O shoya inclinou-se até o tatame, agradecendo, e depois comentou:
— Estes são momentos terríveis, a guerra é terrível, e os impostos serão aumentados de novo.
Otimo, pensou Hiraga, a cabeça doendo, tem condições de pagar, mas isso não vai fazer com que você ou qualquer outro da Gyokoyama coma ou beba menos, nem que suas esposas e mulheres se vistam com menos luxo, mas apenas seus fregueses. Parasitas! Já estão violando as antigas leis da extravagância ao permitirem que suas mulheres usem cores proibidas nas roupas, como o vermelho, e ao fazerem o que bem quiserem em suas casas, sem qualquer repressão do Bakufu, o que é uma estupidez. Quando assumirmos o poder, haverá um ajuste de contas.
Vamos, velho tolo, fale logo o que quer. Não posso desperdiçar a noite inteira aqui, e não vou me rebaixar e perguntar. Tenho mais estudos a fazer esta noite e outro livro para tentar ler.
Talvez eu possa resguardar seus interesses — disse ele, incisivo.
Mais uma vez, o shoya agradeceu.
A mensagem que recebi se relacionava com a moça sobre a qual você perguntou. Há quatro dias lorde Yoshi deixou Quioto, em segredo, pouco antes do amanhecer, com um pequena escolta, disfarçado como um dos soldados. Ela também foi. No grupo... Está se sentindo bem, Otami-sama?
— Estou, sim — balbuciou Hiraga. — Por favor, continue, shoya.
— Claro. No grupo ainda seguia, montada, a cortesã Koiko, a moça que é sua nova maiko...
— Nova o quê? — murmurou Hiraga, o nome “Koiko”, com tudo o que implicava, ressoando por todos os cantos de sua mente.
— Por favor, posso lhe oferecer chá ou saquê? — indagou o shoya, percebendo o impacto de sua notícia. — Ou talvez uma toalha quente. Posso pedir alguma coisa...
— Não, continue — pediu Hiraga, a voz rouca.
— Não há muito mais. Como sabe, a dama Koiko é a mais famosa das cortesãs de Iedo e, agora, a companheira de lorde Yoshi. A moça lhe foi encaminhada há dez dias.
— Por quem?
— Ainda não sabemos, Otami-sama — disse o shoya, guardando essa informação para outra ocasião. — Parece que a dama Koiko aceitou a moça como maiko depois que ela foi pessoalmente entrevistada e aprovada por lorde Yoshi. É a única outra mulher na comitiva. Seu nome é Sumomo Fujahito.
Não há equívoco, Hiraga teve vontade de gritar, esse é o codinome que Katsumata deu a ela; portanto, ele a despachou para o ninho das vespas, mas por quê?
— Em que direção lorde Yoshi seguiu?
— Há quarenta samurais acompanhando-o, todos montados, mas sem carregar estandartes, e o próprio lorde Yoshi, como eu disse, está disfarçado. Saíram de Quioto pouco antes do amanhecer, há três dias, seguindo pela Tokaidô em marcha forçada, a caminho de Iedo, pelo que presumem meus superiores.
O shoya ocultou seu espanto pela veemência no rosto do jovem.
— Marcha forçada, hem? Quando eles poderiam alcançar Kanagawa? — Era a última estação de posta antes de Iedo. — Daqui a dez ou doze dias?
— É bem provável, embora com duas mulheres viajando... minha mensagem dizia que as duas cavalgavam... mas já mencionei isso... ah, sim, esqueci, lorde Yoshi disfarçava-se como um ashigaru comum. Mas suponho que é possível alcançarem Kanagawa nesse prazo.
Atordoado, Hiraga tomou mais saquê, mal sentindo o gosto, agradeceu pela informação, disse que tornariam a se encontrar no dia seguinte e saiu, seguindo para a choupana na aldeia que partilhava com Akimoto.
As ruas da aldeia estavam quietas. As lojas fechavam ao anoitecer. As luzes por trás das telas de shoji faziam com que as habitações parecessem convidativas. Exausto, em turbilhão pela notícia, ele tirou a cartola, passou os dedos pelos cabelos, coçou o crânio, ainda não de todo acostumado à cabeleira ao estilo europeu, embora já mal notasse o desconforto da calça e do colete e se sentisse contente por usá-los, contra o frio da estação. Nem mesmo coçar vigorosamente atenuou a confusão e a dor na cabeça; por isso, ele sentou num banco próximo — difícil se agachar naquela calça justa — e contemplou o céu.
Koiko! Lembrava-se das duas ocasiões em que estivera com ela, uma ocasião à tarde, e a outra durante a noite. As duas haviam sido caras, bem caras, mas valeram a pena. Katsumata lhe dissera que nunca mais encontraria uma textura de pele assim, nem cabelos tão sedosos, nem tamanha fragrância, nem uma risada tão gentil nos olhos de uma mulher, jamais conseguiria experimentar outra vez tanto calor, explodindo pelo corpo, deixando-o com vontade de morrer, numa alegria intensa.
— Ah, Hiraga, morrer naquele momento — dissera Katsumata —, no auge, e levar isso com você para o além... se é que existe um além... seria a perfeição. Ou se não há nenhum além, ter a certeza ao saltar para o nada que experimentou o melhor, morrer no zênite... não seria uma totalidade de vida?
— É verdade, mas acho que é um tremendo desperdício. Por que treiná-la para Yoshi?
— Porque ele é a grande chave para sonno-joi, a favor ou contra, e porque ela é a única que já conheci que pode encantá-lo e, assim, atraí-lo para o nosso lado ou despachá-lo para o além. Ele pode ser a chave para sonno-joi, a favor ou contra... e esse é um segredo nosso, meu e seu... mas é claro que morrerá de qualquer maneira, no momento que nós decidirmos.
Isso significa que Katsumata enviou Sumomo para ser a adaga do ato? Ou foi para manter Koiko a salvo de traidores? Ou até mesmo para resguardar Yoshi de um traidor interno?
Eram muitas perguntas sem respostas.
Hiraga levantou-se, recomeçou a andar, a cabeça doendo mais do que nunca. Amanhã Akimoto irá com Taira a um navio de guerra. Hiraga pedira para ir também, mas não fora atendido.
— Sinto muito — dissera-lhe Tyrer. — Sir William autorizou seu amigo, Sr. Saito, a me acompanhar, mas só ele. E sem armas, é claro. É verdade que a família dele é a maior construtora de navios de Shimonoseki?
— É, sim, Taira-sama. O pai dele é o chefe da família.
— Mas os samurais não têm permissão para tratar de negócios.
— Isso é correto, Taira-sama — dissera ele, pois Tyrer era um discípulo esperto demais, e tinha de fazer com que a mentira parecesse verdadeira. — Mas muitas famílias de samurais fazem acertos com emprestadores de dinheiro e fazedores de barcos para cuidarem do trabalho, neh? A família dele é muito importante.
Uma semana antes, ele introduzira o caso de Akimoto, com essa ficção, duranteuma de suas intermináveis reuniões com Sir William, na qual ficara de pé, respondendo a perguntas, e descobrindo bem pouca coisa em resposta.
— Seu nome é Saito, Sir William, família rica, vir aqui para ver navios da grande marinha britânica, ouvir grandes histórias sobre a grande marinha britânica. Talvez os dois poder trabalhar juntos, poder fazer fábrica de grandes navios.