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Os dois observaram um anel de fumaça subir e desaparecer, e depois McFay acenou com a cabeça, devagar, suas apreensões superadas pela estranha segurança e autoridade de Malcolm, como nunca experimentara antes.

— Sabe o que está fazendo, não é?

Os olhos de Malcolm se iluminaram.

— Sei de muitas coisas que ignorava quando vim para cá. Por exemplo, Se você insistir em sair... Ora, Jamie, tenho certeza de que no fundo do coração já tomou a decisão. Por que não deveria? Foi tratado de maneira vergonhosa, e sei que não o ajudei muito, mas tudo isso já passou. Quero que saiba que eu faria a mesma coisa se estivesse no seu lugar. Já decidiu, não é mesmo?

McFay engoliu em seco, desarmado.

— Já, sim. Vou sair, mas só depois que os negócios da Struan aqui estiverem no nível ideal, daqui a seis meses, ou por aí, a menos que ela me mande embora antes. Por Deus, não quero sair, mas devo!

Malcolm riu.

— Você assumiu uma posição moral.

McFay riu também.

— É uma loucura.

— Não é, não. Eu faria a mesma coisa. E tenho certeza de que será um grande sucesso, tanto que cem mil dos dólares que acabei de ganhar... tenho de fazer isso, Jamie, ninguém pode fazê-lo... serão um investimento na McFay Trading. Por...

Ele ia dizer quarenta e nove por cento das ações, mas resolveu mudar, para permitir que McFay mantivesse as aparências, e pensou: Você merece, meu amigo. Jamais esquecerei aquela correspondência pela qual poderia ser enforcado, pois tenho certeza que Sir William descobriria.

—... uma participação de sessenta por cento?

— Vinte e cinco — disse McFay, sem pensar.

— Cinqüenta e cinco?

— Trinta e cinco.

— Quarenta e nove por cento?

— Negócio fechado!

Os dois riram e Malcolm disse o que McFay estivera pensando:

— Se as ações dobrarem. — E acrescentou, sério: — Se tal não acontecer, encontrarei outro meio.

McFay fitou-o pelo que pareceu um longo tempo, a mente repleta de perguntas, mas sem respostas. Por que Malcolm mudou? Por causa de Heavenly? O negócio da correspondência? O duelo? Claro que não. Por que ele quer conversar com o almirante? Por que gosta de Gornt, que é acima de tudo um astuto?

E por que falei sim, que pretendo ir embora, antes de pensar duas veze, tomando uma decisão em que venho pensando há meses, que devo assumir o risco antes de morrer? Ele viu Malcolm observando-o, fraco no corpo, mas tranqüilo e firme. Retribuiu o sorriso, contente por estar vivo.

— Sei disso. E tenho certeza que vai conseguir.

Angelique fazia sua sesta antes do jantar, um fogo de carvão brilhando alegre no braseiro. As janelas estavam fechadas contra o vento, e ela se enroscava sob as cobertas e lençol de seda, meio adormecida, meio desperta, uma das mãos entre as pernas, como Colette lhe ensinara no convento, quando se deitavam na mesma cama depois que as freiras haviam deixado o dormitório, a roncar por trás das cortinas de seus cubículos. Acariciando-se, beijando-se, sussurrando e rindo sob as cobertas, as duas jovens partilhavam segredos, sonhos e desejos, fingindo serem amantes adultas... como era descrito nos folhetins românticos que circulavam nas ruas, proibidos, mas contrabandeados pelas criadas, e passando de mão em mão entre as alunas, tudo faz-de-conta, saudável, divertido e inofensivo.

Sua mente se projetara para Paris, ao encontro do futuro maravilhoso pela frente, Malcolm contente ao seu lado, ou já tendo saído para o escritório da Struan, agora sediado em Paris, rico e alto, seus problemas de saúde apenas uma lembrança distante, os problemas dela nem sequer uma lembrança, um filho no quarto ao final do corredor da mansão, velado por uma babá e outras criadas, o corpo dela outra vez forte e saudável, como agora, o parto fácil. Faria uma visita com Colette à fábrica de seda fabulosamente bem-sucedida da Struan, que ela persuadira Malcolm a construir, depois de aprender tudo sobre a cultura do bicho-da-seda. Ela acabara de escrever:

Ah, Colette, esses insetos são extraordinários, comem folhas de amoreira como alimento, depois a gente seca os casulos e desenrola a seda... Nunca pensei que pudesse me sentir tão interessada. Vargas é o meu informante secreto, e trouxe o vendedor de seda para me mostrar alguns, mas preciso tomar o maior cuidado. Comecei a falar sobre a minha idéia para uma fábrica com Malcolm e Jamie, e eles riram. Malcolm me disse para não ser tola, a produção de seda era um negócio bastante complexo (como se eu não soubesse) e que não devia preocupar minha cabeça com coisas assim. Acredito que eles querem que sejamos casulos, para nos usarem e abusarem a seu capricho, e isso é tudo. Colette, mande-me todos os livros sobre seda que puder encontrar...

Seria maravilhoso possuir seu próprio escritório, e uma porção de dinheiro, pensou ela. Vivendo em Paris, poderei fazer visitas a Londres, de vez em quando a Hong Kong, com jantares, saraus e bailes espetaculares para meu príncipe encantado e seus amigos especiais...

Ela olhou para a carta, em cima da escrivaninha, já lacrada. Mais segredos partilhados, pelo menos em parte.

Esse Edward Gornt está se tornando um amigo de verdade, encantador e atencioso, um amigo de verdade, não como André. Tenho certeza, minha querida Colette, que ele será um amigo pelo resto da vida, porque Malcolm também parece gostar de sua companhia. O que é muito estranho, já que Edward trabalha para aqueles horríveis Brocks, sobre os quais já lhe escrevi, e para Norbert Greyforth, que parece mais venenoso a cada dia que passa, como o bruxo que ele é! Esta noite teremos outro GRANDE sarau. Todos vão comparecer, André tocará ao piano, Edward é um dançarino e tanto, leve como uma borboleta...

Ela não escrevera que na última vez em que haviam dançado, em um jantar oferecido por Sir William, ele segurara sua mão de maneira diferente, perigosa, com pressões suficientes para serem expressivas, até um momento em que seu dedo mínimo se contraíra para tocar no dela: a linguagem dos amantes, quero você na cama, sim ou não, e quando... não diga não!

Ela retirara a mão, com frieza, firme. Gornt nada dissera, seus olhos sorriam, e ela sabia que ele sabia que não estava realmente zangada, apenas era inacessível, comprometida.

E também não estava zangada com André, zangada de verdade. Poucos dias antes, haviam se encontrado por acaso na legação francesa.

— Você está muito bem, Angelique. Fico contente em vê-la. Podemos conversar por um momento, em particular?

Ela respondera que sim, e quando se encontravam a sós, André falara do dinheiro que lhe emprestara.

— Estou numa situação difícil. Poderia me pagar, por favor?

— Mas pensei... que a outra transação cobriu isso.

O coração de Angelique quase parara, ao lembrar-se do estratagema dos brincos perdidos.

— Lamento, mas não cobriu. Só deu para pagar os conselhos e medicamentos da mama-san.