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Ela olhou para o coto do braço, aturdida, o sangue esguichando, e soltou um terrível grito. Não havia dor. A outra mão segurou o coto, diminuindo o fluxo. Guardas se adiantaram para agarrá-la, mas outra vez Yoshi mandou que se bastassem, o peito arfando, enquanto tentava recuperar o fôlego, observando-a lentamente.

— Quem é você?

Sumomo Fujahito... shishi — balbuciou ela, a coragem e a força se desvanecendo depressa, para depois, com o último alento, arrematar: — Sonno-joi

Sumomo largou o coto, tateou à procura do último shuriken, encontrou-o, espetou uma das pontas envenenadas no braço, inclinou-se para a frente, a fim de cravá-lo. Mas Yoshi estava preparado.

O golpe violento acertou-a com perfeição, no ponto em que o pescoço se encontrava ao corpo, a lâmina foi cortando, saiu por baixo do braço. Todos os espectadores prenderam a respiração, como se fossem um só, convencidos de que haviam testemunhado um acontecimento que seria transmitido de boca em boca por séculos, provando que aquele homem fora um digno descendente do grande xógum e portador de seu nome. Mas todos ficaram também abalados, à visão de tanto sangue. Abeh foi o primeiro a recuperar a voz.

— O que aconteceu, lorde?

— Eu venci — disse Yoshi, sombrio, examinando seu ombro, o sangue manchando o quimono, uma dor no lado, o coração ainda batendo forte. — Chame um médico... e depois partiremos.

Homens saíram correndo para cumprir sua ordem. Abeh desviou os olhos do cadáver de Sumomo. Koiko gemia e se contorcia no chão, as unhas cortando o tatame. Ele avançou em sua direção, mas parou quando Yoshi disse:

— Cuidado, seu tolo! Ela era parte da conspiração! Cauteloso, Abeh chutou a faca de Sumomo para um lado.

— Vire-a! — ordenou Yoshi.

Ele obedeceu, empurrando-a com o pé. Havia apenas um sinal mínimo de sangue. O shuriken prendera o quimono na pele, estancando a hemorragia, mais da metade do aço cravado. Além da agonia pulsante, que contorcia seu rosto em ondas sucessivas, ela continuava fascinante como antes.

Yoshi sentia um ódio intenso.

Nunca estivera tão perto da morte. O outro ataque não fora nada, em comparação com aquele. Não podia entender como conseguira resistir ao ataque traiçoeiro. Sabia que estivera derrotado em meia dúzia de momentos e o terror à beira do abismo não fora como o imaginara. O terror degrada qualquer um, pensou ele, querendo retalhar Koiko em pedaços, na sua fúria, pela traição, ou deixá-la perecer em agonia.

As mãos de Koiko apertavam o peito, em total impotência, onde a dor profunda se concentrava, numa tentativa de arrancar a coisa que a causava. Mas ela não podia. Um tremor sacudiu seu corpo. Os olhos se abriram, focalizaram Yoshi, parado ali, a mão esquerda deixou o peito, subiu para o rosto, procurou ajeitar os cabelos, para ele.

— Ajude-me, Tora-chan — soluçou ela, as palavras truncadas. — Por favor, ajude-me... dói muito...

— Quem a mandou? E a ela? Quem?

— Ajude-me... por favor... dói, dói muito... tentei salvar... salvar...

A voz definhou, e ela se viu outra vez com a faca na mão, Yoshi indefeso, heroicamente cumprindo seu dever, correndo para entregar a faca que ela própria não podia usar, para impedir a traidora de feri-lo com o aço voador, recebendo-o no lugar dele, salvando sua vida, para que ele a recompensasse e perdoasse, não que fosse culpada de qualquer coisa, apenas de servi-lo, agradá-lo, adorá-lo.

— O que faremos com ela? — perguntou Abeh, contrafeito, certo que o shuriken era envenenado, e que a morte era inevitável, alguns venenos mais cruéis do que outros.

Jogue-a num monte de esterco, foi o pensamento imediato de Yoshi, o estômago cheio de uma bílis amarga, e deixe-a com sua dor, para os cães se divertirem. Ele franziu o rosto, atormentado agora, vendo que Koiko ainda era bela, ainda era desejável, apenas o gemido ressaltando em sua percepção que uma era terminara.

Agora e para sempre, ele estaria sozinho. Koiko destruíra a confiança. Se aquela mulher, a quem dispensara tanta afeição, fora capaz de traí-lo, qualquer outra pessoa também poderia fazê-lo. Nunca mais poderia confiar numa mulher, nem partilhar tanta coisa. Jamais. Koiko destruíra essa parte dele para sempre. Seu rosto se fechou.

— Jogue-a...

E foi então que ele se lembrou dos poemas tolos e dos poemas felizes de Koiko, todo o riso e prazeres que ela lhe proporcionara, os bons conselhos, incontáveis satisfações. Abruptamente, ele foi dominado por uma imensa tristeza pela crueldade da vida. Ainda tinha a espada na mão. O pescoço dela era bem pequeno. O golpe foi gentil.

Sonno-joi, hem? — murmurou ele, desorientado por sua perda.

Malditos shishi, é culpa deles a morte de Koiko. Quem enviou Sumomo? Katsumata! Só pode ser, os mesmos golpes com a espada, a mesma astúcia. Já por duas vezes seus assassinos quase me mataram. Não haverá uma terceira vez. Exterminarei todos. Até que eu esteja morto, Katsumata é inimigo, todos os shishi são inimigos. Amaldiçoados shishi... e amaldiçoados gai-jin!

É no fundo culpa deles, dos gai-jin. São uma praga. Se não fosse por eles, nada disso teria acontecido, não haveria os repulsivos tratados, nem shishi, nem sonno-joi, nem a ferida infeccionada de Iocoama.

Amaldiçoados gai-jin. Agora eles vão pagar.

40

IOCOAMA

NA tarde do mesmo dia, Jamie McFay saiu furioso do escritório do Yokohama Guardian. Ajeitou a última edição do jornal debaixo do braço e seguiu apressado pela High Street. A brisa era fria, com o cheiro de maresia, o mar estava encapelado, cinzento e inóspito. As passadas eram tão iradas quanto seu ânimo. Eu bem que gostaria que Malcolm tivesse me contado, pensou McFay. Ele perdeu o juízo, enlouqueceu por completo. Vai dar a maior encrenca.

— Qual é o problema? — perguntou Lunkchurch, vendo o jornal dobrado, preocupado com a pressa incomum de Jamie. Ele próprio ia buscar seu jornal, antes da sesta, e parara por um momento para urinar na sarjeta. — O duelo saiu no jornal, foi noticiado?

— Que duelo? — A voz de McFay era ríspida. Circulavam rumores de que ocorreria a qualquer momento, embora até agora ninguém tivesse sussurrado que seria depois de amanhã, na quarta-feira. — Pelo amor de Deus, pare de espalhar essa história!

— Sem ofensa, meu velho. — O homem enorme e corado abotoou-se, levantou o cinto por cima da pança, só para que escorregasse de novo. — Mas qual é o problema? Ele cutucou o jornal, antes de acrescentar:— O que o porra do Nettlesmith escreveu que o deixou tão irritado?

— Apenas a mesma coisa de sempre — respondeu McFay, evitando o verdadeiro motivo. — Seu editorial afirma que a esquadra está quase pronta para atacar, o exército afia suas baionetas, e dez mil sipaios virão da índia para nos ajudar.

— Tudo mentira!

— E isso mesmo. Ainda por cima, o desgraçado do governador está fazendo tudo o que pode, como sempre, para arruinar a economia de Hong Kong. Nettlesmith republicou um editorial do Times elogiando o plano de queimar nossas plantações de ópio em Bengala, replantar tudo com chá, uma idéia que vai provocar ataques cardíacos por toda a Ásia... como se os paladares em qualquer lugar fossem se satisfazer com aquela porcaria de Darjeeling! Os idiotas vão nos arruinar, e também a economia britânica, ao mesmo tempo. Tenho de ir agora. Vejo-o mais tarde, na reunião.