— Sejam bem-vindos a bordo.
Marlowe esperava-os no alto da escada, esplêndido em seu uniforme. Antes de passar para o convés, Malcolm, meio desajeitado, apoiou-se com a mão esquerda, Angelique segurando suas muletas, e ergueu a cartola, formal.
— Permissão para ir a bordo?
Marlowe bateu continência, com um sorriso.
— Sejam bem-vindos. Posso?
Ele ofereceu o braço a Angelique, tonto pela intensidade do sorriso dela e pelo corte do casaco, que realçava o corpo. Levou-os para a ponte de comando, à frente da chaminé. Esperou que Malcolm se acomodasse numa cadeira, antes de dizer a seu número um, Davyd Lloyd:
— Vamos zarpar, mister Lloyd. Um quarto à frente e mantenha uma velocidade firme.
A Pearl zarpou, impulsionada pelo motor a vapor.
— Assim que nos afastarmos, vamos aumentar a velocidade — explicou Marlowe. — O almirante ordenou que conduzíssemos os testes à vista da nave capitânia.
A felicidade de Struan se desvaneceu.
— À vista dele? Não vamos sair para alto-mar?
Marlowe riu.
— Acho que ele gosta de manter seus “filhos” sob rédea curta. Mas prometo que será divertido.
Ou seja, estamos a bordo, mas não pelo motivo certo, pensou Struan. O desgraçado é um sádico! E se o almirante estivesse a bordo naquele momento, ele tinha certeza de que o mataria com a maior satisfação. Isto é, não chegaria a esse ponto, mas daria uma boa lição no patife. Ele vai se arrepender de não ter me ajudado. Quando eu voltar, inverterei tudo e criarei um problema que ele nunca mais vai esquecer.
Mas, até lá, o que faço agora?
Havia tanta coisa acontecendo que Marlowe e Angelique não notaram seu desespero, que Struan se esforçou em ocultar. A fragata avançava pelo meio da esquadra, com inúmeros marujos e oficiais dos outros navios admirando Angelique, e alguns também a maneira impecável como a Pearl era manobrada. A bordo da nave capitânia francesa, o vapor de roda de vinte e um canhões, por que passaram bem perto, os marujos assoviaram e acenaram, deixando consternados os oficiais britânicos.
Por Deus, pensou Marlowe, que péssimos modos, e que disciplina ainda pior. Mesmo assim, ele observou com um ar afável, enquanto Angelique acenava em resposta, sob um coro de assovios e gritos. Para distraí-la, Marlowe comentou:
— Vamos realizar testes de velocidade, Angelique, primeiro sob vapor, e depois com as velas. Temos de verificar o novo mastro. Não se lembra, mas perdemos nosso mastro anterior na tempestade. Vai ver...
Ele continuou a falar, explicando isso e aquilo, respondendo as perguntas que Angelique se sentiu na obrigação de fazer.
Ela simulava interesse, mas no fundo queria apenas ficar em silêncio, sentir o vento desmanchar seus cabelos, agora que tirara o chapéu, e se deleitava com a nova liberdade, querendo que o ar marinho dissipasse o mau cheiro sempre presente de locoama, um fato da vida ali, e também em Hong Kong, de tal forma que mal se notava, querendo apenas olhar para o futuro, sonhar com o canal da Mancha, os mares azuis, a bela costa da França, o retorno à sua terra. Nós, franceses, desejamos demais nossa terra, enquanto os ingleses parecem ser capazes de se sentir à vontade em qualquer lugar, não precisam realmente da Inglaterra, não como nós precisamos da França...
— Vamos ancorar ao meio-dia — disse Marlowe, na maior alegria por ser o capitão da Pearl. — Servirei um almoço leve em meu camarote, e há um beliche ali, se quiser fazer uma sesta...
A manhã transcorreu muito agradável. A cada meia hora, o sino do navio anunciava as manobras. Até mesmo Malcolm foi arrancado de seu desespero, enquanto a fragata navegava de uma extremidade a outra da baía, fazia a volta, disparava na direção oposta.
— Daqui a pouco — informou Marlowe — vamos suspender o vapor, e usar apenas as velas.
— Eu prefiro as velas — disse Angelique. — O barulho do motor é horrível. Velejar é mais agradável. Não concorda, Malcolm chéri?
— Claro que sim — respondeu Malcolm, contente, o braço em torno da cintura dela, amparando-a contra a inclinação do convés.
— Também concordo, assim como todos os homens da marinha britânica. Claro que ainda temos de velejar durante a maior parte do tempo... não podemos carregar combustível suficiente e o carvão é imundo! Mas, numa noite de tempestade, quando o porto se encontra logo à frente, com o vento contrário, ou o inimigo tem o dobro de canhões, mas usa as velas, e você não, temos de abençoar o velho Stephenson e os engenheiros britânicos por nos proporcionarem a bênção de ir contra o vento. Eu gostaria de levá-los lá embaixo, mas há poeira de carvão por toda parte, um barulho insuportável.
— Mesmo assim, eu adoraria dar uma espiada. Posso?
— Claro. Malcolm?
— Não, obrigado... podem ir vocês dois.
Ele visitava as casas de máquinas de seus vapores desde que era menino; os motores nunca o haviam interessado, apenas sua eficiência, custo e a quantidade de carvão que consumiam.
Antes de deixar a ponte de comando, Marlowe verificou a posição da fragata e o vento. Estavam a três quartos de milha da praia, bem distantes da esquadra e dos navios mercantes.
— Número Um, assuma o comando. Quando emparelharmos com a nave capitânia, suspenda o vapor e ice as velas, com curso para leste.
— Certo, senhor.
Malcolm observou Marlowe conduzir Angelique para a passagem no meio do navio, com uma pontada de inveja pelos passos ágeis do oficial britânico, ao mesmo tempo divertido com o charme contagioso com que ele envolvia Angelique. Respirando fundo, Malcolm relaxou na cadeira. O mar, o céu, o vento e o espaço haviam dissipado seu desalento. Era ótimo estar no mar, maravilhoso ser parte de um navio de guerra tão eficiente, bem cuidado e orgulhoso, ainda melhor estar confortável e seguro nas ondas. Sua mente projetou planos diferentes para enfrentar o amanhã e os dias subsequentes.
Joss, o destino. Não vou me preocupar com coisa alguma, ele prometeu a si mesmo. Lembre-se de seu juramento e da nova era!
Depois que Gornt chegara a Iocoama, como uma dádiva do céu, Malcolm agradecera a Deus pela perspectiva de salvação, e jurara que, se a informação de Gornt fosse mesmo o que ele alegava, faria sempre o melhor que pudesse, e não se contentaria com menos. Com informações suficientes para destruir os Brocks, ele tinha certeza, acima e além de qualquer dúvida, que a mãe viria para o seu lado. Angelique era tudo o que importava, assim como ser tai-pan, mas não apenas no nome.
Naquela mesma noite, fora impelido a se contemplar no espelho. Tinha de ser feito. Alguma força o obrigara a ver de verdade, pela primeira vez em anos, a se estudar de fato, profundamente, e não apenas o rosto.
Ao final, pensara: É isso o que você é, continua ferido gravemente por dentro, não pode se empertigar direito, suas pernas não funcionam como deveriam, mas pode ficar de pé, pode andar, e vai melhorar. O resto do seu corpo funciona e a mente também. Aceite. Lembre o que a mãe e o pai sempre lhe disseram, desde que era criança: “Aceite seu joss, é o que Dirk Struan sempre dizia. Dirk não tinha a metade de um pé e isso não o impedia de fazer as coisas. Dirk foi baleado e cortado uma dúzia de vezes, quase morreu em Trafalgar como carregador de pólvora, quase foi destruído por Tyler Brock meia dúzia de vezes. Aceite seu joss. Seja chinês, era o conselho de Dirk. Faça o melhor que pode e o resto que se dane.