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— Não precisa se preocupar, pois posso lhe dar algum. — Koiko sorriu, não compreendendo a confusão da moça, e continuou, em tom firme: — Seus documentos estão em ordem?

— Estão, sim, mas posso...

— É melhor para nós duas. Considerei todas as possibilidades. Será melhor eu viajar sozinha. Você pode ficar aqui ou voltar para sua casa em Satsuma...eu aconselharia isso... ou seguir sozinha para Iedo.

— Mas, por favor, posso ficar com você?

— É mais sensato você seguir seu caminho agora... claro que compreendo que a aceitei como um favor excepcional para seu guardião. Agora, está sã e salva.

— Mas... o que vai fazer sem criada? Quero servi-la e...

— Tem sido muito boa, mas posso contratar alguém. Por favor, não se preocupe com isso. Pretende voltar a Quioto?

Como Sumomo não respondesse, apenas a fitasse em silêncio, aturdida, Koiko acrescentou, gentilmente:

— O que seu guardião disse que deveria fazer ao me deixar?

— Ele... ele não disse.

Koiko franziu o rosto.

— Mas com certeza deve ter um plano.

— Tenho, sim, ama — balbuciou Sumomo, cada vez mais confusa. — Ele me disse que eu deveria acompanhá-la até Iedo. Depois, se esse fosse o seu desejo, eu deveria ir embora.

— Ir para onde?

— Para... para me encontrar com Oda-sama.

— Claro, claro. Mas em que lugar de Iedo?

— Não sei. Posso servir...

— Não tem certeza, Sumomo? — O rosto de Koiko franziu-se ainda mais.

— Tem outra família com que ficar, se ele não estiver lá?

— Hum... há uma estalagem em que devem saber onde ele está ou encontrarei uma mensagem à minha espera. Juro que não serei um fardo durante a viagem, de jeito nenhum... tem me ensinado tanta coisa...

Quanto mais Koiko escutava a moça insistir — tolamente, pensou ela, pois deve ser óbvio que já tomei minha decisão —, menos gostava do que ouvia, da agitação de Sumomo, da maneira como falava e baixava os olhos.

Ela fechou os ouvidos aos argumentos por um instante e aproveitou o tempo para ordenar seus pensamentos. Tornaram-se mais sombrios.

— Seu guardião também foi para Iedo?

— Não sei. Por favor, deixe-me servir...

— Esse Oda-sama é um Satsuma... faz parte da guarnição de Satsuma?

— Não. — Sumomo se censurou no mesmo instante, pois deveria ter respondido “Não sei”. — Os Satsu...

— Então o que ele está fazendo em Iedo?

— Não sei, dama — murmurou Sumomo, hesitante, sem a necessária rapidez de raciocínio, mais assustada a cada momento. — Não o vejo há quase um ano... apenas me informaram que o encontraria em Iedo.

Os olhos de Koiko penetraram nos dela, a voz se tornou incisiva:

— Seu guardião disse que esse Oda-sam era shishi. Portanto, ele...

A voz murchou, como se, ao pronunciar a palavra em voz alta, a enormidade do que fizera e arriscara, ao concordar em aceitar a companhia daquela moça, a sufocasse.

— Os shishi acham que lorde Yoshi é seu principal inimigo — balbuciou ela. — E se ele é o inimigo...

— Não, dama, ele não é, apenas o xogunato, o Bakufu é o inimigo, ele está acima de tudo isso, não é inimigo — protestou Sumomo, com veemência, a mentira saindo fácil, para depois acrescentar, antes que pudesse se controlar: — Katsu... meu guardião incutiu isso em todos nós.

— Em todos vocês? — O rosto de Koiko ficou branco. — Namu Amida Butsu! Você é um de seus acólitos!

Katsumata lhe dissera que umas poucas moças estavam sendo treinadas por ele para integrarem seu bando de guerreiros.

— Ele... ele também a treinou.

— Sou apenas uma humilde servidora leal, dama — murmurou Sumomo fazendo um esforço para manter o controle e exibir um ar inocente.

Koiko olhou ao redor, na maior incredulidade, sua mente quase parou; o mundo ditoso em que vinha habitando desmoronava de repente.

— Você é um deles!

Sumomo sustentou o olhar, sem saber como se livrar do abismo que se abrira à frente delas.

— Dama, por favor, vamos pensar com clareza. Eu... não sou uma ameaça para você, nem você para mim, vamos deixar assim. Jurei protegê-la, e o farei, a lorde Yoshi também, se necessário. Deixe-me viajar em sua companhia. Juro que irei embora no momento em que alcançar Iedo. Por favor. — Seus olhos suplicavam que Koiko concordasse. — Nunca se arrependerá dessa gentileza. Por favor. Meu guardião pediu um favor de vida inteira. Por favor, eu a servirei...

Koiko mal ouvia as palavras. Observava-a como um camundongo olharia uma serpente pronta para o bote, sem qualquer pensamento em sua cabeça agora a não ser como escapar, como fazer com que tudo aquilo fosse um sonho. É um sonho? Seja sensata, sua vida está em jogo, mais do que sua vida, deve manter o controle.

— Dê-me sua faca.

Sumomo não hesitou. Enfiou a mão por dentro da obi, entregou a faca na bainha. Koiko pegou a lâmina como se estivesse em brasa. Sem saber o que mais fazer com aquilo, jamais tendo manipulado, possuído ou precisado antes de uma faca, todas as armas eram proibidas no mundo flutuante, ela a enfiou em sua própria obi.

— O que quer conosco? — indagou ela, a voz quase inaudível. — Por que está aqui?

— Só desejo viajar em sua companhia, dama — respondeu Sumomo, como se falasse a uma criança, sem compreender que seu rosto se tornara duro. — Apenas viajar em sua companhia, não há outro motivo.

— Fazia parte dos assassinos que atacaram o xógum Nobusada?

— Claro que não. Sou apenas uma leal partidária, uma ami...

— Mas foi você a espia que sussurrou que meu lorde ia deixar seu quartel para se encontrar com Ogama... foi você!

— Não, dama, juro que não fui eu. Já disse que ele não é o inimigo, o atacante não passava de um louco solitário, não era um dos nossos...

— Tem de partir... deve partir... — insistiu Koiko, num fio de voz. — Por favor, vá embora. Agora, por favor. Depressa.

— Não há necessidade de se preocupar ou ter medo. Nenhuma.

— Mas eu sinto. Estou apavorada com a possibilidade de que alguém venha a denunciá-la. Yoshi...

As palavras pareceram ficar suspensas no ar, entre as duas. Os olhos se encontraram, Sumomo determinada, Koiko desamparada e se intimidando sob a força daquele olhar. As duas davam a impressão de terem envelhecido, Koiko angustiada por ter sido tão ingênua, por seu ídolo tê-la usado de uma forma tão insidiosa. Sumomo furiosa por ter sido tão estúpida ao não concordar de imediato quando a prostituta intrometida propusera que ela fosse embora. Tola, tola, as duas pensavam naquele momento.