— Não é? — murmurou o conde, sorrindo.
— Ouvimos dizer que o czar espera passar por sua nova fortaleza em Vladivostok para as ilhas japonesas, seguir para o norte, até as Kurilas, mais para o norte, até as Aleutas, para fazer a junção com o Alasca russo, que se estenderá até o norte da Califórnia. Enquanto o mundo dorme. Espantoso. — Erlicher tirou do bolso sua caixa de charutos, ofereceu. — Por favor... são os melhores cubanos.
Zergeyev pegou um charuto, cheirou-o, rolou-o entre os dedos, aceitou a chama estendida.
— Obrigado. E mesmo excelente. Todos os suíços são sonhadores como você?
— Não, conde. Somos amantes da paz, bons anfitriões de amantes da paz, mas permanecemos em nossas montanhas, bem-armados, observando o mundo exterior. Por sorte, nossas montanhas são inóspitas para aqueles que aparecem sem serem convidados.
Outra explosão de gritos distraiu-os por um momento, Lunkchurch, Swann, Grimm e outros mais clamorosos do que o habitual.
— Nunca estive na Suíça. Você deveria conhecer a Rússia. Temos muitas vistas para regalar os olhos.
— Já estive em sua linda São Petersburgo. Há três anos, passei alguns meses em nossa embaixada ali. A melhor cidade da Europa, em minha opinião, para quem é da nobreza, rico ou diplomata. Deve sentir muita saudade.
— Morro de saudade, mais do que pode imaginar. — Zergeyev suspirou. — Não demora muito agora para que eu volte. Já fui informado de que meu próximo posto será Londres... e aproveitarei para visitar suas montanhas.
— Eu me sentirei honrado em ser seu anfitrião. — Erlicher puxou o charuto, soltou um anel de fumaça. — Então, minha sugestão de um negócio não o interessa?
— É verdade que os britânicos monopolizam todos os tipos de empreendimentos, todas as rotas marítimas e os mares, todas as riquezas das terras subjugadas... — Não havia qualquer condescendência no sorriso de Zergeyev. — ...coisas que deveriam ser partilhadas.
— Neste caso, não deveríamos voltar a conversar num ambiente mais tranquilo?
— Durante o almoço, por que não? Sem dúvida, eu comunicaria tudo a meus superiores. Se houver uma necessidade futura, onde posso encontrá-lo ou a seus superiores?
— Aqui está meu cartão. Se perguntar por mim em Zurique, não terá qualquer dificuldade para me encontrar.
Erlicher observou-o ler a caligrafia magnífica do novo e milagroso processo de impressão que haviam acabado de inventar. O conde Zergeyev tinha feições elegantes, um aristocrata em todos os poros, com roupas impecáveis, enquanto sabia que as suas eram medíocres e que seus antepassados haviam sido meros camponeses. Mas não o invejava. {
Sou um suíço, pensou ele. Sou livre. Não tenho de fazer uma reverência, ajoelhar ou tirar o chapéu para qualquer rei, czar, sacerdote ou homem — se não quiser. De certa forma, este pobre coitado ainda é um servo. Graças a Deus por minhas montanhas e meus vales, por meus irmãos e irmãs, por viver entre eles, todos livres, como eu sou livre, e assim permanecerei.
Perto do balcão, meio bêbado, cambaleando, Lunkchurch apoiava-se comicamente em outro homem e berrava a plenos pulmões:
— Que a porra do Struan perdeu a porra do juízo é uma porra...
— Por favor, Barnaby, pare de usar essa linguagem infame! — gritou o reverendo Tweet, abrindo caminho para a porta, o colarinho um pouco torto, o rosto vermelho e suado. — Quando se pensa a respeito, de um ponto de vista justo e inglês, não se pode deixar de reconhecer que o jovem Struan assumiu a posição moral correta.
Lunkchurch, completamente embriagado, fez um gesto grosseiro para o reverendo.
— Enfie a porra da santimônia na porra do rabo!
Roxo de raiva, o reverendo Tweet cerrou o punho e desferiu um golpe ineficaz. Os mais próximos de Lunkchurch o arrancaram do caminho, como sempre, enquanto outros cercavam Tweet, procurando acalmá-lo. Depois, Charlie Grimm, sempre disposto a aceitar um desafio, qualquer desafio, berrou acima do tumulto, e de seu próprio nevoeiro da embriaguez:
— Barnaby, prepare-se para encontrar seu criador!
Atenciosos, os homens ao redor se afastaram para lhes dar espaço, e os dois, sob aclamações, começaram a se esmurrar, com o maior empenho.
— Drinques por conta da casa! — ordenou o chefe dos barmen, para os que ainda se encontravam no clube. — Scotch para o reverendo, porto para o conde e seu convidado. E agora vocês dois parem de brigar!
Tweet aceitou o uísque e cambaleou para uma mesa bem distante dos dois brigões, que agora rolavam pelo chão, a beligerância ainda intensa. O barman suspirou, esvaziou um balde de água suja sobre eles, contornou o balcão, pegou um em cada mão e expulsou-os para a High Street, sob mais aplausos.
— Senhores, por favor, está na hora de fechar! — anunciou ele, sob vaias que logo cessaram.
Todos terminaram seus drinques e começaram a se retirar. Zergeyev e Fritz Erlicher ergueram o chapéu polidamente para o clérigo.
— Reverendo — disse Swann, o mercador magro que atuava como diácono —, que tal procurar pelos pecadores na cidade dos bêbados?
— Como se diz, Sr. Swann, já estou indo.
Em sua pequena casa, na Yoshiwara, Hinodeh esperava. Furansu-san dissera que viria naquela noite, mas podia se atrasar. Ela estava vestida para se despir, o quimono de noite e os quimonos interiores da melhor qualidade, os cabelos a rebrilhar, travessas de casco de tartaruga e de prata ornamentando o penteado armado, que deixava à mostra nuca impecável, as travessas ali só para serem tiradas... para permitir que os cabelos caíssem até a cintura, escondendo o erótico.
Gostaria de saber o que há de tão erótico na nuca de uma mulher para excitar os homens, especulou ela; e por que escondê-la é também erótico? Ah, como os homens são estranhos! Mas Hinodeh sabia que deixar os cabelos caírem excitava Furansu-san, tanto quanto qualquer outro cliente, e essa era a sua única concessão ao pacto entre os dois. Não fazia qualquer outra coisa na luz.
No escuro, antes do amanhecer, quando estavam juntos, sua maiko acordava, e ela se vestia sem acender qualquer luz, quer ele despertasse também, ou não. Depois, ia para o outro quarto, fechava a porta, que a maiko ficava vigiando, e voltava a dormir, se por acaso se sentia cansada. Furansu-san concordara que nunca entraria naquele santuário... depois da primeira vez, ela insistira:
— Dessa maneira, a privacidade da noite pode se estender pelo dia.
— Como assim?
— Com isso, o que você viu uma vez nunca vai mudar, não importa o que os deuses determinem.
Um tremor percorreu seu corpo. Por mais que tentasse, não podia reprimir a sensação de que a semente do vil deus Pústula, implantada por Furansu-san dentro dela, estava adquirindo força, crescendo, preparando-se para irromper por toda parte. Todos os dias, ela se examinava. De uma forma meticulosa. Só podia confiar em Raiko para verificar naqueles pontos que ela não podia ver e que ainda continuavam imaculados.