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O binóculo do contramestre fixava as janelas do prédio da Struan. Havia uma luz acesa, mas não dava para determinar se Struan se encontrava ali ou não. E foi nesse momento que o motor engasgou, parou, e seus colhões pareceram subir, atingindo-o no queixo. Toda a vibração do barco cessou. Poucos segundos depois, o motor pegou de novo, mas tornou a engasgar, pegou mais uma vez, só que agora fazia um barulho estranho.

— Deus Todo-Poderoso! Roper, desça para ver o que aconteceu! — gritou ele para o mecânico. — E vocês outros, tratem de pegar remos, para o caso de enguiçarmos... McFay vai nos esfolar vivos se pararmos... Roper, qual é o problema, pelo amor de Deus? Diga logo o que aconteceu!

Outra vez ele fixou o binóculo na janela. Nenhum sinal de ninguém. Mas Struan se encontrava ali, seu binóculo focalizando o cúter. Observava-o desde que alcançara a fragata. Ele praguejou, pois agora podia ver o contramestre com toda clareza, e o homem deveria saber que era observado, poderia facilmente transmitir um sinal, sim ou não.

— A culpa não é dele — murmurou Malcolm. — Foi você quem esqueceu de combinar um sinal. Idiota!

Ora, não tinha importância, pois o tempo era bom, não havia qualquer prenúncio de uma tempestade, e uma pequena chuva não afetaria a Pearl. Ele tornou a focalizar a nave capitânia. Seu cúter voltava de uma visita à Pearl. Devia ter ido até lá para entregar as ordens.

A porta por trás dele foi aberta, e Chen entrou, jovial, trazendo uma xícara de chá fumegante.

— Bom dia, tai-pan. Não está mais dormindo, um bom chá, chop chop?

— Quantas vezes tenho de lhe dizer para falar uma língua civilizada e não pidgin? Seus ouvidos ficaram entupidos com a bosta dos ancestrais e seu cérebro coalhou?

Chen manteve o sorriso no rosto, mas soltou um resmungo interior. Esperava que o gracejo arrancasse uma risada de Struan.

— Ah, sinto muito. — Ele acrescentou a tradicional saudação chinesa, o equivalente a “bom dia”. — Já comeu arroz hoje?

— Obrigado.

Pelo binóculo, Malcolm viu um oficial sair do cúter e subir para a nave capitânia. Nada que indicasse qualquer coisa. Droga!

Ele pegou a xícara.

— Obrigado.

No momento, não sentia qualquer dor especial, apenas a dor constante normal, suportável. Já tomara sua dose matutina. Durante a última semana, conseguira reduzir a quantidade. Agora, tomava uma dose pela manhã e outra à noite, mas jurara que, no futuro, tomaria apenas uma por dia, se tudo corresse bem hoje.

O chá estava ótimo, misturado com leite de verdade, engrossado com açúcar, e por ser o primeiro do dia, continha um pouco de rum, uma tradição iniciada por Dirk Struan, como dissera seu pai.

— Chen, pegue meu culote grosso e uma camisa. Vou usar também um casaco.

Chen ficou surpreso.

— Ouvi dizer que a viagem foi cancelada, tai-pan.

— Em nome de todos os deuses, quando ouviu isso?

— Ontem à noite, tai-pan. Quinto primo na casa do chefe demônio estrangeiro ouviu-o falando com Nariz de Cogumelo Esmagado do grande navio, que disse: “Não viagem.”

Malcolm sentiu um frio no estômago e foi até a janela. Chocado, viu o cúter balançando a duzentos metros da praia. Sem ondas na proa. Pôs-se a praguejar, furioso, e depois avistou a fumaça começando a sair pela chaminé, as ondas na proa aparecerem, enquanto o cúter adquiria velocidade. Esquadrinhou o convés com o binóculo, mas só pôde ver o contramestre gritando, com os remos num lado, para o caso de outro colapso. Àquela velocidade, o cúter alcançaria o cais da companhia em menos de dez minutos.

Ele se vestiu, ajudado por Chen. Uma rápida olhada indicou que o cúter se encontrava quase atracando. Ele abriu a janela, esticou a cabeça para fora enquanto o contramestre subia para o cais e desatava a correr, tão depressa quanto a enorme barriga permitia.

— Ei, contramestre!

O homem grisalho ofegava ao se aproximar da janela.

— O Capitão Marlowe envia seus cumprimentos — balbuciou ele. — Espera senhor e a dama a bordo.

Struan deixou escapar um grito de alegria. Mandou chamar Ah Soh e ordenou-lhe que acordasse e vestisse Angelique, o mais depressa possível. Depois, em loz baixa, acrescentou:

— Preste atenção, Chen, e não me interrompa, ou vou explodir como uma bomba...

Ele deu instruções sobre o que embalar, e o que ordenar que Ah Soh embalasse, para depois despachar os baús para o Prancing Cloud, ao pôr-do-sol.

— A dama e eu jantaremos a bordo, e também dormiremos ali. Vocês dois também ficarão no navio, e voltarão para Hong Kong conosco...

— Hong Kong! Ah, tai-pan...

— ...e ambos ficarão com a boca mais fechada do que o ânus de uma mosca ou pedirei a Chen da Casa Nobre para remover seus nomes do livro da família.

Chen empalideceu. Malcolm nunca usara essa ameaça antes. O livro da família era a ligação de todo chinês do sexo masculino com a imortalidade, com seus ancestrais no passado místico e com os descendentes distantes, quando ele próprio seria considerado um remoto ancestral. Sempre que nascia um chinês no mundo, seu nome era escrito nos registros da aldeia ancestral. Sem isso, ele não existia.

— Pois não, amo. E Ah Tok?

— Falarei com ela. Vá chamá-la.

Chen passou pela porta. Ah Tok esperava ali fora. Ele se afastou apressado. Ela entrou. Struan comunicou que decidira que ela iria no navio seguinte e ponto final.

Oh ko, meu filho — murmurou Ah Tok, na voz mais suave. — O que decide para sua velha mãe não é o que sua velha mãe decide que é melhor para si mesma e para seu filho. Voltaremos para casa. Manteremos silêncio. Nenhum dos fétidos demônios estrangeiros jamais saberá. Mas é claro que todas as pessoas civilizadas vão se interessar pela trama. Voltaremos para casa juntos. Vai levar sua prostituta com você?

Ela resistiu às invectivas de Malcolm, ordenando-lhe que nunca mais usasse aciuela palavra... ou qualquer outra parecida.

— Ah... — murmurou ela, ao se retirar, a voz definhando a pouco e pouco, — por sua velha mãe não chamará aquela prostituta de sua prostituta outra vez, mas e todos os deuses são testemunhas de que se não é prostituta que devo chamá-la, então prostituta não é o tratamento correto? Meu filho está demente...

Mas a raiva de Malcolm se evaporou quando viu Angelique.

— Ah, mas você está linda!

Ela usava um traje de montaria, botas, saia comprida, justa na cintura, colete, gravata e casaco, um chapéu com uma pluma verde e luvas, mas sem o chicote.

— Achei que seria o melhor para um passeio de barco, querido. —murmurou Angelique, com um sorriso glorioso.