— Farei o que está dizendo — murmurou Sumomo. — Irei embora, apesar...
A porta de shoji foi aberta. Yoshi entrou, lépido, encaminhou-se para o cômodo interno. O transe das duas se dissipou. Fizeram uma reverência apressada. Ele parou no meio de um passo, todos os sentidos bradando perigo.
— O que houve? — indagou ele, ríspido, pois percebera o instante de medo, antes de as cabeças se inclinarem.
— Na... nada, Sire — respondeu Koiko, recuperando o controle, enquanto Sumomo se apressava para o braseiro, a fim de buscar chá fresco. — Deseja um chá? Talvez a primeira refeição?
Os olhos de Yoshi deslocaram-se de uma mulher para outra.
— O que houve? — perguntou ele de novo, devagar, as palavras como pingentes de gelo.
Sumomo ajoelhou-se, humilde.
— Sentimos muito não podermos acompanhá-lo, Sire. Era por isso que a dama Koiko se mostrava tão triste. Posso servir o chá, Sire?
O silêncio foi se tornando opressivo. Yoshi cerrou os punhos na altura dos quadris, o rosto duro, as pernas nuas bem plantadas no chão.
— Koiko! Diga-me tudo! Agora!
A boca de Koiko começou a se mexer, mas as palavras não saíram. O coração de Sumomo parou, e depois trovejou em seus ouvidos, enquanto Koiko se levantava, lágrimas escorrendo, e balbuciava:
— Deve compreender... ela não é o que...
No mesmo instante, Sumomo ficou de pé, a mão direita entrou na manga e saiu com um shuriken. Yoshi rangeu os dentes ao vê-lo. O braço de Sumomo se contraiu para o lançamento — ele estava desarmado, um alvo aberto, suas espadas no cômodo interno. Yoshi desviou-se para a esquerda, na esperança de que o movimento pudesse confundi-la, preparando-se para arremeter contra a moça, os olhos fixados em sua mão. Imperturbável, Sumomo mirou seu peito e lançou o shuriken.
O círculo de aço com pontas afiadas girou pelo ar. Frenético, Yoshi arqueou corpo, desviou-se. Uma das pontas pegou a beira de seu quimono e cortou o pano, mas não atingiu a carne, desaparecendo pela tela de shoji e se cravando num dos postes do cômodo interno, enquanto Yoshi, desequilibrado pelo esforço extremo, esbarrava numa parede e caía ao chão.
Por um instante, tudo parecia um sonho lento...
Sumomo, estendendo a mão pela manga, a fim de pegar o próximo shuriken via apenas o grande inimigo, caído no chão, impotente, e sua prostituta retardada que causara aquela conclusão desnecessária, a fitá-la boquiaberta, um pilar de medo... mas não sentia medo, apenas exultação, certeza de que o momento era seu zênite, a culminação por que nascera, para a qual fora treinada durante toda a sua vida, e que agora, invencível campeã dos shishi, haveria de consumar, morrendo em seguida, para viver por toda a eternidade na lenda...
Koiko, de pé, paralisada, consternada por ter sido enganada por seu guru, que era como um deus, mas a traíra, só lhe dissera mentiras, a moça também uma impostora, e por causa deles acontecia agora aquela conspiração monstruosa: seu benfeitor morreria, e mesmo que não morresse, ela cairia em desgraça, a morte inevitável, pela mão dele ou dos guardas, tudo nesta vida desperdiçado, jamais casaria com seu samurai, nunca teria filhos, nunca nesta vida, era melhor encerrá-la depressa, por sua própria mão, do que deixar que ele cuidasse disso, mas como, como, e foi então que ela se lembrou da faca de Sumomo...
Yoshi, virando-se no chão, frenético para ver o próximo arremesso, ajeitando os pés sob o corpo para a carga que tinha de fazer, ou morrer, tudo levando muito tempo, a mente explodindo, clamando que acolhera uma víbora, e depois seus olhos divisaram a mão de Sumomo, com o segundo shuriken —quantos ela tinha? —, os lábios dela repuxados, os dentes muito brancos à mostra... E o instante de paralisia terminou.
Sumomo hesitou, exultante no triunfo, mas o momento foi longo demais, e ela viu Koiko sair do transe, a faca em sua mão. Numa reação instintiva, mudou o alvo, conteve-se, hesitou de novo, apontou para Yoshi mais uma vez, iniciou o lançamento, mas nesse instante Koiko arremeteu para a frente, tropeçou na bainha e tombou em sua direção.
O shuriken girando cravou-se no peito de Koiko, que gritou, e isso deu tempo a Yoshi para se lançar do chão contra Sumomo. Ele pegou-a pelo tornozelo, derrubou-a, os dedos procuraram sua garganta, mas ela era como uma enguia, desvencilhou-se, treinada em artes marciais, a mão procurando o último shuriken. Antes que pudesse alcançá-lo, os dedos de ferro de Yoshi agarraram parte de seu quimono, rasgaram metade da manga, inibindo-a. Outra vez Sumomo se desvencilhou, ficou de pé, em um segundo, mas agora ele também se levantara.
Ela soltou um estridente grito de batalha, estendeu a mão para trás, efetuou o lançamento. Ele estava paralisado, morto... só que a mão de Sumomo estava vazia-o movimento era apenas uma finta, o último shuriken ainda preso na manga rasgada. Enquanto tentava pegá-lo, a porta de shoji por trás dela foi aberta pelo guarda.
— Depressa! — gritou ela, apontando para Koiko, a se contorcer e gemer no chão.
E quando o guarda correu para a frente, Sumomo tirou sua espada comprid3 da bainha, ergueu-a, golpeou, feriu-o, e no mesmo movimento se virou para Yoshi. Mas ele saltara um passo para trás, passara por cima do corpo de Koiko, e agora corria para o cômodo interno, em busca de suas espadas, irrompendo pela porta de shoji fechada, com Sumomo em seu encalço.
A espada de Yoshi saiu da bainha. Ele girou, aparou o primeiro golpe violento, deu a volta no espaço restrito. Destemida, Sumomo atacou de novo, o golpe também foi aparado, enquanto os dois avaliavam um ao outro. Outra sucessão de golpes, ela era uma hábil espadachim, assim como Yoshi.
Agora ele atacou, foi contido, os dois recuaram, circularam, e depois Sumomo recuou pela porta, em busca de mais espaço, seguida por Yoshi. Os dois circularam, procurando uma abertura. Soaram gritos lá fora. Guardas convergiam, o samurai ferido bloqueava parcialmente a porta. Sabendo que restava pouco tempo, Sumomo aumentou a pressão, avançou, depois girou, ficando de costas para a porta, e os dois se atacaram, golpe e contragolpe. Yoshi virou-se, forçando-a a dar outra volta, mas perdeu a iniciativa. Ele viu Abeh correr para as costas da moça, a espada erguida, e gritou:
— Não! Deixe-a comigo!
Quase foi decapitado por isso, e recuou, numa desordem temporária. Obediente, Abeh parou. Outra escaramuça furiosa, Yoshi recuperando o equilíbrio bem a tempo. Eram adversários à altura, Yoshi muito mais forte, embora não com tanta prática.
Os punhos das espadas engancharam. Sumomo logo se desvencilhou, sabendo que ele prevaleceria nessa posição, recuou, fez uma finta, avançou numa carga cega, heterodoxa, o gume da espada cortou o ombro de Yoshi. Teria estropiado um lutador menos hábil, mas ele previra o golpe, e sofreu apenas um pequeno ferimento, embora gritasse, baixasse a guarda, simulando uma dor intensa. Descuidada, Sumomo adiantou-se para o golpe de misericórdia. Mas o inimigo não se encontrava exatamente onde esperava. Yoshi ergueu a espada do chão, surpreendendo-a. O golpe cortou o pulso esquerdo de Sumomo, jogando-o longe, com a espada, os dedos ainda presos no punho.