— É de fato um navio incrível, Angel. Testemunhei seu lançamento no Tamisa, na última vez em que estive em Londres, há quatro anos, quando concluí a escola... e não pode imaginar como me senti contente por terminar os estudos. O navio é todo de ferro, quatro toneladas, o maior do mundo até agora, construído para transportar emigrantes, milhares de cada vez, até a Austrália. O lançamento prolongou-se por semanas... foi efetuado de lado e quase afundou. O pobre Brunel, que projetou e construiu o navio, quebrou muitas vezes, arrastando várias companhias na queda. Era um navio azarado, pegou fogo na viagem inaugural, quase naufragou... e isso o matou. Nunca viajarei nele... azarado como é, desde o início...
Malcolm avistou Marlowe aproximando-se pelo convés e franziu o rosto. Não havia agora qualquer sinal de jovialidade no rosto do oficial. O contramestre badalou o sino oito vezes. Meio-dia.
— Assuma o comando, Número Um — disse Marlowe.
— Pois não, senhor.
— Por que não leva miss Angelique para a proa? Talvez ela goste de examinar de perto os nossos canhões.
— Com prazer. Vamos, miss?
Obediente, Angelique seguiu-o pelo convés. Ele era baixo, sardento, e da sua altura.
— É galês, Sr. Lloyd? — perguntou ela.
Ele riu e respondeu numa voz monótona:
— Tão galês quanto as colinas de Llandridod Wells, onde nasci.
Angelique riu também, inclinou-se contra o convés inclinado e sussurrou:
— Por que estou sendo afastada como uma colegial?
— Não faço a menor idéia, miss. — Ela viu os olhos castanhos de Lloyd se desviarem para trás, e depois se fixarem nela. — O capitão quer falar sobre o almoço, com certeza, ou perguntar a ele, a seu homem, se quer usar o banheiro. Conversa de homem.
Os olhos sorriam enquanto ele falava.
— Gosta dele, não é?
— O capitão é o capitão. E agora os canhões, miss!
A risada de Angelique ressoou, os marujos nas proximidades ficaram encantados. Malcolm e Marlowe, na ponte de comando, também ouviram, e viraram-se para olhar.
— Ela é uma imagem graciosa, Malcolm.
— Também acho. Mas estava me falando do almoço.
— Acha que é satisfatório? O cozinheiro é de primeira classe na torta de maçã.
O cardápio seria guisado de peixe, pastelão e bolinhos fritos de galinha e carne de porco, galinha assada fria, queijo Cheddar e torta de maçã.
— Tenho duas garrafas de Montrachet 55, geladas, que venho guardando para uma ocasião especial, e um Chambertin 52.
— Você vive muito bem — comentou Malcolm, impressionado.
Marlowe sorriu.
— Nem tanto, mas é um dia especial, e para dizer a verdade, surrupiei o Chambertin... era o favorito do meu velho. E ele me deu duas caixas do Montrachet, quando parti.
— Ele é da marinha?
— É, sim. — A maneira como Marlowe falou expressava surpresa pela pergunta. — É comandante-em-chefe em Plymouth.
Ele hesitou, fez menção de falar, parou.
— Qual é o problema? Recebeu ordem para voltarmos?
— Não. — Marlowe fitou-o nos olhos. — Esta manhã me entregaram diversas ordens lacradas, junto com a permissão de trazê-lo para bordo, e voltar ao pôr-do-sol, sem falta. Há poucos minutos, a nave capitânia ordenou-me que abrisse um dos envelopes lacrados. Não havia uma ordem expressa para lhe contar, nem para deixar de contar. Talvez você possa me explicar tudo. A mensagem dizia: “Devo um favor peculiar ao Sr. Struan, e você pode, se assim o desejar, concedê-lo.”
O mundo parou para Malcolm Struan. Não sabia se estava vivo ou morto, a cabeça girava, e com certeza teria caído se não estivesse sentado.
— Deus Todo-Poderoso! — exclamou Marlowe. — Contramestre, vá buscar uma dose de rum, o mais depressa possível!
O contramestre afastou-se, enquanto Malcolm conseguia balbuciar:
— Não, não precisa... estou bem... mas, para ser franco, um trago de rum seria ótimo.
Ele podia ver os lábios de Marlowe se mexendo, e sabia que era sacudido, mas seus ouvidos não escutavam coisa alguma além das batidas do próprio coração. Um momento depois, no entanto, sentiu o vento no rosto e o som do mar retornou.
— Tome aqui, senhor — disse o contramestre, aproximando o copo de seus lábios.
O rum escorreu pela garganta. Em segundos, Struan sentiu-se melhor. Fez menção de se levantar.
— Melhor ir devagar, senhor — murmurou o contramestre, preocupado. — Parece que viu um fantasma.
— Não um fantasma, contramestre, mas vi um anjo... seu capitão! Marlowe ficou aturdido, e Malcolm acrescentou, tropeçando nas palavras.
— Não estou louco. John... desculpe, capitão Marlowe... há algum lugar aqui em que possamos ter uma conversa em particular?
— Claro. Aqui mesmo.
Contrafeito, Marlowe gesticulou para o contramestre, que deixou a ponte de comando. Só o timoneiro e o sinaleiro permaneceram.
— Sinaleiro, vá para a proa. Timoneiro, tape os ouvidos.
Struan disse:
— Meu pedido peculiar é o seguinte: quero que você navegue para alto-mar e celebre meu casamento com Angelique.
— Como?
Foi a vez de Marlowe ficar atordoado. Ouviu Malcolm repetir, e balbuciou:
— Você está mesmo louco!
— Não, não estou. — Malcolm tinha o controle agora, seu futuro em jogo, com as palavras do almirante, e você pode, se assim o desejar, concedê-lo, gravadas em seu cérebro. — Deixe-me explicar.
E ele começou. Poucos minutos mais tarde, o camareiro subiu à ponte de comando e logo se retirou. Voltou mais tarde, para anunciar:
— Com os cumprimentos do cozinheiro, senhor, o almoço está servido em seu camarote.
Marlowe, no entanto, acenou-lhe outra vez para que se retirasse, concentrado, não querendo interromper.
— ...e esse é o motivo — concluiu Malcolm —, o porquê do almirante, meu, seu, de minha mãe. Agora, por favor, vai conceder meu favor peculiar?
— Não posso. — Marlowe sacudiu a cabeça. — Sinto muito, meu velho. Nunca casei ninguém e duvido que os regulamentos permitam.
— O almirante lhe deu permissão para fazer o que eu pedisse.
— Ele teve o maior cuidado: “conceder, se eu assim o desejar”. Por Deus, meu caro, isso é pôr meu pescoço no laço do carrasco. — Marlowe sentia a boca ressequida, enquanto previa todos os tipos de desastres futuros. — Não conhece Ketterer como eu, nem qualquer outro oficial superior, diga-se de passagem! Se eu escolher errado neste caso, ele vai me esfolar vivo, minha carreira estará liquidada...