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— Norbert, você ficará com o creme na aposentadoria. Sua gratificação será de cinco mil guinéus por ano se o matar. Por um ferimento grave, mil guinéus.

Sorrindo, ele comentou agora:

— Morgan é muito esperto, formulou um plano infalível. — Para se certificar, testando o rapaz, Norbert acrescentou: — Não concorda?

— Como, senhor?

— As pequenas mudanças fazem toda a diferença, não é?

Ele observava Gornt com a maior atenção.

— Lamento, senhor, mas não conheço os detalhes... a não ser o que ele me disse e me mandou transmitir para Struan.

— Vou tomar outro scotch... sirva-se de champanhe — disse Norbert, satisfeito.

Ele bebeu em silêncio, até ter pensado em tudo, antes de voltar a falar:

— Continue a agir como se não tivesse me contado nada. Cancelarei o duelo amanhã. Não posso agora matá-lo, nem deixá-lo fora de ação.

— Tem toda razão, senhor, foi o que também pensei. — Gornt entregou-lhe a carta de Malcolm Struan, igual à que Gornt já assinara. — Ele me pediu para trazer isto. Mas sugiro que não cancele amanhã, pois pode deixá-lo desconfiado... e talez possamos descobrir o que há de tão importante na Pearl, se ele for, ou se nao for.

— É isso mesmo, Edward, boa idéia. — Norbert soltou uma risadinha. — portanto, na quarta-feira, o jovem Struan se lança no caminho do desastre, hem?

Gornt sorriu.

— E segue feliz, senhor. A Casa Nobre deles está liquidada e a nossa começa.

— É verdade. — O calor do scotch misturava-se ao calor do futuro. — Então decidiu se juntar a nós?

— Se me aprovar, senhor. Sir Morgan disse que teria de me aprovar.

— Continue assim, e está aprovado. Fez um bom trabalho hoje, de primeira. Boa noite.

Norbert trancou a porta depois que Gornt saiu. Antes de voltar para a cama, usou o urinol, e sentiu-se ainda melhor. Seu copo estava na mesinha ao lado da cama, sobre uma pilha de livros e revistas, ainda um quarto cheio. Recostou-se nos travesseiros altos que preferia e pegou o livro aberto, Cidade dos Santos, o relato de Burton sobre sua visita aos misteriosos e polígamos mórmons em Salt Lake City, Utah. Burton era o mais famoso aventureiro e explorador do mundo falava trinta ou mais línguas e suas façanhas e idiossincracias eram lidas avidamente nos menores detalhes.

Ele leu alguns parágrafos e depois, distraído, largou o livro. Não é tão bom quanto Peregrinação a El-Medina e Meca, pensou, ou o relato da descoberta do lago Tanganica.

Entre tantas bocetas mórmons, era de se pensar que Burton, defensor ostensivo da poligamia, que qualquer tolo sabe ser a coisa certa, descreveria suas conquistas, pois já fez isso muitas vezes, em outros livros, com detalhes suficientes para deixar um velho todo excitado. Alguns jornais haviam noticiado que ele tivera treze, todas ao mesmo tempo, oferecidas pessoalmente por Brigham Young, líder da Igreja dos “Santos do Último Dia” e governador de Utah. Que mentirosos!

Mas, por Deus, que homem... ele fez mais e viu mais do que qualquer outro inglês vivo, e deixa qualquer um ainda mais orgulhoso de ser inglês. E com toda a liberdade de ir para onde quiser, de viver como quiser, não dá para entender por que tinha de voltar para a Inglaterra e casar com uma boa inglesa, como algum homem normal. É verdade que ele a deixou depois de um mês; dizem que agora se encontra em algum lugar desconhecido, talvez em Hindu Kush, ou na terra secreta no topo do mundo, vivendo com os gigantes da neve...

Norbert tomou mais um gole do scotch e pensou em Gornt. Esse rapaz não é tão esperto quanto pensa. Qualquer um pode perceber o que vai acontecer na Pearl e por quê. Ketterer pode manter em segredo, Wee Willie também, mas Michaelmas Tweet não pode, nem Heavenly, quando bebe demais, e assim tomei conhecimento das cartas de Tess Struan, e que ela pressionou Wee Willie, bloqueou a igreja, bloqueou todos os capitães de navios, e até a marinha, por intermédio de Ketterer... só que ela não tem poder sobre a marinha! E é Marlowe quem manda a bordo da Pearl. Marlowe pode casá-los... se Ketterer permitir.

Norbert riu.

Mas Ketterer odeia os Struans porque eles venderam canhões aos piratas do Lótus Branco, como nós, que vendemos a qualquer maldito belipotentado que quiser comprá-los, e continuaremos a fazer isso, mesmo que a Struan desista, e por que que não? É um negócio legal, e sempre será. O Parlamento precisa das fábricas de armamentos, porque se trata de um grande negócio, e todos os governos gostam da guerra... porque as guerras constituem um grande negócio, e acima de tudo porque a guerra encobre a sua própria incompetência.

Que se danem os governos!

Ketterer odeia a Struan. Apesar de toda a sua arrogância, ele não é nenhum tolo e vai querer resultados práticos por um favor. O que não pode obter — as declarações daquele jovem tolo nada significavam — e por isso faz um jogo de gato e rato com Struan. Talvez deixe que Struan e sua jovem amante embarquem, talvez não, mas de qualquer forma Marlowe não terá permissão para casá-los... Ketterer quer ver Struan rastejar. O patife também me faria rastejar, se tivesse alguma chance, e ainda por cima me presentearia com cem vergastadas.

Um gole grande do bom scotch deixou-o no melhor humor e ele riu. O jovem Struan está bloqueado: não terá um casamento na Pearl e voltará para Hong Kong, com ou sem sua amante, ao controle da mãe. É curioso que eu tenha de deixá-lo vivo, quando planejava obter a recompensa oferecida pelo Velho, que me disse:

— Mas não conte nada a Morgan, Norbert, pois ele é contra mortes, embora queira ver o jovem Struan afundado na merda e a mãe também! Não se esqueça disso ou arrancarei suas tripas para fazer ligas.

Devo suspender o duelo? Pensarei a respeito. Com o maior cuidado. Preciso da gratificação extra.

É típico de Morgan dar instruções secretas a Gornt e me manter na ignorância. O que mais ele disse que Gornt não me contou? Não importa, Morgan é astuto, com toda a coragem do Velho, só que mais insinuante, mais moderno, sem loucuras, sem riscos... sem nenhuma das obsessões brutais e implacáveis de seu pai. Morgan é o nosso verdadeiro tai-pan e será o tai-pan da nova Casa Nobre. Foram necessários apenas vinte anos para destruir a companhia de Dirk, a maior que já existiu na Ásia.

Satisfeito, Norbert terminou de tomar o scotch, apagou a luz e acomodou-se, com um bocejo. Lamento não ter conhecido o Velho em seu auge, nem o tai-pan, O Demônio de Olhos Verdes, que só os ventos malignos do Grande Tufão conseguiram matar. Ainda bem que este jovem tolo não herdou nenhuma de suas qualidades.

O último convidado já se retirara. Apenas Angelique, Jamie McFay e Malcolm continuavam na sala. As brasas na enorme lareira de canto luziam quando uma aragem descia pela chaminé, para depois se apagarem. Malcolm, em silêncio, o rosto franzido, olhava para a lareira, vendo imagens nas brasas. Angelique sentava no braço de sua poltrona, apreensiva. McFay estava encostado na mesa.