Ou será que não? É mesmo vital ou apenas tento me enganar? E por que Katsumata mandou Sumomo ficar junto de Yoshi? Ele não a arriscaria por nada.
Nada! Eu não sou nada. Do nada para o nada, fome de novo, sem dinheiro, sem crédito, sem qualquer meio de ajudar. Sem sonno-joi, não há nada que possamos fazer...
E, de repente, foi como se uma pele que encobria parte de sua mente se desfizesse, e ele recordou Jamie explicando alguns aspectos dos negócios dos gai-jin que o haviam chocado. Momentos depois, Hiraga bateu de novo na porta do shoya, e sentou-se à sua frente.
— Shoya, achei que deveria mencionar, para que possa se preparar. Creio que persuadi o mestre em negócios dos gai-jin a recebê-lo em sua mansão, depois de amanhã, pela manhã, para responder a perguntas. Serei seu intérprete.
O shoya agradeceu, e se inclinou para ocultar sua intensa satisfação. Hiraga continuou, a voz suave:
— Jami Mukfey me disse que era um costume gai-jin cobrar um pagamento, por isso e por todas as outras informações que já lhe forneceu. O equivalente a dez koku.
Ele enunciou a quantia espetacular como se fosse uma ninharia, e viu o shoyn empalidecer, mas não explodir, como esperava, por ouvir tamanha mentira.
— Impossível! — disse o shoya, a voz estrangulada.
— Foi o que eu disse a ele, mas Mukfey insistiu que você, como homem de negócios e banqueiro, compreenderia como suas informações eram valiosas, e que até consideraria a possibilidade... — Mais uma vez Hiraga fez um esforço para se controlar. —... de ajudá-lo a começar um negócio, o primeiro de seu tipo, ao estilo gai-jin, para negociar com outros países.
Não chegava também a ser uma mentira total. McFay dissera-lhe que teria interesse em se encontrar e conversar com um banqueiro japonês — Hiraga exagerara a importância do shoya e sua posição na Gyokoyama — que mais ou menos qualquer dia seria conveniente, com um aviso prévio de um dia, e que haveria muitas oportunidades para cooperação.
Ele observou o shoya, exultante ao ver tanta transparência, o homem visivelmente excitado pelas oportunidades potenciais de usar os conhecimentos de Mukfey para o lucro e ser o primeiro a realizar um negócio assim.
— Muito importante ser o primeiro — explicara Mukfey. — Seu amigo japonês compreenderá isso, se for de fato um homem de negócios. É fácil para mim ajudá-lo com os nossos negócios com seda e fácil também para seu amigo japonês fazer a mesma coisa com outros produtos e conhecimentos japoneses.
Hiraga precisara fazer um tremendo esforço para compreender o que o homem dizia. Deixou agora o shoya sonhar e se preocupar por um momento, antes de acrescentar:
— Embora eu não entenda as questões de negócios, shoya, talvez consiga reduzir esse preço.
— Se conseguisse isso, Otami-sama, agradaria muito a um pobre velho, um mero servidor da Gyokoyama, pois eu teria de suplicar a permissão de meus superiores para pagar qualquer coisa.
— Talvez eu possa reduzir para três koku.
— Meio koku talvez seja possível.
Hiraga censurou a si mesmo. Esquecera a Regra de Ouro Número Um, como Mukfey a chamara:
— Ao negociar, seja paciente. Sempre pode reduzir o preço, mas nunca pode tornar a subi-lo. Outra coisa: nunca tenha medo de rir, chorar, gritar ou fingir que vai embora.
Agora, ele disse:
— Pedindo dez, duvido que Mukfey queira reduzir abaixo de três.
— Meio já é muito alto.
Se tivesse uma espada, ele poria a mão no punho e diria: “Três ou corto sua cabeça asquerosa!” Em vez disso, balançou a cabeça, com um ar de tristeza.
— Tem toda razão.
Hiraga começou a se levantar.
— Talvez meus superiores concordem com um.
Hiraga já estava quase na porta.
Sinto muito, shoya, mas eu ficaria constrangido se tentasse barganhar tão barato um...
— Três!
O shoya ficara vermelho. Hiraga tornou a sentar. Demorou um pouco a se ajustar ao novo mundo e só depois disse:
— Tentarei fazer o acerto em três. Estes são momentos difíceis. Acabo de saber que há fome na minha aldeia, em Choshu. Terrível, neh?
Ele viu os olhos do shoya se contraírem.
— É, sim, Otami-sama. Muito em breve haverá fome por toda parte, até mesmo aqui.
Hiraga balançou a cabeça.
— Sei disso.
Ele esperou, deixando que o silêncio se tornasse opressivo. Mukfey explicara o valor do silêncio na negociação, que uma boca fechada no momento oportuno faz com que o oponente se sinta nervoso — pois a negociação é uma luta como qualquer outra — e obtém concessões que você nunca sonharia em pedir.
O shoya sabia que se encontrava acuado, mas ainda não determinara qual a extensão da armadilha, nem o preço que teria de pagar. As informações que recebera até agora valiam dez vezes mais que aquela quantia. Mas seja cauteloso, esse homem é perigoso, esse Hiraga Otami-sama aprende muito depressa, pode ou não estar dizendo a verdade, pode ou não ser um mentiroso. De qualquer forma é melhor ter um samurai astuto do seu lado do que contra.
— Nos tempos difíceis, amigos devem ajudar amigos. É possível que a Gyokoyama possa arrumar um pequeno crédito para ajudar. Como já falei antes, Otami-sama, seu pai e a família são clientes respeitados e valiosos.
Hiraga reprimiu as palavras iradas com que, em circunstâncias normais, teria reagido a tratamento tão condescendente.
— Seria esperar demais — disse ele, tateando o caminho naquele novo mundo de lucro e perda... o lucro de uma pessoa é o prejuízo de outra, explicara Mukfey muitas vezes. — Qualquer coisa que a grande Gyokoyama puder fazer contará com meu reconhecimento. Mas a rapidez é muito importante. Posso ter a certeza de que eles compreenderão isso?
— Seria imediato. Providenciarei tudo.
— Obrigado. Talvez até eles considerem um crédito substancial, talvez um empréstimo direto, quem sabe de um koku... — Ele percebeu o brilho de raiva nos olhos, controlado no mesmo instante, e se perguntou se não teria ido longe demais. — ...por serviços prestados pela família.
Outro silêncio, e depois o shoya disse:
— No passado... e no futuro.
Os olhos de Hiraga se tornaram tão frios quanto os do shoya, embora sua boca também sorrisse. E ainda no novo mundo, não sacou o pequeno revólver que agora sempre carregava, não abriu um buraco nele por sua grosseria.