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— Essas porras de reuniões! Uma porra de perda de tempo! A porra do Governo! Devíamos ir para as porras das barricadas, como as porras dos franceses! Deveríamos estar bombardeando Iedo neste momento! Wee Willie não tem colhões e quanto a porra do Ketterer...

Lunkchurch continuou a vociferar por muito tempo depois de Jamie ter se afastado. Outras pessoas nas proximidades franziram o rosto e depois aceleraram os passos, a caminho do escritório do jornal.

Malcolm Struan levantou os olhos quando Jamie bateu na porta. Viu o jornal no mesmo instante.

— Ótimo. Eu já ia perguntar pelo jornal.

— Fui buscar um exemplar. Um passarinho me sussurrou que deveria.

— Ahn... — Malcolm sorriu. — Minha carta foi publicada?

— Deveria ter me avisado, a fim de que eu pudesse pensar numa maneira de diminuir o impacto.

— Acalme-se, pelo amor de Deus! — disse Malcolm, jovial. Ele pegou o jornal, abriu na seção de cartas. — Não há nada de errado em assumir uma posição moral. O ópio é imoral, e o mesmo acontece com o contrabando de armas, e não falei nada antes porque queria surpreendê-lo também.

— E pode ter certeza de que conseguiu! Isto vai enfurecer todos os mercadores por aqui e pelo resto da Ásia e vai provocar reações. Precisamos de amigos, tanto quanto eles precisam de nós.

— Concordo. Mas por que minha carta deve provocar reações? Ah, aqui está!

A carta ocupava a posição principal, com o título em destaque: CASA NOBRE ASSUME POSIÇÃO NOBRE!

— Bom título. Gosto disso.

— Desculpe, mas eu não gosto. Vai provocar reações porque todos sabem que temos de usar essas mercadorias ou estamos perdidos. Você é o tai-pan, mas não pode... — Jamie fez uma pausa. Malcolm sorria, imperturbável. — O que me diz dos fuzis para Choshu? Aceitamos o dinheiro deles, embora você concordasse em preteri-los pelo outro homem, Watanabe, lorde qualquer coisa... e a encomenda que aumentou para cinco mil?

— Tudo no momento oportuno.

Malcolm permanecia calmo, embora lembrasse que a mãe cancelara a encomenda, e que ele a reconfirmara no mesmo instante, pelo correio mais rápido possível. Fora uma tolice da mãe, que nada entendia do Japão. Mas não importa, mais uns poucos dias, e ela será contida.

— Enquanto isso, Jamie — acrescentou ele, descontraído —, não há mal nenhum em assumir uma posição moral em público, não é mesmo? Não acha que devemos nos inclinar aos tempos?

McFay piscou os olhos, aturdido.

— Está querendo dizer que se trata de uma artimanha? Para confundir oposição?

— Inclinar aos tempos — repetiu Malcolm, feliz.

A carta defendia a proscrição do ópio e de armas, conforme o almirante queria e o enquadrava como partidário da veemente posição do almirante e do novo plano proposto pelo governo para a Ásia: Devemos encontrar meios imediatos de alterar nosso comércio, para a maior glória de sua majestade a rainha, Deus a abençoe e de nosso império britânico. A Casa Nobre orgulha-se de tomar a dianteira, escrevera ele, entre outras efusões floreadas, assinando O tai-pan da Struan, como seu pai e avô haviam feito, em cartas para a imprensa.

— Achei que expus tudo muito bem, Jamie. Não concorda?

— Claro que sim. Você me convenceu. Mas se é apenas para... — Ele já ia dizer “amansar”, mas a quem e por quê? — Se é apenas uma manobra, por que fazer isso? Não poderia haver pior momento. Você vai ser contestado na reunião.

— Pois que o façam.

— Vão pensar que enlouqueceu.

— Deixe-os pensar o que quiserem. Dentro de poucas semanas terão esquecido e, de qualquer maneira, já estaremos em Hong Kong a essa altura. —Malcolm estava radiante, no maior bom humor. — Não se preocupe. Sei exatamente o que estou fazendo. Faça-me um favor: mande um recado para o almirante, dizendo que eu gostaria de vê-lo antes do jantar. Também quero falar com Marlowe, assim que ele desembarcar. Os dois jantarão conosco às oito horas, não é?

— É, sim. Ambos aceitaram. — McFay suspirou. — Quer dizer que vai continuar a me manter em suspense sobre o motivo?

— Já disse que não precisa se preocupar. Tudo está perfeito. Agora, muito mais importante, precisamos preparar as encomendas de sedas para a próxima temporada. Cuide para que Vargas tenha os livros atualizados. Quero conversar com o nosso cambista sobre a moeda que usaremos e os recursos para a operação o mais depressa possível... e não se esqueça de que amanhã Angel e eu passaremos o dia inteiro ausentes, com Marlowe, a bordo da Pearl.

Ele teria dançado uma jiga, se pudesse, mas as pernas e a barriga doíam mais do que o habitual. Não tem importância, pensou, amanhã é o grande dia. Já estou quase conseguindo o que quero, e depois que se danem todos.

Jamie achava-o muito estranho, não entendia mais nada. Cada navio procedente de Hong Kong trazia cartas para ambos, de Tess Struan, cada vez mais vituperiosas. Apesar disso, Malcolm se mostrava completamente à vontade, tal como era antes da Tokaidô, bem-humorado, lúcido, atento, dedicado aos negócios, embora ainda em extremo desconforto e andando mal. Ainda por cima, havia o risco iminente do duelo na quarta-feira, depois de amanhã.

Por três vezes, McFay procurara Norbert Greyforth, na tentativa de promover um acordo, até recrutando a ajuda de Gornt, mas nada fora capaz de dissuadi-lo.

— Jamie, diga àquele sujeito que tudo depende dele — respondera Norbert. Afinal, foi ele quem começou esta merda. Se me pedir desculpas, eu aceitarei... se for um pedido público, e põe público nisso!

McFay mordeu o lábio. Seu último recurso era sussurrar a hora e o local para Sir William, mas detestava a idéia de violar seu juramento solene.

— Vou me encontrar com o patife do Gornt para acertar os últimos detalhes, às seis horas.

— Ótimo. Lamento que você não goste de Gornt, Jamie, pois ele é um bom sujeito. É mesmo. Convidei-o para esta noite. — Imitando o sotaque escocês, Malcolm acrescentou, divertido: — O prazer da sua companhia ao jantar.

McFay sorriu, acalmado pela cordialidade.

— Posso...

Uma batida na porta interrompeu-o.

— Entre.

Dmitri entrou, como um furacão, deixando a porta aberta em sua esteira.

— Você enlouqueceu, Malc? Como a Struan pode apoiar esses idiotas sobre o ópio e armas?