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— Todos os dias é demais, Hinodeh — dissera Raiko, antes de concordar com o contrato. — Pode não acontecer nada por anos...

— Sinto muito, Raiko-san. Todos os dias é uma condição.

— Por que resolveu concordar? Tem um bom futuro em nosso mundo. Talvez nunca alcance a primeira classe, mas é instruída, sua mama-san diz que tem uma longa lista de clientes, que está satisfeita com você, disse que poderia casar com um próspero mercador, fazendeiro ou fabricante de espadas, que é sensata, e não lhe faltaria uma boa união.

— Agradeço sua preocupação, Raiko-san, mas acertou com minha mama-san que nunca me interrogaria, nem bisbilhotaria meu passado, para descobrir de onde vim ou procurar explicações. Em troca, partilha com ela uma porcentagem do dinheiro que ganharei este ano, e talvez no outro. Deixe-me repetir: aceitei o contrato porque é o que desejo.

Isso mesmo, é o que desejo, e me sinto afortunada.

Tinha agora vinte e dois anos. Nascera numa fazenda nos arredores de Nagasáqui, na província de Hizen, na ilha do Sul. Aos cinco anos, fora convidada a ingressar no mundo flutuante por uma das muitas intermediárias que viajavam pelo país à procura de crianças que pudessem se tornar gueixas, pessoas das artes, as que podiam ser treinadas, como Koiko, nas artes, e não apenas como uma netsujo-jin, uma pessoa para a paixão. Seus pais concordaram, receberam dinheiro e uma nota promissória para cinco pagamentos anuais, a começar dez anos depois, a quantia dependendo do sucesso da criança.

Como uma pessoa da arte, ela não fora bem-sucedida — nem na samisen, a guitarra de três cordas, no canto, na dança, ou como atriz —, mas como uma pessoa de prazer, desde os quinze anos, quando fizera sua estréia, mais instruída do que suas contemporâneas, logo se tornara importante para sua mama-san e para si mesma. Naquele tempo, seu nome era Gekko, Raio de Luar, e embora houvesse muitos estrangeiros em Nagasáqui na ocasião, ela não conhecia nenhum, pois sua casa atendia apenas a japoneses, da mais alta ordem.

Em certo mês de outubro, o mês sem deuses, ela recebera um novo cliente. Era um ano mais velho do que ela, dezoito anos, um goshi, filho de um goshi — um espadachim médio, soldado médio, mas para ela a pessoa dos sonhos. Seu nome era Shin Komoda.

A paixão entre os dois desabrochara. Por mais que a mama-san tentasse reprimir o magnetismo mútuo — o rapaz era pobre, suas contas não eram pagas —, nada que ela pudesse dizer ou fazer tivera qualquer efeito. Até a primavera do ano seguinte. Sem dizer a Gekko, a mama-san fora à casa do rapaz, fizera uma reverência diante de sua mãe e pedira o pagamento, polidamente. Não havia dinheiro para pagar. A mãe pedira tempo. O rapaz fora proibido de ver Gekko outra vez. Ele simulou acatar a ordem dos pais, mas tal não aconteceu. Uma semana depois, disfarçados, eles fugiram juntos, desaparecendo no vasto porto. Ali, com os nomes trocados, e com algum dinheiro que Gekko guardara, além das jóias que trouxera, compraram passagens de terceira classe num navio de cabotagem que partia naquele dia para Iedo.

Em uma semana, Shin Komoda fora desonrado em sua aldeia e declarado ronin. A mama-san procurara de novo sua mãe. Era uma questão de honra que as contas do filho fossem pagas. Os cabelos compridos e belos constituíam o único bem de valor e o orgulho da mãe. Com a concordância do marido, ela fora a um fabricante de perucas de Nagasáqui. O homem comprara seus cabelos sem hesitação. O dinheiro fora suficiente para saldar as dívidas do filho. Assim, para eles, a honra fora resguardada.

Em Iedo, ao final do dinheiro, Gekko e Shin conseguiram encontrar alojamentos seguros nos cortiços da cidade. E um sacerdote budista para casá-los. Sem documentos, qualquer dos dois, e seu verdadeiro passado apagado, a vida era difícil, quase impossível, mas por um ano viveram felizes, conseguindo se sustentar no limiar da pobreza. O que não importava, pois se deleitavam na companhia um do outro, o amor aumentou e foi frutuoso. Embora o dinheiro de Gekko minguasse até acabar, por mais que ela tentasse ser prudente, e o pagamento de Shin mal desse para alimentá-los — só conseguira arrumar trabalho como guarda bordel de baixa classe, que nem ao menos ficava na Yoshiwara de Iedo —, não tinha importância.

Nada mais importava. Estavam juntos. Sobrevivendo. Ela mantinha os dois pequenos aposentos impecáveis, converteu-os num palácio e santuário para ele e a criança. Por mais que Gekko propusesse, ele sempre recusava.

— Nunca, mas nunca mesmo, nenhum outro homem haverá de conhecê-la! Quero que jure!

E ela jurara. Quando o filho tinha um ano de idade, Shin morrera numa briga. Com sua morte, a luz se apagara em Gekko.

Uma semana depois, a mama-san do bordel lhe fizera uma proposta. Ela agradecera e recusara, dizendo que voltaria para sua casa em Nara. Comprara no mercado uma vela nova, vermelha, e acendera-a naquela noite, quando o menino dormia, para observá-la e pensar no que deveria fazer, até que a chama se extinguisse, prometendo aos deuses que, ao final, decidiria o que era melhor para o filho, pedindo-lhes ajuda para tomar a decisão mais sábia.

A chama se extinguira, e a decisão fora simples e correta: Deveria mandar o filho para os pais de Shin. O menino iria sozinho — fingiria que ela e o marido haviam cometido o jinsai, o suicídio ritual conjunto, como expiação aos pais de Shin pelo sofrimento que haviam lhe causado. Para ser aceito, o filho deveria ter pelo menos um ano de dinheiro, de preferência mais. Deveria estar bem vestido e viajar com uma ama de confiança, o que implicava mais dinheiro. Só assim ele poderia obter sua herança, virar um samurai. Por último, não havia sentido em obedecer ao juramento feito a um morto, quando o futuro do filho vivo se encontrava em jogo.

Pela manhã, ela deixara o filho com uma vizinha, com o resto do dinheiro comprara o melhor quimono e a melhor sombrinha que pudera encontrar no mercado dos ladrões. Depois, sem mais nenhum dinheiro, fora à melhor cabeleireira, perto dos portões da Yoshiwara de Iedo. Ali, trocara um mês de ganhos futuros pelo penteado mais moderno, massagem, maquilagem, manicure, pedicure e outros cuidados... e informações.

As informações custaram mais um mês.

Naquela tarde, ela passara pelos portões, e fora direto para a casa da Glicínia. A mama-san era igual a todas as outras que já conhecera, sempre a perfeição no traje e no penteado, sempre um pouco corpulenta demais, com uma maquilagem que mais parecia uma máscara, olhos gentis com os fregueses, mas que podiam se tornar duros como granito de um momento para outro, olhos que podiam fazer as moças tremerem de medo, e sempre exalando a fragrância do melhor perfume que podia comprar, mas nem assim encobrindo o cheiro persistente de saquê. Aquela mama-san era magra, e seu nome era Meikin.

— Sinto muito, mas não aceito damas sem documentos nem história — dissera a mama-san. — Respeitamos a lei aqui.