— Tem toda razão.
Ele não entendera todas as palavras, mas absorvera o sentido de autoridade e peixe podre e sentia a mesma repulsa. Seratard recusara-se a dar o adiantamento obre o salário que esperava, alegando escassez de fundos na legação.
— Mas só estou pedindo o que terá de me pagar ao longo do ano, Henri. Apenas umas poucas moedas de ouro. Não sou o seu mais valioso assessor aqui?
— Claro que é, meu caro André, mas não se pode tirar vinho de um barril vazio... apenas uma enxaqueca!
Ele bem que tentara outro recurso, mas fora em vão. Portanto, agora só lhe restavam dois caminhos. Angelique ou aquela mama-san.
— Raiko-san, você é muito esperta, eu acho. Deve haver uma maneira de nós dois aumentarmos o dinheiro normal, neh? O que podemos vender?
Ela baixou os olhos para a mesa, a fim de esconder a expressão que havia neles, e indagou:
— Saquê?
Serviu sem esperar por uma resposta. Por ele, o saquê era frio. Os olhos de Raiko eram fendas mínimas, e se perguntou até que ponto podia confiar nele. Como um gato pode confiar num camundongo acuado.
— Informação tem um preço. Neh?
Ela falou em tom de indiferença. André fingiu estar surpreso, deliciado por ela ter mordido a isca com tanta facilidade. Até demais? Provavelmente não. Ela ser apanhada pelo Bakufu, ou ele por seus superiores, acarretava a mesma penalidade: uma morte agoniada.
Sir William pagaria muito bem pela informação certa, Henri não pagaria coisa alguma... que Deus despachasse os dois para o inferno!
— Raiko-san, o que está acontecendo em Iedo?
— Mais importante, o que está acontecendo aqui? — disse ela no mesmo instante, iniciando as negociações. — Guerra, não é? Terrível! A cada dia, mais soldados disparando no estande de tiro, mais canhões atirando, assustando minhas damas.
— Por favor, fale mais devagar.
— Ah, sinto muito.
Raiko passou a falar de forma mais pausada, dizendo como a Yoshiwara se encontrava assustada, descrevendo um quadro local interessante, mas sem nada que ele já não soubesse. E André disse coisas sobre a esquadra e o Exército que tinha certeza que ela também já sabia. Beberam em silêncio, e depois Raiko murmurou:
— Acho que certas autoridades pagariam muito para saber o que o líder gai-jin planeja fazer, e quando.
Ele acenou com a cabeça.
— Sei disso. Também acho que o nosso líder pagaria muito para saber tudo sobre as forças samurais do Nipão, onde se concentram, quem comanda, sobre esse tairo que envia mensagens tão grosseiras.
Raiko exibiu um sorriso radiante, levantou sua taça de porcelana.
— A uma nova sociedade. Muito dinheiro por uma pequena conversa. Ele brindou e disse, cauteloso:
— Uma pequena conversa, sem dúvida, mas deve ser uma pequena coisa importante, para se obter um dinheiro de verdade.
Raiko simulou estar chocada.
— Por acaso sou uma prostituta de terceira classe sem qualquer cérebro? Sem honra? Sem compreensão? Sem ligações, sem... — Mas ela não pôde continuar assim, e soltou uma risada. — Nós dois nos entendemos muito bem. Venha amanhã, ao meio-dia, e conversaremos. Agora, vá ver sua adorável Hinodeh. Aproveite-a, e aproveite também a vida, enquanto todos nós ainda a temos.
— Obrigado, mas não agora. Por favor, avise-a que chegarei mais tarde. — André sorriu para ela, apreciando-a. — E você, Raiko?
— Não tenho nenhuma Hinodeh para procurar, com que sonhar, para escrever poemas, e me encher de êxtase. Outrora foi diferente, mas agora sou mais sensata, gosto de saquê e de ganhar dinheiro, de ganhar dinheiro e saquê. Saia agora. — Ela soltou uma risada brusca. — Mas volte amanhã. Ao meio-dia.
Depois que ele se retirou, Raiko mandou que as criadas trouxessem mais saquê, só que desta vez quente, e não mais a incomodassem. Vendo tanta cordialidade no rosto de André, misturada com a profundeza de sua paixão por Hinodeh, ela experimentara o início da tristeza, e por isso o despachara.
Não podia permitir uma testemunha de sua angústia, das lágrimas abjetas que derramou, incapaz de contê-las, incapaz de controlar seu sofrimento, ao mesmo tempo em que desprezava a fraqueza interior que lhe impunha um frenético anseio por sua juventude, pela moça que já fora, desaparecida há bem pouco tempo atrás, para nunca mais voltar.
Não é justo, não é justo, não é justo, lamentou-se ela, erguendo a taça. Não sou a velha megera que contemplo no espelho, eu sou eu, Raiko, a bela, cortesã de segunda classe, eu sou eu, sou eu, sou eu...
— Ah, Otami-sama — disse o shoya. — Boa noite. Sente-se, por favor. Chá? Saquê? Lamento incomodá-lo de novo, mas acabo de receber uma mensagem de meus superiores. Chá?
Hiraga sentou na almofada em frente, na sala agradável, contendo sua impaciência. Agradeceu e aceitou a xícara obrigatória.
— Como vai? — perguntou ele, polido, o coração batendo mais depressa do que gostaria.
— Preocupado, Otami-sama. Parece que os gai-jin estão muito determinados desta vez, há movimentos de tropas em demasia, os navios preparam seus canhões, correm rumores sobre a chegada de mais navios. Soube alguma coisa de seu gai-jin Taira?
Hiraga já pensara a respeito. Tyrer e todo o pessoal da legação andavam agtados desde o ultimato do tairo Anjo, Sir William gritando mais do que o habitual, Johann o intérprete passando horas trancado com Tyrer, reescrevendo cartas para o Bakufu, só de vez em quando lhe pedindo para refinar uma frase.
— É mais fácil se me mostrar a carta, Taira-sama — dizia ele, sempre, querendo saber o que seria enviado.
— Está certo, mas só esta frase, por enquanto... — sempre respondia Taira, inquieto, todos os dias a mesma coisa, o que aumentava a apreensão de Hiraga.
Era evidente que já não confiavam nele como antes, e isso depois que passara dia e noite trabalhando para aprender a língua deles, e lhes dera uma porção de informações. Cães gai-jin desprezíveis, pensara ele, com medo de que a qualquer dia Sir William pudesse ordenar sua expulsão, já que seu cartaz ainda ocupava lugar de destaque na casa da guarda dos samurais, com as patrulhas de vigilantes verificando todos os japoneses que entravam e saíam da colônia.
As patrulhas de vigilantes não deveriam ser permitidas. Os gai-jin são idiotas demais... com o poder marítimo que possuem, eu não permitiria “guardas inimigos” num raio de uma légua! Anjo também é um idiota, por se enfurecer com eles, usando maneiras tão vis, tanta arrogância, quando a esquadra ainda se encontra aqui. Todos enlouqueceram no Conselho de Anciãos!
— As autoridades gai-jin me dizem muitas coisas, shoya — murmurou ele. — Por sorte, estou a par de seus segredos. É possível que eu possa avisá-lo a tempo se algum perigo lhe ameaçar. Enquanto isso, aconselhei-os a tomarem cuidado para não incomodá-lo, nem à aldeia.