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— Minha ordem foi enunciada com clareza: Se você solicitasse um favor peculiar, ele poderia concedê-lo, se assim o desejasse. Ontem à noite, não mencionou que gostaria de ir para alto-mar? Seu pedido peculiar poderia ser apenas isso... as ordens dele eram para realizar os testes à vista da nave capitânia.

Struan se esforçava para manter o controle, sentindo os recifes do desastre sob seus pés.

— Tem razão, senhor, poderia pensar assim. Se houve algum mal-entendido, foi meu, não do capitão Marlowe.

— Anotarei isso, Sr. Struan.

Malcolm observava o homem mais velho com todo cuidado, e escutava com mais atenção ainda, querendo descobrir para onde o almirante ia, agora com receio de que houvesse uma continuação do jogo de gato e rato. Estou outra vez em suas garras... nunca conseguirei escapar?

— Posso perguntar, almirante, por que deu ao capitão Marlowe o que foi talvez uma permissão qualificada, mas que eu certamente interpretaria da maneira errada? — Ele manteve o rosto impassível, não esquecendo que estava casado, até que a cerimônia fosse declarada ilegal. — Nunca pensei que o faria, ontem à noite.

Durante a noite, Ketterer fora assediado pela presença de Consuela. “Dê uma chance a esse rapaz, Charles”, dissera ela, com aquele seu sotaque melodioso e adorável, tão sensual na memória quanto a profundidade de seus olhos castanhos em vida. “Nunca nos deram uma chance. Sendo assim, por que não dar a ele? E não se esqueça de que você não era muito mais velho do que ele na ocasião. Obteve dele um gigantesco passo à frente e pode ter certeza de que o rapaz cumprirá sua promessa. Por que não ser generoso... como os nossos pais e o infame almirantado não o foram? Ele está muito apaixonado, Charles, como acontecia com você, mas ao contrário de você, já sofreu um golpe cruel, pelo capricho de Deus...”

Ele acordara com as palavras de Consuela ressoando em seus ouvidos, a maneira como ela pronunciava seu nome ainda fazendo o coração disparar, mesmo depois de tantos anos. Mas não é a mesma coisa, pensara ele, endurecendo seu coração. Os Struans são contrabandistas de ópio, contrabandistas de armas... não esquecerei meus marujos mortos. Sinto muito, meu amor há tanto tempo perdido, mas o casamento será declarado ilegal imediatamente... Struan não vai se livrar tão fácil. O dever é o dever.

Agora, olhando para Struan, recordando a maneira como ele entrara, determinado a parecer forte, quando Hoag e Babcott haviam confirmado em particular que ele sentia uma dor quase que constante, e era duvidoso que algum dia voltasse a correr, ou que pudesse andar a cavalo sem problemas, recordando as palavras ao contrário de você... pelo capricho de Deus... Ketterer suspirou.

— Um súbito capricho, Sr. Struan — disse ele, resolvendo ser indulgente —, somado à convicção de que vai fazer o que prometeu.

O almirante levantou-se, com um sorriso nos olhos, foi até o aparador sentindo-se curiosamente jovem.

— Aceita um xerez?

— Obrigado.

Struan começou a se levantar, mas balançou, fraco de alívio pela admissão de Ketterer.

— Pode deixar que eu levo até aí. Tio Pepe? Ótimo. Saúde!

Tocaram os copos. Ketterer tomou um gole grande.

— Escute, meu jovem — disse ele, a voz inesperadamente suave e gentil — terei de consultar Sir William, é claro, e vou persuadi-lo a ler os regulamentos navais. É mais do que provável que o relatório do capitão Marlowe seja aceito, depois das devidas considerações... devemos cuidar para que nossos oficiais sempre estejam conscientes das consequências da ação independente, mas ele não se encontra em nenhuma “encrenca”, para repetir seu termo. Só que isso é outro segredo entre nós. Entendido?

— Claro, senhor. Obrigado. Cumprirei o que prometi. — Malcolm respirou fundo. — Então meu casamento é legal?

— Isso depende do seu ponto de vista. No que me diz respeito, no que se refere à marinha, essa é a minha convicção, e portanto deve ser legal. Quanto às duas Igrejas envolvidas, e às inevitáveis objeções jurídicas que terá de enfrentar, sugiro que corra as escotilhas, e se prepare para o pior. Mais uma vez, meus parabéns, por um lado. E transmita meus cumprimentos à Sra. Struan... em particular, é claro.

43

Ao anoitecer, A notícia já se espalhara por toda a colônia, cidade dos bêbados e Yoshiwara.

As especulações foram imediatas, ruidosas, com muitas discussões, teorias contra e a favor do casamento, alguns prevendo que a cerimônia era totalmente ilegal, outros repudiando isso, com a maior veemência, muitos dos mercadores mais belicosos — e todos os moradores da cidade dos bêbados — usando palavras de baixo calão, gestos obscenos e punhos cerrados para defender suas posições, enquanto uns poucos dos mais sensatos diziam:

— Ah, o jovem patife esperto, então foi por isso que ele apoiou o almirante! Foi um acordo! Muito hábil... eu faria a mesma coisa, se estivesse no lugar de Struan. E agora que ele tem a garota, ainda será contra o comércio de ópio, contra o comércio de armamentos? Não há a menor possibilidade...

Por causa da notícia, irromperam várias brigas na cidade dos bêbados e um bar foi destruído pelo fogo. Circulou o rumor de que o padre Leo sofrera um ataque apoplético e agora se encontrava prostrado diante do seu altar, enquanto o reverendo Tweet, naquele exato momento, protestava com veemência num encontro com Sir William. No clube, Lunkchurch e Grimm, inevitavelmente em lados opostos, iniciaram mais uma batalha e foram jogados na rua.

Malcolm e Angelique estavam na cabine da lancha da companhia. Aproximaram-se do cais, de mãos dadas, e avistaram um grupo à espera ali, para lhes dar os Parabéns, com Jamie McFay à frente. A prometida tempestade não se concretizara e apenas caíra um chuvisco no final da tarde. O vento ainda soprava forte, o céu continuava nublado, mas isso não arrefeceu a explosão de boas-vindas. Lá vamos nós, Sra. Struan — disse Malcolm, abraçando-a.

Ela beijou-o e sussurrou:

— É verdade, meu marido querido. Oh, Malcolm, parece tão estranho, tão maravilhoso... Não é um sonho, não é?

— Não, embora eu também sinta a mesma coisa.

O Cúter balançava no mar agitado, jogando-os um contra o outro, aos risos, e que aproximou de lado do cais, entre gritos e aplausos, na atracação mais impecável que o contramestre já efetuara.

— Depressa nos cabos, rapazes! — ordenou ele.

Mas nem havia necessidade, pois mãos ansiosas recolheram os cabos, prenderam nos postos, com vários marujos se adiantando para ajudar.

— Parabéns, tai-pan, Sra. Struan! — gritou Jamie.

Os gritos e aclamações chegaram ao clube, no outro lado da High Street. Todos saíram para a rua, tirando o chapéu, até mesmo a Sra. Lunkchurch e a Sra. Grimm, contagiadas pelo espírito festivo.

Gornt e Norbert Greyforth observavam de janelas do segundo andar do prédio da Brock. Todos os criados chineses agrupavam-se diante das casas, de olhos esbugalhados, enquanto os samurais no portão norte se mostravam aturdidos. Os ministros e suas equipes saíram das respectivas legações: Sir William, com uma expressão severa, acompanhado por um risonho Phillip Tyrer e por Michaelmas Tweet, com um ar sombrio, furioso; Zergeyev radiante, aplaudindo com o maior entusiasmo; Dmitri, gritando parabéns e acenando com uma bandeira americana; e Seratard e André, divididos entre a exultação pelo fato de o casamento ter se consumado e a irritação por não terem sido consultados.