— Obrigada, muito obrigada...
— De nada — murmurou Marlowe, embaraçado, e depois apertou a mão de Struan. — Parabéns, meu velho. Por que nós não...
Uma breve rajada fez as velas estalarem.
— Por que vocês dois não descem? — sugeriu ele. — Irei me juntar a vocês daqui a pouco.
Marlowe virou-se, esquecendo-os pelo momento, para cuidar de seu navio.
— Vamos dar a volta, Número Um. Fixe um curso para Iocoama, sob velas até novas ordens. Ligaremos o vapor para ancorar... e talvez enfrentemos alguma chuva. Sinaleiro, dê-me seu bloco. Quando estivermos à vista da nave capitânia, transmita isto.
Edward Gornt sentava à vontade junto da janela panorâmica do prédio da Brock, os pés em cima de uma cadeira, contemplando a baía. As nuvens haviam se espalhado e prometiam uma tempestade, embora naquela época do ano se dissipassem tão depressa quanto surgiam. Por trás dele, Norbert Greyforth se encontrava sentado à sua escrivaninha, absorvido no trabalho. Haviam observado a Pearl sumir no horizonte, mas não atribuíram qualquer significado especial a isso.
— Imagino que é parte dos testes que estão realizando, senhor — dissera Gornt. — Ainda não consigo conceber o que há de tão importante a bordo.
Norbert balançara a cabeça, secretamente divertido, e voltara a assinar e conferir documentos e manifestos. Havia um cargueiro da Brock no porto, deveria zarpar dentro de poucos dias, e toda a carga que levaria do Japão tinha de ser contabilizada: vinte quilos de ovos de bicho-da-seda para o mercado francês — trinta a cinquenta mil ovos em cada trinta gramas —, fardos de seda crua e panos de seda para o mercado de Londres, objetos laqueados, barris de saquê que estavam tentando introduzir no mercado inglês, e também para os japoneses nas Filipinas, cerâmicas baratas como lastro, carvão, qualquer coisa e tudo que pudesse encontrar um mercado, junto com o resto da carga trazida antes que não fora vendida e seria agora negociada na volta. Algumas armas de fogo e ópio, em caixotes especiais.
— Charuto? — indagou Gornt.
— Obrigado.
Eles acenderam os charutos finos e compridos, saboreando-os.
— Marquei um encontro com McFay para finalizar os acertos para amanhã, senhor.
— Ótimo.
Norbert soprou para o alto uma nuvem de fumaça, assinou o último documento. Tocou uma sineta. Um momento depois, seu escriturário-chefe e cambista entrou na sala.
— Está tudo pronto, Pereira.
— Certo, senhor. — Aquele homem pequeno e louro, com olhos orientais, era um eurasiano de Macau, como muitos que trabalhavam em todas as grandes companhias. — O que faremos com as cargas especiais, senhor?
— Ficam fora do manifesto e deverão ser entregues aos cuidados especias do capitão.
— Corre um rumor de que a marinha vai subir a bordo e fiscalizar a carga ao acaso.
— Pois que façam isso. Nenhuma de nossas cargas especiais é ilegal, não importa o que os idiotas dos Struans façam.
Norbert dispensou-o e concentrou toda a sua atenção em Gornt. Alguma coisa nele deixava-o desconfiado.
— Edward, talvez eu devesse cancelar o duelo, comunicar a Struan esta noite que aceito seu compromisso, pois ele já mordeu a isca, não é mesmo? Talvez seja melhor deixá-lo ir para Hong Kong, para se afundar ainda mais na merda, pensando que venceu. O que acha?
— Pode fazer isso, mas por que poupá-lo de uma noite de medo? Ele está apavorado, com toda certeza... por que confortá-lo? Struan por acaso o confortaria?
Norbert observou-o com toda atenção, viu o lábio superior se contrair ligeiramente, numa satisfação insidiosa. Riu para si mesmo, pensando no quanto aquela noite poderia ser especial para Struan, se Ketterer fosse um homem diferente, e que a perspectiva do duelo, agora mais do que nunca, tiraria o que restava do sono de Struan.
— Não pensei que se ajustasse a nós, os Brocks. A vingança é doce para você também?
— Para mim, senhor? — Gornt alteou as sobrancelhas. — Eu pensava no senhor... estou aqui para servi-lo, não foi essa a idéia?
— É verdade. — Norbert ocultou seu sorriso. — Muito bem, deixaremos para amanhã. Mas agora...
Seus olhos aguçados divisaram uma mancha no horizonte, através da janela Por trás de Gornt.
— Será a Pearl?
Ele se levantou, foi até janela, focalizou seu binóculo. Era mesmo a fragata.
— Vem firme como foi — murmurou Gornt.
Gornt se perguntou o que isso podia significar. A Pearl se achava no processo de ferrar as velas, com nuvens pretas por trás.
— O vento está aumentando por lá — comentou Gornt, também focalizando seu binóculo.
A fumaça da fragata formava um ângulo ao sair da chaminé. O resto da esquadra e os navios mercantes estavam ancorados na baía. Umas poucas cristas espumantes. Norbert virou seu binóculo para o Prancing Cloud. Nada de estranho acontecendo ali. E depois para a nave capitânia. Também nada. Voltou a observar a fragata. E ficaram esperando. A Pearl aproximava-se depressa. A nave capitânia outra vez. Nada. A fragata. Norbert pôde reconhecer apenas Angelique, de pé ao lado de um homem, que devia ser Struan.
— Olhe ali! — exclamou Gornt de repente, excitado. — Pode ver o sinaleiro?
— Onde? Ah, sim, estou vendo.
— Ele está transmitindo uma mensagem para a nave capitânia, fazendo os primeiros sinais com as bandeiras. “Capitão da Pearl para almirante. A mensagem diz: P-E-D-I-D-O C-O-N-C-E-D-I-D-O” — Perplexo, Gornt olhou para Norbert por um instante. — O que isso significa?
— Observe a nave capitânia, à espera de alguma resposta!
Gornt obedeceu e Norbert acrescentou:
— Onde aprendeu a ler as bandeiras de sinalização da marinha?
— Em Norfolk, Virgínia, senhor. Quando era garoto, gostava de observar os navios, os nossos e os britânicos. Tornou-se uma espécie de passatempo. Depois, meu pai comprou um livro americano e outro britânico, com a maioria das frases padrões e alguns de seus códigos. Costumava ganhar apostas para meu pai quando ele recebia oficiais, em geral para jogar cartas. Minha mãe e ele gostavam de receber, sempre com a maior generosidade, antes do desastre com o algodão, quando perderam a maior parte de seu dinheiro.
— Pode ler todas as bandeiras? Todos os códigos? — perguntou Norbert, especulando como poderia aproveitar esse conhecimento de Gornt. — Seria capaz de ler as bandeiras da Struan, de navio para navio, ou de navio para terra?
— Se usarem os códigos internacionais de sinalização, embora seja provável que eles também tenham, como a Brock, códigos especiais... Espere um instante, uma mensagem da nave capitânia, no código normal. “Para capitão da Pearl de almirante Ketterer: Volte imediatamente a seu ancoradouro.” Em seguida: “Quando ancorado em segurança, apresente-se na nave capitânia.” Em seguida as letras “C-O-M E-L-E”. Última bandeira padrão: “Acuse recebimento.” — Gornt lançou um olhar rápido para trás. — “Com ele”, Sr. Gornt? Seria Struan?