— Não há mal nenhum em assumir uma posição moral, Dmitri.
— Mas é mesmo uma loucura! Se a Struan assumir essa posição, nós todos teremos de lutar contra a correnteza! O desgraçado do Wee Willie vai usar isso para...
Ele parou de falar, quando Norbert Greyforth também entrou na sala, sem bater.
— Você ficou louco? — berrou Norbert, inclinando-se sobre a mesa e sacudindo o jornal diante do rosto de Malcolm. — O que diz do nosso acordo para agirmos juntos?
Malcolm fitou-o nos olhos, odiando-o, no mesmo instante lívido.
— Se quer um encontro, marque antes — disse ele, com extrema frieza, mas controlado. — Estou ocupado. E agora saia. Por favor!
Norbert corou, também advertido por Sir William de que deveria se comportar ou sofrer as conseqüências. Seu rosto contraiu-se em raiva.
— Quarta-feira, cedo, por Deus! Não deixe de aparecer! Ele virou-se e saiu, batendo a porta.
— Um desgraçado grosseiro — murmurou Malcolm.
Em circunstâncias normais, Dmitri teria rido, mas agora sentia-se preocupado demais.
— Já que estamos no assunto, é melhor eu lhe dizer logo que não vou participar da “reunião” da quarta-feira.
— Isso não é problema, Dmitri. — A cor começava a voltar ao rosto de Malcolm. — Ainda tenho a sua palavra de honra de cavalheiro de que não vazará coisa alguma.
— Claro. — Dmitri não pôde mais se conter e explodiu: — Mas não faça isso! Pode ser gravemente ferido!
— Já estou gravemente ferido agora, meu caro. Por favor, não se preocupe Se Norbert comparecer ao encontro, ele...
Malcolm ia dizer que ele podia ser considerado um homem morto, e tentou explicar o plano de Gornt a Dmitri — já o explicara a McFay, que o aprovara relutante, como viável —, mas decidiu não fazê-lo. Em vez disso, ele comentou:
— Já ofereci um acordo particular a Norbert, mas ele rejeitou. E não vou rastejar em público. E já que você está aqui, Dmitri, o que pode me dizer sobre a Colt Armaments? Ouvi dizer que a Cooper-Tillman tem um bloco de ações que está querendo vender. Eu gostaria de comprar.
— Mas como soube? — Dmitri lançou um olhar para McFay, também atônito, mas conseguindo esconder. — Onde ouviu essa história?
— Um passarinho me contou.
Malcolm não deixou sua exultação transparecer. Edward Gornt lhe dera essa informação, entre outras sobre a Brock e a Cooper-Tillman, para provar sua sinceridade sobre a grande informação que revelaria a respeito dos Brocks.
— Por que esperar para me contar, Sr. Gornt? — indagara ele. — Se a informação é tão boa quanto diz, será preciso cuidar de tudo imediatamente.
— Tem razão, tai-pan, terá de ser o mais depressa possível. Mas vamos deixar como combinamos. Quarta-feira será o dia. Enquanto isso, já que teremos um relacionamento longo e feliz, por que não abandonamos o “senhor”? Chame-me apenas de Gornt e continuarei a tratá-lo de “tai-pan”, até nos encontrarmos em Xangai ou Hong Kong... depois que Sir Morgan estiver arruinado. Talvez então possamos usar o primeiro nome, está bem?
Malcolm observou Dmitri, seu excitamento aumentando. Havia muitas coisas boas ocorrendo agora.
— O que me diz, companheiro? Jeff Cooper está mesmo disposto a vender e você tem a autoridade necessária para negociar?
— Estou autorizado a negociar, mas...
— Não há nenhum mas. A autorização é por escrito?
— É, sim, e ele pode vender a metade. Ao preço certo... 16,50 por ação.
— Nada disso... é sua proposta de negociante. Dou 13,20, nem um centavo a mais. Podemos assinar uma carta de intenções, com a data de hoje. Quarenta mil ações.
Dmitri ficou espantado, mas logo se recuperou... quarenta mil ações eram exatamente a quantidade certa. O preço de 13,20 era baixo. Oferecera as ações a Morgan Brock, que propusera 12,80, um preço de liquidação, com um ano para pagar, o que tornava a proposta inaceitável, embora fosse quase impossível encontrar um comprador para um bloco de ações tão grande. Onde Malc obtivera a informação?
— O preço de 13,20 está longe de ser suficiente.
— Pago 13,20 hoje, amanhã será 13,10. E na quarta-feira retiro a oferta. — Gornt lhe dissera que Cooper precisava vender depressa, para investir em um novo empreendimento nos Estados Unidos, a fabricação de couraçados... a serem vendidos a qualquer marinha. — Tenho bastante tempo, mas o mesmo não acontece com o velho Jeff.
— O que está querendo dizer com isso?
— Apenas o que eu falei, que tenho tempo, e Jeff não tem. — Uma pausa, e Malcolm acrescentou, joviaclass="underline" — Nem as marinhas da União ou Confederação, com a guerra indo tão mal para os dois lados.
— Besteira de seus espiões — disse Dmitri. — Não há negócio abaixo de 15,20.
— Sonhador. Pago 13,20 em ouro, um saque à vista em nosso banco, assim que chegar a Boston.
Dmitri abriu a boca, mas Jamie McFay apressou-se em intervir:
— Tai-pan, pode ser uma boa idéia levar em consideração...
—... obter a aprovação de HK — concluiu Malcolm por ele. — Ora, Jamie, já discutimos isso, e resolvemos o assunto de uma vez por todas. — A voz era calma, num tom que não admitia contestação. — Certo?
— Certo. Desculpe.
Ainda muito calmo, Malcolm indagou:
— E então, Dmitri, sim ou não?
Dmitri fitava-o com um respeito renovado. O pagamento imediato já o levara a tomar sua decisão.
— Negócio fechado.
Ele estendeu a mão e Malcolm apertou-a. McFay disse:
— Prepararei o documento esta tarde; ficará pronto para assinarem às cinco horas. Combinado?
— Ótimo. Obrigado por ter vindo, Dmitri. É sempre bem-vindo. Não se esqueça do jantar às oito e meia.
Depois que Dmitri se retirou, McFay não pôde mais se conter.
— É um bocado de dinheiro.
— Dá 528 mil dólares, para ser mais preciso. Mas a Colt tem uma encomenda de cem mil fuzis de um tipo radicalmente novo. Quando nossa carta de crédito chegar a Boston, as ações já terão dobrado de preço e ganharemos meio milhão de dólares.
— Como pode ter certeza?
— Apenas tenho.
— Vai assinar a nota promissória?
— Vou. E se me disser que não tenho autoridade, por causa do que minha mãe disse ou deixou de dizer, não darei a menor atenção, e assinarei de qualquer maneira. — Malcolm acendeu um charuto, e continuou: — Se a nota promissória não for honrada, vai provocar uma reação, e arruinará a Struan como nenhuma outra coisa em nossa história. Sou o tai-pan, quer goste ou não, até renunciar ou morrer, não importa o que ela diga.