Ela corara subitamente.
— Combinamos não mencionar o assunto, nunca mais, não se lembra? — murmurara ela, querendo gritar com ele por violar o acordo solene. — Nunca aconteceu, foi isso o que acertamos... não passou de um pesadelo!
— Concordo, nunca aconteceu, mas foi você quem mencionou a transação, Angelique, e eu não falei a respeito, apenas sobre o dinheiro. Sinto muito, mas preciso com urgência.
O rosto de André se tornara frio. Cautelosa, ela reprimira sua raiva, amaldiçoando-o por perturbar sua paz. Convencera-se de que nada jamais acontecera. e exceto pelo único homem que podia contestá-la, nada acontecera mesmo. Essa era a verdade. Exceto para ele.
— Sobre o dinheiro, meu caro amigo, eu o devolverei assim que puder. Malcolm não me dá dinheiro, como sabe, apenas me deixa assinar vales.
—- Neste caso, talvez seja melhor providenciarmos outra “perda”.
— Não! — protestara ela, a voz suave, pondo a mão no braço de André para atenuar o relance de irritação. — Essa não é uma boa idéia.
Embora ela tivesse eliminado todo o incidente da mente, em sua maior parte, sempre que voltava para atormentá-la, em particular à noite, tinha consciência de que fora um erro terrível.
— Talvez eu possa pensar em outro meio.
— Preciso do dinheiro agora, até quarta-feira, o mais tardar. Sinto muito.
— Tentarei arrumá-lo. Juro que tentarei.
E fora o que fizera. No dia anterior falara com Henri Seratard, suplicara em lágrimas, dizendo que precisava do dinheiro para uma surpresa que faria a Malcolm, que sempre ficaria em dívida com ele, e assinara outro papel, apresentando seu anel de noivado de diamante como garantia.
Com toda sensatez, tomara emprestado o dobro do que devia. E naquela manhã pagara André, que lhe agradecera. Não havia motivo para continuar zangada com ele. É um bom amigo, de confiança, e me emprestou o dinheiro. Para que eu precisava? Esqueci, Sans faire rien, era uma dívida saldada. Entregara a metade do resto a McFay.
— Jamie, poderia enviar isto para minha querida tia em Paris? Ela é pobre e meu querido tio também.
Sentira-se satisfeita por finalmente poder ajudá-los, e mais ainda porque, como esperava, McFay contara a Malcolm, que a interrogara a respeito.
— Ah, meu querido, pedi emprestado a monsieur Seratard. Não queria pedir dinheiro a você e não podia mandar um vale assinado. Espero que não se importe, mas ofereci algumas jóias como garantia.
Ele a censurara e dissera que cuidaria da dívida com Seratard, mandaria Jamie providenciar um fundo para ela, contra o qual poderia sacar, bastava avisá-lo do destino do dinheiro, e que dobraria o que desejasse enviar aos tios.
E tudo muito fácil quando se usa a inteligência. Um calor percorreu seu corpo ao recordar como lhe agradecera por sua gentileza, beijando-o afetuosamente e como ele retribuíra. Teria gostado de ir além, muito além.
Seus dedos a distraíram. A sensualidade suave e experiente agradou-a, fechou os olhos e se imaginou com Colette, só que isso não durou muito. Como sempre, ele assomou em primeiro plano à sua mente, intenso, quase vivo, trazendo os detalhes do último encontro, quando ela se tornara deliberadamente devassa e fizera tudo que sonhara ser possível... para salvar sua vida, sem saber que gostaria tanto quanto ele.
Querida Virgem Maria, ambas sabemos que foi apenas para salvar minha vida... não é verdade? Mas também é verdade... ah, como sou afortunada em poder lhe falar com toda franqueza, diretamente, sem ter de passar por aquele horrível padre Leo... mas também é verdade, aqui entre nós, mulheres, que de alguma forma devemos nos livrar dele, da lembrança das duas noites e do êxtase, antes que isso me leveà insanidade.
Raiko estava irritada.
— Furansu-san, aceitarei este pagamento parcial, mas nosso acordo foi bastante claro e objetivo.
— Sei disso. — André detestava ficar devendo, uma fobia, para ela mais do que a qualquer outra pessoa, não apenas porque a obrigação de pagar dentro do prazo vinha lhe causando pesadelos, mas também porque Raiko controlava sua Hinodeh por completo, e suspenderia o relacionamento sem hesitação, caso não cumprisse o acordo. E neste caso ele se mataria. — Muito em breve poderei lhe dar um grande pagamento. Brincos.
— Ah, então é isso? Ótimo. — Raiko sorriu. — Posso presumir que Hinodeh continua a seu gosto, ainda o agrada?
Suas preocupações o abandonaram por um momento abençoado.
— Ela... é tudo com que eu sonhava. Mais até. Raiko sorriu de uma maneira estranha.
— É insensato ser tão franco, meu amigo.
Um dar de ombros gaulês.
— Você me prestou o favor de uma vida inteira. Não tenho palavras suficientes para agradecer.
Os olhos faiscaram no rosto redondo de Raiko, já inchado de tanto beber, embora ainda fosse o crepúsculo. A maquilagem era boa, o quimono caro, o fim de tarde frio, mas seus aposentos eram aquecidos, e toda a estalagem convidativa.
— Ouvi dizer que sua princesa gai-jin anda muito saudável.
— É verdade. — Por um momento, André pensou em Angelique, com sua permanente sexualidade. — Acho que ela daria uma excelente dama da noite.
Raiko inclinou a cabeça para um lado, incapaz de resistir à tentação de levar o comentário a sério.
— Seria muito interessante para mim. Poderia obter os melhores preços... os melhores mesmo... muitos em Iedo pagariam alto para experimentar uma pessoa assim. Conheço um rico mercador de arroz, muito rico e muito velho, ela não teria a menor dificuldade para satisfazê-lo, que pagaria uma grande quantia para ser o primeiro a examinar um portão de jade desse tipo, e seria fácil ensinar a ela como se tornar uma virgem de novo, neh?
André riu.
— Falarei com ela. Talvez um dia...
— Ótimo. O melhor preço e tudo em segredo. Esse mercador de arroz... ak quanto ele pagaria! Ela não apresenta outros sinais?
— Outros sinais? Que tipo de sinais?
— O medicamento varia para diferentes damas. Às vezes pode torná-la muito mais... muito mais ardentes, mais difíceis de satisfazer. Às vezes aumenta a possibilidade de engravidar, às vezes destrói toda e qualquer possibilidade. Estranho, neh?
Ele não se sentia mais divertido.
— Não me contou isso antes.
— Faria alguma diferença?
Depois de um momento, André sacudiu a cabeça. Ela tomou um gole de saquê.
— Por favor, perdoe-me por falar em dinheiro, mas um oban de ouro não compra mais o que deveria comprar. As autoridades aviltaram nossa moeda e fedem, como peixe de oito dias misturado com bosta de cachorro!