com a cabeça, sem dizer nada.

— Eu poderia lhe dar bons sonhos.

O guarda puxou sua colcha para o lado, num convite. Sumomo sacudiu a cabeça. Ele deu de ombros, virou-se para o outro lado e esqueceu-a, considerando-a estúpida por rejeitar tal prazer. Sem se sentir ofendida, ela também virou de costas, apenas um pouco divertida. Estendera a mão para a faca na obi, dentro da bainha. O contato proporcionou-lhe a paz de que precisava. Um último Namu Amida Butsu.

Sumomo fechou os olhos e dormiu sem sonhos.

Koiko estava acordada e satisfeita. Ainda não era o amanhecer. Yoshi dormia ao seu lado, sereno. Era agradável ficar deitada ali, à deriva, sabendo que não teria de suportar o desconforto de outro dia num palanquim, aos solavancos, jogada de um lado para outro, por causa de uma pressa inconveniente. E também porque sua noite fora tranqüila. Yoshi mergulhara num sono profundo. De vez em quando um pequeno ronco o sacudia, mas isso não a incomodava.

— Treinem seus ouvidos, damas — dizia sempre a cortesã aposentada, com uma risada desdentada, para todas as maiko na escola. — Passarão suas vidas profissionais em companhia de velhos. Todos os homens roncam, mas os velhos roncam ainda mais, só que não podemos esquecer que são eles que pagam... os jovens levam flores e também roncam.

Entre todos os homens com os quais ela já deitara, Yoshi era o mais sereno no sono. Desperto, era o mais difícil. Para se antecipar. Para satisfazer. Não fisicamente. Em termos físicos, ele era forte e experiente; por mais que Koiko fosse treinada a permanecer alheia dentro de um abraço, ele sempre a atraía, e na maioria das noites ela também alcançava o esplendor do prazer.

Katsumata era mais como um mago. Acariciava sua imaginação e pensamentos, estimulando-a além de qualquer coisa que ela pudesse imaginar. Ficava exultante quando ela adquiria uma nova habilidade... como treinar os ouvidos para captar as palavras quase inaudíveis.

— É onde se encontra o conhecimento dourado, as partes importantes, sinais de perigo, de segurança, do que existe dentro do coração secreto dentro do coração secreto. Lembre-se de que todos nós neste mundo, homens e mulheres, possuímos três corações, um para o mundo inteiro ver, um para a família, e um só para nós. Alguns homens têm seis corações. Yoshi é assim. Ele é seu objetivo, aquele para quem você deve ser o farol.

Ela riu para si mesma, recordando como dissera que lorde Yoshi se encontrava completamente além de seu alcance. Katsumata sorrira, seu sorriso especial, e a exortara a ter paciência.

— Dispõe de bastante tempo. Está com dezoito anos, e não há muito mais que eu possa lhe ensinar. Deve começar a se expandir por si mesma. Como todo estudante devotado, deve seguir a mais importante lei para todos os que aprendem: recompense seu mestre fazendo com que seja seu dever superá-lo! Seja paciente, Koiko. No momento oportuno, sua mama-san e eu providenciaremos para que lorde Yoshi tome conhecimento de sua existência...

E fora o que acontecera. Em um ano. O primeiro convite para ir ao castelo viera seis meses e cinco dias antes. O coração disparado, com medo de fracassar, mas tal não acontecera. Estava preparada, e cumprira seu dever com o mestre.

Mas sou guia para Yoshi? Sei que ele gosta de mim, aprecia minha companhia e minha mente. Para onde devo guiá-lo? Katsumata jamais disse, apenas me falou que se tornaria evidente.

Sonno-joi resume tudo. Envolva lorde Yoshi. Ajude-o a mudar. Pouco a pouco você o ajudará a se deslocar cada vez mais para o nosso lado. Nunca esqueça, ele não é inimigo; ao contrário, é vital para nós, vai chefiar o novo Bakufu, formado por samurais leais, como tairo... não haverá mais qualquer necessidade de um xógum ou do xogunato... apoiado por nosso novo e permanente Conselho dos Samurais...

Eu me pergunto como será a nova era, se viverei para vê-la, pensou Koiko, deitada ali, confortável. Agora... o que fazer com Sumomo?

Fora desnecessário mandá-la para outro aposento... como se importasse a sua presença no cômodo ao lado, já que não escutaria os gritos e movimentos. Mas não fora esse o motivo. Quando Yoshi dissera que ela não o acompanharia pelo resto da viagem, Koiko tivera a impressão de ouvir movimento no cômodo externo, como se Sumomo chegasse mais perto e tentasse ouvir o que diziam, uma espantosa invasão da privacidade, um comportamento inadmissível.

Só uma intrometida impertinente faria tal coisa, pensara ela. Ou uma espia. Ah! Katsumata se empenha com frieza em um de seus intrincados jogos dentro de Jogos, usando-me para infiltrar uma espia, a fim de vigiar Tora-chan e eu? Lidarei Com ela amanhã; até lá, Sumomo pode dormir em outro lugar.

Isso acertado, dizendo a Sumomo apenas que lorde Yoshi preferia ficar sozinho, ela voltara, revistara apressada o fardo da moça, sem saber por que, pois não tinha certeza se houvera mesmo uma tentativa de espioná-los.

Não havia nada de excepcional ali. Umas poucas roupas, um vidro com algum medicamento, mais nada. O quimono para usar durante o dia, dobrado de uma maneira impecável, era comum, não merecia mais que um olhar superficial.

Aliviada, Koiko arrumara tudo como antes. Quanto ao vidro... poderia ser ala veneno?

Antes de voltar para Yoshi, ela decidira se certificar que não era um veneno. Sumomo tomaria um pouco. Nunca era errado tomar as providências devidas contra um perigo em potencial. Yoshi dissera:

— Foi isso que matou Utani. Ele não postou sentinelas como devia.

Sinto muito, mas o que matou Utani foi a notícia do encontro amoroso sussurrada para a minha criada por um samurai da guarda, e que eu lhe permiti que passasse adiante, para Meikin, que a transmitiu a Hiraga. O que Hiraga anda fazendo neste momento? Como um cliente, nas duas vezes em que o foi, quando eu tinha dezesseis anos, Hiraga não foi melhor ou pior do que os outros anônimos, mas como um shishi, o melhor. Curioso...