Seu coração batera forte. Dirk, Dirk, Dirk. Que se dane Dirk Struan! Detesto quando jogam Dirk na minha cara, sempre me apavorei com a possibilidade de não ser capaz de me mostrar à altura de sua imagem impossível. Admita-o!
O reflexo não respondera. Mas ele o fizera.
— Tenho o sangue dele, tenho sua Casa Nobre para dirigir, sou tai-pan, faço o melhor que posso, mas nunca ficarei à sua altura, admita isso, que Deus o amaldiçoe, é essa verdade! É esse meu joss.
Ótimo, seu reflexo parecera dizer. Mas por que odiá-lo? Ele não o odeia. Por que odiá-lo como tem odiado por toda a sua vida... porque o odiou por toda a vida, não é mesmo?
— Isso é verdade, eu o odeio, sempre odiei!
Dizer em voz alta deixara-o chocado. Mas era verdade... todo o amor e respeito não passavam de uma impostura. Sempre o odiara, mas de repente, na frente do espelho, não mais o fazia. Por quê?
Não sei. Talvez seja por causa de Edward Gornt, talvez ele seja o bom espírito que me libertou do passado, assim como quer se libertar do seu. Morgan não envenenou sua vida, a de sua mãe e a de seu pai? Não que Dirk envenenasse a minha, mas seu espectro se interpôs entre a mãe e o pai e envenenou-os... não era esse o joss deles, que o pai morresse odiando-o, e por mais que a mãe o idolatre abertamente... também não o odeia, no fundo de seu coração, por ele não ter casado com ela?
Ali, na ponte de comando da fragata, Malcolm recordou o suor frio que o encharcara, e depois mais tarde, bebendo algum uísque, mas não a outra coisa, rompendo sua obsessão naquele momento, e tomando conhecimento de outra verdade: ansiava pela poção, tornara-se um viciado.
Verdades demais confrontadas. Não era fácil encarar a si mesmo, a missão mais difícil — e mais perigosa — que um homem pode realizar, e deve fazer pelo menos uma vez na vida, para ficar em paz. E foi o que eu fiz, gostando ou não.
— Número Um — disse o jovem sinaleiro ao tenente Lloyd, a luneta focalizada em seu equivalente distante — mensagem da nave capitânia, senhor.
Dois conveses abaixo, a casa de máquinas era uma masmorra de calor e barulho vibrando, poeira, escuridão e mau cheiro, iluminada por quadrados de carvões em brasa, quando foguistas seminus abriam as fornalhas sob as enormes caldeiras para jogar mais carvão ou retirar as brasas para a entrada de mais e mais carvão.
Angelique e Marlowe estavam parados numa das grades de ferro por cima, o ar impregnado pelo cheiro de coque, fogo, óleo ardendo, suor e vapor. Os corpos lá embaixo brilhavam de suor, homens barrigudos, com músculos estufados, as pás raspando no convés de ferro para ficarem cheias de carvão, que era lançado com um movimento hábil na fornalha, e espalhado numa camada igual, para pegar fogo no mesmo instante, e logo precisar de reabastecimento.
Na direção da popa, o motor vibrando brilhava de cuidado e óleo, mais homens usando latas com bicos compridos esguichavam óleo nas juntas, enquanto outros limpavam com refugos de algodão, outros cuidavam dos mostradores, bombas e válvulas, o motor girando o hélice contra a pressão do mar. Jatos de vapor das válvulas, mais óleo e limpeza, uma constante atenção dispensada aos êmbolos, alavancas, engrenagens, mais carvão jogado nas fornalhas. Angelique achou tudo muito excitante... os homens lá embaixo pareciam alheios à presença deles.
Orgulhoso, Marlowe apontava e explicava, por cima do barulho, e ela respondia com um aceno de cabeça, um sorriso de vez em quando, segurando em seu braço de leve, para se firmar, sem ouvir nada, nem preocupada em escutar dominada pela casa de máquinas, que lhe parecia um Valhalla masculino, onde máquinas casavam com homens, agora eram parte deles, primitivas, mas ao mesmo tempo futuristas, escravos cuidando de seus amos, e não o contrário.
Sem ser percebido, o sinaleiro aproximou-se por trás e bateu continência. Não sendo visto, ele se adiantou, bateu continência de novo e rompeu o encantamento de Angelique. Entregou a mensagem escrita a Marlowe, que a leu rapidamente depois balançou a cabeça para o sinaleiro e gritou:
— Mensagem recebida! — Ele inclinou-se para Angelique e acrescentou: — Sinto muito, mas temos de subir agora.
Nesse momento, ouviu-se ali embaixo o sino da ponte de comando. O oficial de máquinas apressou-se em cumprir a ordem. Homens correram para fechar válvulas, abriram outras, acionaram alavancas, verificaram os mostradores. À medida que a força do vapor diminuía, o enorme eixo e o motor se tornaram mais lentos, o barulho diminuiu, os foguistas apoiaram-se agradecidos em suas pás, os peitos arfando para aspirar o ar impregnado de poeira de carvão, torceram as toalhas penduradas no pescoço. Um homem virou-se, praguejou, sua voz ainda abafada pelo barulho, abriu a calça e urinou sobre os carvões, num jato que terminou em vapor, sob as risadas dos outros. Marlowe apressou-se em pegar Angelique pelo braço e tirou-a dali. Um foguista a notou, depois outro, e antes que ela desaparecesse, todos olhavam em silêncio para seu vulto se afastando. Assim que ela saiu, um deles fez movimentos obscenos, sob mais risadas, misturadas com um silêncio repentino e triste.
No convés lá em cima, com a súbita falta de barulho, aspirando o ar marinho, ela sentiu-se tonta por um instante, e apoiou-se no braço de Marlowe.
— Você está bem?
— Estou, sim. Obrigada, John. Foi... extraordinário.
— Acha mesmo? — murmurou ele, distraído, sua atenção nos marujos no cordame, içando e ajustando as velas. — Imagino que é a reação de todo mundo, na primeira vez. No mar, durante uma tempestade, as coisas lá embaixo não são fáceis. Foguistas e engenheiros formam uma raça à parte.
Marlowe conduziu-a até Malcolm.
— Lamento, mas tenho de deixá-los por um momento.
Ele desceu para seu camarote, que ficava na popa. O fuzileiro de sentinela bateu continência à sua passagem. O cofre da fragata ficava embaixo de seu beliche. Marlowe abriu-o, nervoso. A mensagem do almirante era curta: “Cumpra as ordens lacradas, l/Al6/12.” Havia no cofre o diário de bordo, códigos, dinheiro para pagamento, livro de pagamento, livro de punições, manuais, manifestos, recibos, os regulamentos navais e vários envelopes lacrados, que recebera dan capitânia naquela manhã.
As mãos tremiam um pouco quando ele encontrou o envelope correto. Seria a ordem de retornar à esquadra ou de se preparar para a guerra? Marlowe sentou à mesa, cercada por cadeiras, tudo aparafusado no convés, e rompeu o lacre.
— Foi extraordinário lá embaixo, Malcolm! Terrível, de certa forma, todos aqueles homens, uma coisa espantosa... e se é assim num pequeno navio como este, como seria num grande vapor... como, por exemplo, o Great Eastern?