Выбрать главу

— Claro. — Uma pausa, e Hiraga acrescentou, a voz suave: — Até depois de amanhã, neh?

O shoya acenou com a cabeça, fez uma reverência.

— Até lá, Otami-sama.

Outra vez na rua, oculto pela noite, Hiraga permitiu que seu triunfo se elevasse com sua alma. Um koku inteiro e os créditos, agora só precisava imaginar como trocar os três koku que o gai-jin Mukfey não pedira, nem precisava, em arroz de verdade, ou dinheiro de verdade, que também pudesse enviar para o pai.

Tanto por tão pouco, pensou ele, exultante, ao mesmo tempo em que se sentia conspurcado, precisando de um banho.

Ah, almirante — disse Malcolm Struan —, podemos ter uma conversa em particular?

— Pois não, senhor.

O almirante Ketterer levantou-se, um dos vinte convidados ainda à mesa na sala grande do prédio da Struan, saboreando o porto, que Angelique deixara, antes de se retirar. Ketterer usava o uniforme para a noite, calça até os joelhos, meias brancas de seda, fivelas de prata nos sapatos, mais rubicundo do que o habitual, depois de devorar uma sopa hindu com caril, peixe grelhado, uma porção dupla de rosbife, pastelão de Yorkshire com batatas assadas, legumes importados da Califórnia, um bolo de galinha e faisão, pedaços de salame de porco fritos, seguindo-se uma torta de maçã seca californiana, com bastante do agora famoso creme da Casa Nobre, e, para encerrar, o rerebit, queijo derretido com cerveja e servido sobre torradas. Champanhe, xerez, clarete — Château Lafite de 1837, o ano em que a rainha Victoria subira ao torno —, porto e madeira.

— Bem que estou precisando de respirar um pouco de ar fresco —acrescentou o almirante.

Malcolm seguiu à frente para as portas laterais de vidro, a boa comida e o vinho amortecendo a dor. Fazia um pouco de frio lá fora, mas era revigorante, depois do ar abafado na sala.

— Charuto?

— Obrigado.

Número Um Chen pairava ao fundo com a caixa. Depois que os charutos foram acesos, ele desapareceu na fumaça.

— Viu minha carta hoje no Guardian, senhor?

— Vi, sim. Apresentou seus argumentos muito bem.

Malcolm sorriu.

— Se o ninho de vespas de protestos que agitou na reunião desta tarde serve de indicação, a carta expôs a sua posição com bastante clareza.

— Minha posição? Espero que seja a sua também.

— Claro, claro. Amanhã...

Ketterer interrompeu-o, um tanto brusco:

— Já que partilha uma posição absolutamente correta e moral, eu esperava que um homem com seu incontestável poder e influência assumiria a dianteira, de maneira formal, proibindo todo e qualquer contrabando nos navios da Struan, acabando logo com esse problema.

— Todo o contrabando já foi proscrito, almirante. Mas, devagar se vai bem longe. Dentro de um ou dois meses, isso acontecerá com a maioria.

O almirante limitou-se a altear as sobrancelhas hirsutas, soprou a fumaça do charuto, desviou sua atenção para o mar. A esquadra era imponente, sob as luzes de ancoragem.

— Parece que pode haver uma tempestade esta noite ou amanhã. Eu diria que não é o tempo apropriado para um passeio, ainda mais em se tratando de uma dama.

Ansioso, Malcolm levantou os olhos para o céu, farejou o vento. Não havia sinais de perigo. O tempo no dia seguinte era uma grande preocupação e ele fizera de tudo para verificá-lo. E constatara, para sua alegria, que a previsão era a mesmo dos últimos dias, mar sereno, ventos amenos. Marlowe confirmara antes do jantar e embora ainda não tivesse recebido a aprovação final para zarpar — nem estivesse a par do verdadeiro motivo pelo qual Malcolm precisava embarcar, com Angelique —, a viagem estava marcada, no que lhe dizia respeito.

— É essa a sua previsão, almirante? — perguntou Malcolm.

— Do meu experto em meteorologia, Sr. Struan. Ele aconselhou a cancelar qualquer viagem experimental amanhã. É melhor aproveitar esse tempo para preparar o ataque a Iedo. Não concorda?

O tom do almirante era de jovialidade forçada.

— Sou contra a destruição de Iedo — disse Malcolm, distraído, a mente concentrada naquele novo e inesperado problema, a recusa do almirante em aceitar apenas sua carta, que ele estava confiante que seria mais do que suficiente.

Tudo corre à perfeição, exceto por esse homem, pensou ele, contendo sua raiva, tentando pensar numa saída para o dilema. O Prancing Cloud chegara no prazo previsto e descarregava as mercadorias que trouxera, o capitão Strongbow já informado das novas ordens secretas sobre o horário de partida diferente na quarta-feira, e Edward Gornt também preparado para transmitir a informação sobre os Brocks, assim que o duelo terminasse.

— Também me oponho — disse o almirante. — Não temos ordens formais para a guerra. Mas estou curioso para saber suas razões.

— Usar um martelo para matar uma vespa não apenas é uma tolice, mas também pode provocar hemorróidas.

Ketterer riu.

— Essa é muito boa, Struan! Hemorróidas, hem? Mais da sua filosofia de chinês?

— Não, senhor. Dickens. — Ele esticou as costas, tornou a se apoiar nas bengalas. — Eu ficaria muito satisfeito, senhor, e Angelique também, se pudéssemos embarcar no Pearl, com o capitão Marlowe, e partirmos até ficar fora de vista da terra, amanhã, mesmo que seja por um curto período.

Heavenly o aconselhara: como o precedente que Malcolm vinha usando, o casamento de seus pais, ocorrera entre Macau e Hong Kong, fora de vista da terra, ele deveria fazer a mesma coisa, por medida de segurança.

— Com sua bênção, é claro, almirante.

— Muito me agradaria ver a Casa Nobre tomar a dianteira no Japão. É óbvio que você não dispõe do tempo suficiente. Sugiro que dez dias seriam o necessário para se tomar todas as providências práticas.

Ketterer virou-se para voltar à sala.

— Espere! — exclamou Malcolm, dominado pelo pânico. — Digamos que faça um anúncio neste momento, para todos os presentes, de que vamos cancelar os embarques de armas para o Japão, daqui por diante. Isso o satisfaria?

— Mais importante, isso satisfaria a você? — perguntou o almirante, gostando de ver o homem que representava tudo o que ele desprezava a se contorcer no espeto. — O que me diz?

— O que... o que posso fazer ou dizer, senhor?

— Não cabe a mim dirigir seu “negócio”. — A maneira como Ketterer pronunciou a palavra, impregnada de desdém, fazia com que fosse uma coisa obscena. — Parece-me que tudo o que é bom para o Japão também é bom para a China. Se proibir as armas aqui, por que não fazer a mesma coisa na China, em todos os seus navios... e tomar a mesma decisão em relação ao ópio?